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domingo, 18 de março de 2012

Leitura e reflexão – J. T. Um conto de fadas punk


Sei que normalmente dedico este blog, e em especial esta coluna, a falar acerca de livros, contudo, peças de teatro também são gêneros literários, tão antigos quanto à poesia e as crônicas, e mais até que os romances. E apesar de eu não ter lido a história “J. T. um conto de fadas punk”, tive a oportunidade de assisti-la no Centro Cultural Banco do Brasil esta semana.

O texto de Luciana Pessanha narra a “história real” de Jeremy “Terminator” Leroy, um famoso escritor estadunidense que, ao escrever duas autobiografias – “Maldito Coração” e “Sara” - contanto os casos de abuso que sofreu na infância, a adolescência nas ruas onde se prostituía com caminhoneiros e os problemas que teve com drogas e álcool, acaba por se tornar uma celebridade instantânea, cercada de fãs e respeitada por artistas das mais diversas áreas. Com uma história tão obscura e uma coragem absoluta em retratá-la em páginas, J. T. Leroy ganha o público. O problema: a biografia é falsa. Leroy não existe.

 Com fortes cenas de humor e drama, mescladas de forma que espectador vive um intenso conflito entre decidir se deve rir ou se emocionar, a peça é um excelente programa para aqueles que curtem uma história bem feita, com bons atores e cenas que nos obrigam a pensar. E este último requisito é justamente o objetivo desta coluna, por isso o lugar de destaque que coloco aqui para “J. T. Um conto de fadas punk”.

A ação humana é capaz de mudar o mundo, de marcar as pessoas de tal modo que sua memória permanece viva até os dias vindouros. Isabel assinou a Lei Áurea e até hoje é considerada o símbolo da redenção; há mais de vinte anos, um jovem chinês se transformou no ícone da luta pelos direitos humanos ao se lançar em frente aos tanques de guerra do Partido Comunista Chinês para protestar contra o regime opressor instalado em seu país. Ações humanas, que são interpretadas hoje como valorosas e que nos motivam a tomar nossas próprias escolhas.

Até então estamos falando apenas de personagens de carne e osso, mas e se estes não tiverem? E se existirem apenas em papel e tinta? Seriam suas existências desprezadas apenas por isso?

Mesmo na história temos personagens cuja existência ainda não pôde ser provada. Rei Arthur, por exemplo, durante séculos povoa o imaginário ocidental sem que ainda se tenha encontrado provas de sua real existência. Contudo, o fato de não se poder atribuir total veracidade a sua existência não o impediu de durante anos servir de inspiração para histórias e movimentos de nacionalidade do povo inglês. E mesmo personagens que foram criados com intuito totalmente ficcional não podem ser privados de sua importância para criar o mundo que temos hoje. Como a Capitu de Machado de Assis, cujo caráter ambíguo e os fascinantes olhos de ressaca serviram de inspiração não apenas para outras histórias ficcionais como também para se pensar em questões importantes como o papel da mulher em nossa sociedade e a instituição do casamento na mesma. Ou, para usar um exemplo bem contemporâneo, posso citar o nosso cavalheiro das trevas, Batman, que até hoje é talvez aquele super herói que mais nos obriga a pensar nesses papeis de mocinho e vilão em nosso mundo. Em como um homem a margem da sociedade pode, na verdade, ser a salvação em uma sociedade corrupta como a nossa.

O caráter imaginativo nunca impediu a ficção de conseguir atingir o nosso mundo. Os fenômenos da fantasia são assim, recheados de coisas que nos obrigam, mesmo sabendo de seu cunho mentiroso, a pensar acerca da possibilidade de sua existência. Locais como fonte da juventude, o Shangri-la, Atlântida. Pessoas como Robin Wood e a idéia de um herói ladrão. Romeu e Julieta e o desejo do amor impossível. Dorian Gray e a busca humana pelo prazer e juventude. Enfim, a literatura está repleta de personagens fictícios cuja sua origem fantástica não os impediu de marcarem nossa realidade.

E neste contexto, J. T. Leroy entra como um bom pretexto para se falar nesse tema. É por isso que eu recomendo àqueles que possam, de ir prestigiar. Vale à pena.



Informações:

JT - Um Conto de Fadas Punk

16 de Março a 27 de Maio

Local: Teatro I | CCBB RJ - Rua Primeiro de Março, 66 - Centro

Horário: De quarta a domingo, às 19h

Texto: Luciana Pessanha.

Direção: Paulo José.

Elenco: Natália Lage, Débora Duboc, Nina Morena, Hossen Minussi e Roberto Souza.

Duração: 90 min.

Classificação: 16 anos

Telefone: (21) 3808-2020

Ingressos: R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia entrada)



Bom espetáculo

quinta-feira, 8 de março de 2012

Moda e inovação


Moda é uma palavra que tende a ser um divisor de águas, pois ela delimita claramente a fronteira entre aqueles que querem ser integrados e aqueles que acreditam que ser como os outros é a pior coisa possível. Muitos desejam estar na moda, gostam de se sentirem atualizados, fazer parte de um grande grupo, perceber-se integrados ao mundo. Outros, em contrapartida, preferem seguir a linha underground, estarem constantemente contra a maré, testarem suas individualidades e serem diferentes a cada dia.

Na literatura, isso não acontece de forma diferente. Temos grandes ciclos de temáticas que povoam os Best Sellers das prateleiras. Tivemos os ciclos das teorias de conspiração, com o apogeu de O Código da Vince. Observamos as fases sobrenaturais, dos bruxos, dos vampiros, dos anjos. E em todas elas, existiram aqueles que abraçavam a causa de forma apaixonada, e aqueles que detestavam as tendências de maneira intensa. Até aí, tudo normal.

É comum que haja conflitos entre essas duas forças, pois aqueles que desejam defender seus gostos farão de tudo para firmar suas escolhas e acusar aqueles de que delas não partilham de algo. Os que estão na moda chamarão os undergrounds de invejosos, arrogantes, enquanto os que estão à margem das modas vão apontar para os outros e dizer que não passam de seres alienados, sem personalidade.

Mas então, você autor, como agir dentro dessa sinuca de bico? O terreno da moda é sempre perigoso, pois como autor, seguir uma tendência já consolidada pode dar muito certo, como também acabar tudo errado. Pois se eu escrevo hoje um livro cuja temática já está passada, corro o risco de, além de atrair os comentários maldosos dos undergrounds que vão me chamar de vendido, também posso acabar despertando o desgosto daqueles que estão inclusos na moda, isso porque estes, normalmente engajados no fã clube de algum autor, me chamarão de plagiador e sem criatividade.

Eh meus amigos, escrever não é fácil, ainda mais em um mundo em que a leitura está tão disseminada. Pois basicamente chegamos a um ponto em que inovar totalmente está fora de cogitação. Não importa a idéia mirabolante que tenhamos, será basicamente impossível não encontrar, em qualquer parte do mundo, alguém que já não tenha pensado naquilo antes de nós. Enfim, se quisermos ser completamente inovadores naquilo em que propomos escrever, temos muito trabalho a fazer.

Mas também, deixando o pessimismo de lado, o fato de uma temática já estar batida não significa que você não possa inová-la ainda assim. Trazer algum ponto original que faça toda a diferença na análise do todo. Acontece que hoje em dia todos aqueles que querem se aventurar por uma nova escrita esbarram no medo de ter a sua obra confundida com a de outro autor. O que eu tenho a dizer simplesmente é: relaxe, pois ela vai ser confundida mesmo. (risos)


Não importa o quanto você inove ou tente trabalhar um assunto por uma temática mirabolante. Sempre haverão aqueles pontos em que seu trabalho irá ao encontro de outro já produzido, seja de forma clara ou numa simples menção. E neste momento, pode apostar que existirá aquela pessoa que apontará essa característica, seja para louvar, seja para ridicularizar.

Neste sentido, o que quero dizer é que não é apenas estando no campo da moda que sua obra corre o risco de indicar referências a outros trabalhos. Isso é algo já preso na vida, pois por mais que você não tenha contato com a obra de referido autor, de alguma maneira você faz parte da mesma cultura que ele, esse autor compõe, em maior ou menor grau, a tradição na qual você foi criado. E assim, independente de você tê-lo ou não lido, acabará por absorver parte de suas idéias na vida, pois suas idéias influenciaram uma geração que, por vias indiretas, passam esse aprendizado para você.

Hoje o que temos é que os ciclos de moda estão muito intensos. Temos os grandes temas que viram febre e isso torna essa relação de inspiração e aprendizagem muito clara. E logicamente, também muito irritante. É normal que você, ao não gostar de determinada tendência, e vendo esta se espalhando a sua volta e invadindo seu espaço privativo, acabe por odiá-la. Mas isso não deve obscurecer a idéia de que o ato de copiar é algo intrínseco ao ser humano. Eu posso não me sentir inspirado pelos autores contemporâneos, que são os mais vendidos de minha geração, mas é claro que irá haver aquele autor, mesmo que distante e esquecido no tempo, que me deixará sua marca e que esta aparecerá em minha escrita.

Inspiração não é ruim, pois ela não impossibilita a originalidade. Porque, a menos que copiemos cada linha de um trabalho já escrito, o nosso livro terá aquela pitada nossa, aquele detalhe que é nosso e exclusivamente nosso. E nessa mistura de algo copiado com um toque de acréscimo estará um trabalho original. Volto a dizer, hoje vivemos o apogeu das grandes temáticas literárias, mas elas são apenas a intensidade máxima daquilo que já é comum na literatura. A moda é simplesmente o ponto de encontro de diferentes autores que partilham de um gosto comum e que acabam por chamar demasiada atenção em um mundo governado pela mídia de massa. E é claro que terão aqueles que odiarão e aqueles que amarão estas modas. Tudo isso porque faz parte também do ser humano o gosto pelo conflito.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Conto: Personagem

Salve salve amigos.
Estava remechendo meu computador e acabei encontrando este texto que escrevi já faz algum tempo. Trata-se de um conto produzido para participar de uma antologia, contudo, como o mesmo não foi aceito e eu tenho certo pavor de trabalhos que são escritos porém jamais encontram um leitor para si - aqueles que me conhecem sabe do que estou falando (risos) -, decidi por disponibilizá-lo aqui para vocês.
Espero que gostem.
Abraços

Willian Nascimento

Personagem


Victória Martins era o tipo de mulher que toda a garota queria ser. Rica, bonita, independente e famosa, era daquelas capazes de ter o homem que queria, além de ser invejada por nove a cada dez pessoas no país inteiro. Mas nenhuma pessoa no mundo sentia tanta inveja de Victória Martins quanto à própria.
Autora de livros de auto-ajuda, Victória era o arauto de esperança para milhares de mulheres que compravam avidamente seus livros. Sendo umas das maiores imagens do mundo feminino, transparecia uma imagem quase inalcançável para suas leitoras, pregando como uma mulher do séc. XXI deveria se portar.

“A mulher moderna tem de ser, antes de qualquer coisa, segura de si”

Escrevia em seu notebook, estando sentada confortavelmente na cama de seu apartamento em Ipanema. Victória vestia pijamas e roupão, e mantinha seus cabelos despenteados e rosto sem maquiagem. Uma regalia que se permitia sempre que estava dentro de sua residência, onde as câmeras não a alcançavam. Onde ela podia ser mais ela mesma.

“Após séculos vivendo sob as regras de um mundo governado por homens, aprendemos finalmente como inverter o jogo, e hoje, cada uma de nós é capaz de guiar seu destino, não dependendo mais desses macacos portadores de falo para termos alguma razão para viver.”

Victória estalou os dedos, espreguiçando-se longamente enquanto mexia a cabeça de um lado para o outro para relaxar os músculos do pescoço. Quando se virou para a direita, permitiu a si mesma uma breve olhada ao retrato que repousava sobre mesa de cabeceira. Nele, a foto de um homem de meia idade, bem conservado, sorria para ele.
Espero que esteja se divertindo com aquela vadia, querido. Pensou com ironia antes de voltar a escrever.

“Depois de dois anos divorciada, aprendi que somos mais do que mães, esposas, companheiras. Nós somos nós mesmas. Somos mulheres, somos profissionais, somos donas de nossos próprios narizes. Confesso que já chorei muito por causa de meu ex-marido, mas hoje percebo que eu chorava na verdade por mim mesma. Pela mulher que deixei para trás por anos, enquanto fingia ser somente a senhora Braga, que vivia em função de esperar de braços abertos o marido quando este chegava do trabalho, que era submissa, que sempre concordava com tudo que seu amado dizia.”

Enquanto digitava freneticamente, percebeu que no canto de sua tela um alerta de mensagem em sua caixa de e-mails piscava. Curiosa, pressionou Alt + Tab em seu teclado e a tela de seu e-mail se abriu diante de si. A remetente da mensagem era Jéssica Cortes, e tal nome fez um sopro de impaciência esvair-se dos pulmões da escritora. Jéssica era uma menina um tanto quanto tola, que há uns dois dias havia contatado Victória para pedir conselhos quanto a sua relação conjugal. Victória não era do tipo que atendia uma por uma de suas fãs, mas a pobre menina despertou seu carinho e decidiu responder a um de seus e-mails só para que ela pudesse sentir-se mais importante.
Contudo, naquelas poucas 48 horas em que a relação se desenvolveu, sua paciência já foi levada ao limite. Decidiu então que este seria o último contato respondido.

Jéssica Cortes disse:
Querida Victória. Desculpe por mais uma vez vir lhe importunar, mas desta vez venho lhe dizer que não corro atrás de seu tempo com mais dos meus problemas, mas sim lhe escrevo para agradecer a toda a ajuda que me ministrou.
Graças ao gelo que dei em Rodolfo, seguindo um conselho seu, ele agora parece se interessar por mim novamente. E com isso, poderei reacender a chama de nosso casamento, que ainda é tão jovem. Completaremos apenas dois anos na semana que vem.
Bem, não vou me demorar mais. Só vim agradecer.
Obrigado.

Victória torceu o nariz ao ler a mensagem e decidiu que não poderia deixar aquela pobre alma fazer a besteira que planejava. Rindo da imbecilidade de sua correspondente, digitou uma curta mensagem:

Victória Martins disse:
Cara Jéssica. Percebo que não deu ouvidos a tudo o que eu lhe disse outrora, não é mesmo? Quando pedi para que se afastasse de seu marido, não me referi a dar um simples “gelo” nele, mas sim que se libertasse dessa relação doentia. Não percebe que ele não lhe ama mais? Que não quer estar contigo? Se ele voltou agora é apenas porque sentiu saudades de visitar suas pernas. Não dê isso a ele. Só espero que me escute desta vez.
Com carinho,
Victória

Não precisou esperar muito para receber:

Jéssica Cortes disse:
Bem... Acho que vou seguir seu conselho então.

Com um sorriso enviesado, começou a digitar:

Victória Martins disse:
Acredito que seja o melhor. Sei que é difícil, mas

Mas o telefone tocou, forçando-a a parar de escrever para atender:
— Alô.
— Querida, tenho uma ótima notícia – era a voz de Kátia, sua editora. — Acabo de falar com o Andréias, e ele me confirmou que hoje à noite que você é uma das convidadas de honra da festa de lançamento da nova coleção Lumus. E com um pouco de sorte, será sua próxima garota propaganda.
— O que? — deixando o notebook de lado, ela se inclinou para frente como se pudesse tocar sua interlocutora e beijá-la — Sua filha da mãe, você...
— Exatamente — completou Kátia, cheia de si — Eu consegui convencer os responsáveis pelo Marketing da Lumus de que você é perfeita para liderar a nova campanha.
— Oh meu Deus! — levou a mão à boca — Oh meu Deus, oh meu Deus! Não acredito...  — e gritou.
Kátia riu do outro lado da linha.
— Eu sei — concordou — Sei como deve se sentir.
— Eu te amo! — exclamou.
— Também sei disso — respondeu sem nenhuma modéstia. — Mas devo lembrá-la de que a festa de lançamento da nova coleção é hoje à noite. Então, esteja pronta às dez. Um carro irá aí te buscar.
— Deixe comigo! — E pulou da cama, pondo-se de pé. — Estarei pronta.
— Boa sorte — desejou.
— Obrigado — e desligou.
Ignorando completamente o computador pessoal, correu para o banheiro onde parou de frente ao espelho para ver sua própria face de alegria. Victória não era capaz de segurar a euforia que avassalava seu coração. Nem podia crer que seria a garota propaganda da Lumus, uma das maiores empresas de cosméticos e moda do país. Sem dúvidas que seu nome seria perfeito para ser vinculado à nova linha, que era voltada para mulheres independentes e bem sucedidas.
— Você é perfeita para a linha, Victória. — falou para si mesma diante do espelho.
Sorriu alegremente antes de abrir o armário atrás do espelho para pegar os sais de banho. Naquela noite, teria que está bem perfumada. Contudo, quando tocou o pequeno frasco rosa, uma voz vinda não se sabe de onde cortou o silêncio do banheiro.
— Você? Ou está se referindo a mim?
Victória parou num instante, olhando em volta assustada a procura da estranha voz.
Nada encontrou.
— Afinal, Victória Martins é a mulher perfeita para a campanha. E você não é Victória Martins — continuou a voz.
Desta vez, não havia nenhuma chance de Victória ter ouvido coisas. Então, a simples curiosidade começou a ser substituída pelo medo atenuante, conforme a mulher revirava os olhos e vistoriava o banheiro sem coragem de mexer o rosto.
Nada.
— Quem está aí? — decidiu por fim arriscar.
Nada.
Desistindo de esperar pela resposta e enchendo novamente o coração de esperanças, Victória decidiu fechar o armário do banheiro e retomar seus afazeres, julgando não ter passado de alucinação a voz ouvida. Mas o susto só foi atenuado quando ao fechar a porta e dar de cara com o espelho, encontrou diante de si uma versão sua estampada com um sorriso frio e estudado.
Um grito quase irrompeu de seus pulmões ao dar de frente com aquela imagem sua, mas ela foi capaz de segurar o brado com a mão, que tampou toda a boca quase a sufocando com seu aperto. A mulher diante de si sorriu de forma mais insinuante, deixando aparecer sua fileira de dentes bem feitos. Victória encarou a si mesma, assustada. O que estava acontecendo?
— Victória Martins... — A imagem estalou a língua — Victória Martins, grande escritora, Best Seller nacional. Mulher independente... — e revirou os olhos — Hunf! —Você está me descrevendo querida, e não você.
— Quem é você? — conseguiu enfim perguntar, mesmo que de forma rápida e nervosa.
— Sou Victória Martins — respondeu o reflexo.
— Não seja tola — rebateu, mas logo se arrependendo devido ao medo que sentia. — Eu sou Vitória Martins! — falou num tom um tanto mais contido.
— Pode até ser... — cogitou — A Victória Martins, filha de Yolanda e Bernardo Martins. A Victória Martins, autora de sucesso. Até a Victória Martins, ex-mulher de Otávio Braga. Mas não a Victória Martins de “Segredos do Sucesso”, ou de “Como viver bem estando solteira”. Esta sou eu.
— Do que você está falando? — quis saber.
— Simples. Do fato de você estar me usando para conseguir vender as porcarias de seus livros. De estar me usando para ser a garota propaganda da marca Lumus. Cansei de ser usada por você. Cansei de sua inveja de mim.
— Você está louca — retrucou Victória — Você não passa de uma alucinação de minha cabeça.
— Está enganada mais uma vez — respondeu — Eu sou mais. Sou mais do que uma ilusão. Sou mais do que devaneios de uma mente insana. Eu sou a criação de seus desejos, de sua fome, de sua inveja. Você inveja as mulheres comprometidas, Victória. Inveja aquelas que se realizam na vida ao lado do homem dos sonhos. Você as inveja, por isso vive pregando que as mulheres têm de ser solteiras, pois não consegue aceitar o fato de não ter conseguido manter um homem entre as suas pernas.
— Eu não preciso ouvir isso — e se virou, para sair do banheiro, mas uma força invisível a segurou na posição em que estava, mantendo-a diante do espelho e de seu reflexo distorcido.
— Fique! — ordenou a imagem refletida — Fique e ouça a verdade.
— Você não sabe de nada — Victória acusou.
— Se engana — rebateu — Desde que você me criou, ao escrever “Segredos do Sucesso”, que eu venho lhe observando. Que venho lhe estudando e comprovando o quão patética você é. Achou mesmo que poderia esconder isso de todos?
— Quem é você? — insistiu.
— Eu sou Victória Martins, a personagem principal de seus livros. A mulher que você criou para seguir e copiar. Para ser sua imagem veiculada na mídia. Eu sou a coragem que você não tem, a independência que lhe falta, e a realização que você deseja. Eu sou aquela que você criou para se vingar daquelas que sente inveja.
— Eu não sinto inveja de ninguém — contestou nervosa.
— Sente sim. — continuou a imagem — Sente inveja de cada mulher, seja na vida real ou na ficção, que se realizou matrimonialmente. Sente inveja de sua mãe, cujo casamento sobreviveu aos vários anos juntos. Sente inveja de seus amigos que se casaram e formaram família, enquanto você se divorciou em menos de dois anos de casada. E você sente inveja de Miranda, a ex amante e atual noiva de Otávio. Pois ela está com o homem que deveria ser seu.
— Cale a boca. — ordenou com a voz trêmula e baixa.
— Como toda a invejosa — continuou, ignorando a ordem recebida — você tende a desdenhar do que não vai ter. Prega que o caminho correto é o inverso, apenas porque você mesma não foi capaz de seguir o mesmo que os demais. Como um corredor que está em último lugar e de repente muda sua rota, passando a correr no sentido oposto só para ter a ilusão de que lidera a corrida.
— Calada. — falou com mais convicção, apesar de a voz ainda estar fraca.
— Então você criou uma imagem de você que queria que existisse. Então me criou: uma Victória Martins muito mais forte do que você jamais foi e como nunca será.
— Chega! — bradou.
— Mas nem sequer me criando você conseguiu paz. — sibilou — Pois agora, além de invejar todas as mulheres realizadas no amor, você inveja a mim. A mim que fui criada contra a vontade, que vim para ser a mulher que você deseja ser, mas não consegue. A mim, que não sou sequer a sombra da derrota que você é...
— CHEGA!
E neste momento, toda a raiva de Victória foi direcionada contra sua atacante. E erguendo o punho, desferiu um pesado golpe contra o vidro, arrebentando sua imagem refletida em mil pedaços. Pequenos cacos caíram, tintilando ao tocarem o chão.  E com eles, grossas gotas de sangue tingiram o piso branco de rubro.
— Chega... — engasgou-se chorosa.
— Não acabou... — ouviu dizer, mas desta vez o som não parecia vir do nada como anteriormente, mas sim de um ponto específico.
Atrás dela.
Virando-se em um salto, deu de frente para com uma imagem exata dela mesma, com as mesmas roupas e as mesmas feições. Tentou andar para trás, mas a pia do banheiro a impediu de se afastar. Tateou o lugar atrás de algo, até encontrar um pedaço de vidro grande o suficiente para lhe servir de faca.
— Afaste-se de mim — ameaçou, erguendo o vidro entre seus dedos.
— Quanto ódio — constatou com pena. — Tanto ódio contra as mulheres felizes, contra os homens, contra mim... — pausou — mas a única pessoa que de fato desperta seu ódio é aquela que você tentou encontrar olhando para o espelho, mas não encontrou...
A imagem deu um passo à frente, pegando a mão instável de Victória que segurava a arma.
— Victória, Victória... — e levou a mão da mulher para perto do próprio pescoço — Você não quer me matar — e deixou a ponta do vidro tocar seu sua pele. — Pois eu sou sua maior criação. E por maior que seja sua inveja, você, no fundo, me ama. Me ama porque nunca será como eu. Me ama porque eu sou aquela que pode lhe dar alguma esperança nessa sua vida medíocre. E me ama porque sou eu quem vou conseguir o contrato com a Lumus no nosso nome.
E sem deixar tempo para que Victória pudesse responder, largou a mão dela e caminhou até a porta, onde abriu para sair. Entretanto, antes de abandonar do cômodo, deixou sua voz transmitir uma última mensagem.
— Talvez seja hora de ser você mesma... E acertar as contas com quem e a responsável pelo seu infortúnio. É só uma dica — Completou, fitando-a brincalhona.
E saiu. Ao chegar ao lado de fora, parou encostada na parede, esperando apenas ouvir o som de carne sendo cortada e de um corpo pesado caindo no chão. Quando finalmente aconteceu, começou a caminhar em direção a saída, enquanto suas roupas mudavam magicamente. Deixando o moletom desaparecer e dar lugar a um longo vestido roxo. Seus cabelos desgrenhados agora se ajeitavam em um belo coque, e sua pele era coberta por uma maquiagem vinda do nada.
Parou diante do espelho e se contemplou por algum tempo. Dizendo em fim:
— Agora sim, você é Victória Martins.
 

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Reality show – Ficção e fantasia

Câmeras vinte e quatro horas por dia, filmando cada coisa que a pessoa faz. Microfones estrategicamente espalhados, captando cada palavra, cada suspiro. Reality show, ou show da vida real, é o gênero de programa que está na moda, atraindo um público cada vez maior e motivando a criação de novos estilos de quadros cada vez mais inusitados que outros. Basicamente, todos gostam dessa coisa de ver a vida como ela “é”, enxergar através das máscaras da conveniência de cada dia e conhecer o ser humano em sua integridade. O Big Brother, talvez o programa mais ilustre nesta categoria, e cujo atual reinicio serviu para me fazer pensar o tema deste artigo, tem como proposta ser um esta janela para o mundo real, de mostrar as pessoas como elas são por captar até aqueles momentos mais inconscientes, mais íntimos, que fogem completamente da dissimulação de cada dia. Mas seria essa realidade algo tão concreto e fidedigno quanto querem nos vender?


Pergunto isso, pois penso em determinados elementos que caracterizam estes programas, e ao fazer isso não consigo deixar de relacionar com certos momentos do meu próprio processo de escrita ficcional. Vejamos... Para escrever O Véu, por exemplo, uma de minhas primeiras preocupações foi com relação aos personagens que habitariam meu mundo. Buscando nas pessoas que de alguma forma eu conhecia – sejam próximos, sejam conhecidos apenas na ficção ou nos meio de comunicação – selecionei aqueles cujas características mais se aproximavam do que eu queria para fazer parte de minha história. Relacionando, quando as pessoas se inscrevem para o Big Brother, por exemplo, elas, através das fitas que enviam, são da mesma forma selecionadas. São escolhidas em número limitado – tal como as personagens de um livro – através de um critério estabelecido pelo autor do programa, que busca neles pessoas capazes de engendrar uma boa trama.
Eh, esses foram os primeiros personagens que me vieram à cabeça. Fazer oque... sou um viciado. rs

Cada um desses personagens tem sua história, suas características e contradições próprias de qualquer ser humano, contudo, como não tenho a minha disposição 1.000.000 de páginas com as quais possa apresentar meus personagens em sua inteireza, escolho por estabelecer um recorde de suas características, de forma a apresentar ao leitor apenas um esboço de cada um. E de preferência, mostro apenas aquelas características que são compatíveis com a trama que eu quero estabelecer. Ao pensarmos um programa que passa todos os dias, com cerca de uma hora de duração, podemos pensar também desta forma. Pois cada um daqueles participantes, que está confinado durante 24 horas de seu dia, dispõe de apenas alguns minutos de apresentação para o telespectador, e nesse processo não é de se estranhar que muitas coisas que cada um deles tenha feito estejam perdidas. E o que garante que determinados atributos de alguns participantes sejam revelados e outros não é justamente uma seleção, feita por aquele que, como um autor de ficção, escreve a história que será contada para o público.

E como último elemento que gostaria de destacar para validar minha tese, estão os próprios discursos que são construídos por detrás das atitudes de todos os personagens/participantes. Pois um livro de ficção não é apenas construído pelas ações dos protagonistas, mas também por toda uma narrativa que completa o mundo, dando sentido as iniciativas de cada um deles. Muitas vezes, quando escrevo sobre um personagem, acabo destacando pontos de seu caráter, fazendo juízos de valores acerca dele que, às vezes podem ir de encontro às perspectivas que meus leitores tenham do mesmo. Por exemplo, o fato de no meio de minha narrativa eu atribuir um mau caráter a determinada personagem, não garante que todos os meus leitores concordarão que tal pessoa seja mau caráter. Alguns podem achá-la valorosa. Mas independente disso, o fato de eu ter expressado tal opinião não deixa de ser um discurso particular meu que tem como objetivo expressar um ponto de vista e, consciente ou inconscientemente, convencer meu leitor de que meus personagens são deste jeito e não de outro.

Quando pensamos nos “heróis” do BBB, também temos uma série de discursos acerca de cada um. Temos apresentadores, repórteres e comentadores que estão ali justamente para julgar determinadas atitudes, seja de forma direta ou indireta. São pessoas que, ao expressarem suas considerações a respeito de determinado participante, acabam por expressar uma opinião pessoal e que tende, intencionalmente ou não, a convencer o espectador que determinado jogador é assim e não assado. Mesmo que o público discorde de tal interpretação. E o mais interessante é que, diferente da literatura, os reality shows possuem recursos que vão além da fala e da escrita, mas que são igualmente capazes de gerar um discurso que obtenha uma interpretação de um personagem que vá além de suas ações. Por exemplo, um fundo musical, que lembre o filme “Tubarão” quando eu quiser dizer que determinado participante está tramando algo, ou outra melodia que lembre um grande épico quando quiser dizer que tal brother é o mocinho da história.

Enfim, os recursos são os mais variados e o que podemos perceber com eles é que o produto de um reality show é muito mais próximo da ficção do que o título nos deixa supor. Todo programa sofre uma edição, tal como um livro. Todo o reality show possui aqueles agentes que estão por detrás dos participantes e que influenciam na trama do jogo: e esses são roteiristas, diretores, apresentadores... Tal como um livro, que possui autores, revisores, diagramadores, profissionais de marketing, todos esses atuam sob as sombras dos personagens a fim de ajudar a história a se desenvolver. Em ambos os casos, tanto no romance de ficção quanto no reality show, o que temos é um enredamento, que visa apresentar um mundo caótico, cheio de variedades, em forma de narrativa, com início, meio e fim, e que enfim faça sentido para quem lê/assiste.

Em suma... Bem, quem diria que o Big Brother poderia me ajudar a pensar em algo interessante...





domingo, 1 de janeiro de 2012

Metas para uma nova escrita.

Com a virada do ano, nada mais na moda do que já ir planejando o que se fará de 2012. Quais as metas para esse novo ano, e como fará para concluir cada uma delas. Esse é o período aonde também, alguns escritores já vão prometendo para si mesmos que livros irão começar, terminar ou então modificar antes da chegada do apocalipse maia. Pois bem, tal plano estratégico é sem dúvidas satisfatório na medida em que organiza sua vida e, pelo menos, lhe impõe algumas atitudes que ajudam seu ofício a seguir em frente. Contudo, quando falamos do ato de escrever, tal qual qualquer manifestação artística onde o principal elemento seja algo tão subjetivo e incontrolável como a inspiração, o melhor é ir com calma.


Com isso, não quero dizer que a escrita, por ser uma atitude sensível, imaginativa e estética, não deva ser planejada e organizada, como qualquer outra coisa da vida. Sem dúvidas que um bom plano, com a construção de um bom roteiro e a organização de um calendário para melhor estabelecer o período de produção, ajudam bastante. Todavia, o motor inicial da escrita, que é uma boa idéia, não é algo que possamos planejar com toda a precisão.

Digo isso porque é muito comum ver pessoas que estão se iniciando no ato de escrever, e até mesmo outros que já estão neste caminho há mais tempo, sentirem-se frustrados por “prometerem a si mesmos que iriam escrever um romance, um conto, ou uma crônica” e verem que seu prazo passou e eles nada conseguiram. Tal atitude acaba por gerar uma angústia desnecessária e antecipada. Pois o processo de elaboração de uma idéia – a menos que você queria a produção de um livro puramente comercial, com roteiro já pronto no mercado – não pode ser completamente metodizado e racionalizado.

Este primeiro passo exige tempo para contemplação, apreciação, reflexão e imaginação de tudo. De outras obras de artes, de idéias e da própria vida como um todo. Este é o momento em que não se pode pedir metas e sim deixar a coisa fluir. Pois os objetivos, neste caso, só irão gerar no possível autor a ansiedade e a sensação de estar com uma grande obrigação nos ombros, a pressão própria de uma fábrica, tendo de trabalhar com planos de metas todos os meses, sempre exigindo de si mais tarefas do que se pode sustentar. Tal tendência transforma a escrita em um ato mecânico, industrial, uma produção em massa. Tudo o que uma boa literatura não pode ser.

Então, como dica para este ano que se inicia e também como meta para novos trabalhos, comecemos pensando em não criar metas para as áreas que não exijam isso como condição. Deixe-as para depois, como quando sua história estiver mais ou menos configurada, quando as grandes idéias já surgiram e o problema passa a ser pô-las em prática. Pois é nesse momento que o planejamento se torna necessário, na medida em que tudo se encaixa no plano das idéias e o desafio passa a ser fazê-las valer no mundo real. Então, use e abuse de calendários, de roteiros, e programas e faça fazer valer a sua escrita.

Afinal, ter um prazo e não conseguir cumprir é frustrante, mas também, ter uma boa idéia e não ser capaz de aplicá-la é ainda pior. E neste momento, uma boa preparação ajuda bastante que para que você possa organizar seu tempo e fazer o melhor possível com ele.

Desejo a todos um 2012 de muita saúde, paz e inspiração. Corram atrás de seus objetivos.



domingo, 18 de dezembro de 2011

Leitura e Reflexão 2: A loja dos suicidas, de Jean Teulé

Sei que já falei deste livro, mas confesso que fiquei inconfromado com meu pouco rendimento no artigo anterior. Pois um livro que me causou tanta alegria, não poderia ficar retido naquele pequeno texto que, confesso, saiu confuso apesar de verdadeiro.
Então, ofereço aqui uma segunda leitura e reflexão deste maravilhoso trabalho de Jean Teulé, um autor que acabo de conhecer, mas que sem dúvidas vai para o hall dos melhores autores que já tocaram minha imaginação.
Aviso àqueles que não leram que este texto possui spoillers que poderão estragar a surpresa de futuros interessados. Neste sentido, sugiro que o leiam apenas depois de terem acesso à obra, que vale muito a pena.
Quando descobri que no Distrito Federal haviam encenado uma peça com base no livro, pensei: "por que esses caras não vieram ainda para cá?"

Aproveitem a leitura e voltem sempre.


A família Touvache vive cada dia de sua vida dedicando-se a sua loja incomum. Nela, artigos voltados ao público suicida são fornecidos, desde cordas para se enforcar, até venenos dos mais variados tipos, para aqueles que buscam uma morte lenta e pacífica, digna dos mais belos dramas. Condizentes com os produtos que fornecem, os lojistas trazem consigo uma visão de mundo fria, distante e pessimista. O planeta é um lugar condenado, a vida é uma eterna tragédia sem sentido, logo, seguir o caminho da aceleração da morte não é uma covardia, nem mesmo um pecado, mas sim uma forma honesta de encarar a realidade das coisas. Apesar dessa filosofia, os Toucache, diferentes de seus clientes, são concebem o suicídio para suas vidas. Para a matriarca da família, eles possuem uma missão: a de ajudar aqueles desgostosos com a existência a encontrarem um final rápido e eficiente. Sem os Touvache, essas pobres almas jamais encontrariam o fim que desejam e por este motivo que, apesar de muito quererem, estes não podem cometer suicídio. Pois se eles morrerem, quem tomará conta da loja?

Divergindo totalmente desta maneira de estar no mundo, o jovem Alan, caçula dos Touvache, é a ovelha negra (ou branca) da família. Tudo para ele é motivo de alegria: se assiste a uma tragédia, onde milhares de pessoas morrem, ele prefere dar sua atenção àqueles que foram capazes de sobreviver; se os clientes da estranha loja já desistiram da vida, ele busca encontrar para tantos um novo motivo para existir; e se sua família prefere permanecer estagnada na morbidez de seus ideais que já atravessaram gerações, ele luta para a criação de novos potenciais para seus membros e para o estabelecimento que eles tomam conta. É claro que não preciso dizer que tal forma de pensar não agrada nem um pouco a sua família. Mas com o desenrolar a história, percebemos que a visão cor de rosa do mundo de Alan, além de irritante, é também assustadoramente contagiante.

Todavia, algo surpreende acontece ao se chegar ao fim do livro. Pois de todos os familiares, cada um com um potencial maior de entrar para a lista dos suicídios anuais do Estado, é Alan aquele quem toma cabo da própria vida. Inebriado pelo belo trabalho que realizou, trazendo alegria e esperança para a sua família, e vendo em sua obra o sentido de sua existência ser realizado, ele resolve enfim, que chegou o final de sua história...



O suicídio é um dos maiores tabus de nossa sociedade. Um problema que nada mais é do que a ramificação de outro ainda maior, que exigiu do ocidente vários esforços de compreensão: a razão da morte. A filosofia, a teologia, a arte, a psicologia, o mito, não são poucos os investimentos para se explicar essas que são questões existenciais poderosas: “qual o sentido da vida?”; “por que morremos?”; “para onde vamos?”; “existe lugar para ir?”. Tudo o que sabemos é que um dia iremos morrer. E com base nesta máxima, construímos nossas existências de forma que elas tenham algum sentido para nós, seja nos filiando a religiões, partidos, filosofias de vida ou outra forma que torne o nosso estar no mundo algo um pouco mais seguro, e onde não nos concebamos apenas como meros acidentes da natureza, sem razão para sermos e sem objetivos para estarmos.

Desta forma, se a morte nos parece como um inevitável fim, que exige de nós um esforço para fazer a vida valer a pena, não é a toa que o suicídio acaba por ser encarado como algo pecaminoso, fruto da ação de covardes ou de pessoas que não possuem a força necessária para encarar a existência. Logicamente que esta não é uma visão homogênea, pois o movimento ultraromântico, por exemplo, concebia o suicídio como uma prova de coragem. Pois a partir do momento em que a existência não tinha sentido, livrar-se da vida, escapando de um mundo corrompido e vicioso, era a forma de ascender à verdadeira forma de existir. O mundo puro dos espíritos. Contudo, o que acho de mais valoroso em “A loja do suicidas” é uma nova visão deste ato que é tão praticado, mas tão pouco entendido.

Longe das visões pessimistas que alimentam as duas vertentes acima mencionadas – tanto aquela que concebe o suicídio como um ato pecaminoso ou covarde, como a romântica que entende o suicídio como algo necessário em um mundo degenerado como o nosso – o livro de Toule nos faz pensar de uma forma totalmente nova sobre esta questão...

Quantas pessoas será que já puderam ter a alegria de, em seu leito de morte, olhar para trás e pensar: “valeu a pena”, “consegui tudo o que eu quis”, “posso ir em paz”. Eu não possuo instrumentos capazes de dar uma resposta precisa, mas tendo a entender que esta não seja uma alegria de todos. Fazer a vida valer a pena. Esta é a tópica de quase todos os discursos motivacionais, dos livros de auto ajuda e dos filmes alegres que se alastram em nossos cinemas. Esse é o objetivo principal, mas não possuímos uma fórmula clara e precisa, que nos garanta cem por cento de eficácia para atingir essa meta. Acaba que, ao fim e ao cabo, fazer a vida ter sentido passa a ser uma experiência pessoal, uma mistura de talento próprio com a sorte e o revés do acaso. Uma habilidade que não se aprende na escola, nem em livros ou em blogs.

Então, partindo deste pressuposto, como interpretar o suicídio de Alan? Ele, um personagem otimista, alegre, que havia conseguido aquilo pelo que tanto lutou: trazer esperança para sua família sombria. Alan havia conquistado seu objetivo, havia vencido apesar de todas as adversidades. Era um vitorioso, e se ele morresse naquele momento, sem dúvidas seria capaz de olhar para trás e dizer: “valeu a pena”, “consegui tudo o que eu quis”, “posso ir em paz”. E foi exatamente isto que ele fez...

Viver após isso, para Alan, seria entrar mais uma vez no jogo da vida. Ter de encarar essa realidade que nos é tão caótica, na medida em que, por mais que queiramos e nos preparemos, não somos capazes de controlar tudo o que nos acontece. Isso, em certa medida, pode ser assustador, mas sem dúvidas dá à vida aquilo que ela tem de mais interessante: sua maleabilidade. A capacidade de fazermos dela aquilo que queremos dadas, é claro, as possibilidades que nos aparecem. Alan já havia vencido, já havia conquistado tudo o que desejava. Então, viver para ele também significava algo sinistro. Significava poder perder tudo aquilo que havia conquistado. Não apenas pela possibilidade de sua família voltar ao estado mórbido em que antes se encontrava, mas também porque ele mesmo, a partir daí, poderia preso em uma rotina, sem a capacidade de criar outro grande objetivo que valide seu estar no mundo.

Podemos dizer que Alan foi um covarde, que desperdiçou sua vida logo quando tinha tudo pela frente. Ou então dizer que ele foi corajoso, na medida em que saiu pela tangente de um mundo que, a partir dali, não poderia ter mais nada a servir para ele. Eu, pelo contrário, gosto de pensar que Alan, como todos nós, fez algo simples e corriqueiro para todos nós: uma escolha. A escolha entre viver ou morrer. A partir do momento em que havia chegado ao fim de seu projeto de vida, ele teve a oportunidade de decidir se encerraria ali e sairia por cima, ou criaria ele mesmo um nodo projeto e a partir do momento em que o iniciasse, estaria mais uma vez no eterno jogo da vida, usando e abusando da sorte e lutando contra o revés, relacionando-se com as pessoas mais interessantes e tolerando aqueles cuja presença o incomodassem, ser feliz e triste ao mesmo tempo. E, é claro, abrindo mais uma vez a oportunidade para saber se, ao fim, irá vencer ou fracassar.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Entre o riso e o sério

Normalmente, quando queremos atribuir o caráter de verdade ou de importância àquilo que fazemos, costumamos dizer que tal coisa é séria. E se algo não nos parece correta ou digna de atenção, perguntamos: “por acaso isso é brincadeira?” Em algum momento da história, o ocidente pareceu atribuir ao sério um caráter de importância, de algo que tem seu valor, que é digno de nota e que deve reger as atividades nobres da vida. Em contrapartida, o riso, o cômico, é apresentado como o campo da brincadeira, da leviandade e das coisas sem importância. O riso faz parte do universo popular, com suas festas, pulsões e subjetividades, enquanto o sério está no campo do trabalho, do pensamento e da racionalidade.


O livro de Umberto Eco, “O nome da rosa”, nos aparece como um bom exemplo desta tendência. Para aqueles que leram, ou ao menos assistiram ao filme, nota-se bem claramente ao final como o problema da comédia fazia parte da reflexão teórica dos pensadores da idade média. O riso, atribuído ao diabo, representa aquilo que um homem culto jamais deve fazer. Pois, de acordo com alguns teólogos da época, como Jesus nunca emitiu uma gargalhada e estas ao longo dos evangelhos só foram pronunciadas por aqueles que debocharam do Cristo na cruz, duvidando de sua santidade, logo o cômico nada mais é do que uma criação do Diabo. Uma maneira de afastá-los do caminho de Deus. Desta maneira, o fato de Aristóteles, um filosofo altamente respeitado na baixa idade média, ter escrito um tratado em que concebe a comédia como uma manifestação artística digna de reflexão filosófica, é alvo de preocupação. Pois ao homem erudito, segundo alguns, não deve ser permitido rir. Pois este o apresenta à descrença e trabalha com a mentira, a falsidade.

Tal pensamento pode parecer exagerado, mas se pensarmos o papel da comédia em nossos dias, seja no uso de termos como os expressados no início do ensaio, seja em alguns tratos que damos a ela, percebemos como esse entendimento ainda se mantém em nossa sociedade. Em nome do riso, basicamente se pode tudo. Uma ofensa não é ofensa se for piada. Uma palavra de mau gosto é aceita se vier revestida de brincadeira. Em nome do humor, basicamente podemos dizer que uma mulher feia deve agradecer ao ser estuprada. Acho que alguns devem saber do que estou falando.

O campo do riso esconde sim um pouco de descrença. Já falei isso em outro artigo – “Ceticismo e comédia” – pois um ser humano não é capaz de rir daquilo que ele considera importante ou verdadeiro. Contudo, o efeito do riso deve sim ser encarado como algo sério. Através da comédia, podem-se produzir coisas importantes. Pode se produzir uma mensagem crítica, uma mobilização social. Contudo, também se é possível manifestar comentários dos mais destrutivos e ofensivos.

Se á uma coisa que a personagem Coringa me ensinou, foi que o riso tem sim algo de muito sério. Sério em vários sentidos. Tanto por ter um lado obscuro e sinistro, como o do antagonista de Batman, mas também pode ser um grande produtor de conhecimento. Uma maneira de produzir um discurso intelectual que toda a pompa e todas as regras do discurso sério e científico são incapazes de fazer. A liberdade dada ao humor, assim como todas as liberdades aos quais nos oferecemos tem seus usos e seus abusos, suas potencialidades e seus limites, e desta maneira encarna o exemplo de uma faca, que nas mãos de um médico é capaz de salvar vidas enquanto que utilizadas por um assassino podem causar estragos no corpo e na alma de suas vítimas.

Neste sentido, proponho com este artigo/ensaio que façamos um manifesto em favor do riso. Um movimento intelectual que faça as pessoas olhares o humor sim como algo sério, tanto em suas capacidades quanto em suas implicações para a vida em comunidade.