Aproveitando a linha de pensamento proposta por meu próprio ensaio anterior (Mito, Fantasia e Mentira), aonde eu discuto a Fantasia como sendo algo que vai além da Mentira, sendo, na verdade, uma forma de interpretação do universo, levando-se em consideração os elementos que constituem a realidade para aquele grupo, eu gostaria de propor, nesse novo ensaio, pensarmos a literatura fantástica e, principalmente, discutir como alguns mitos são apresentados.
Isso pode parecer uma opinião unicamente minha, mas me sinto tentado a expô-la aqui devido a um fenômeno que eu venho reparando em alguns novos títulos que vão surgindo: o de total desrespeito ao mito. Como desrespeito, eu quero dizer, um profundo desinteresse por parte de alguns escritores de recorrer a uma mínima pesquisa que seja, para tentar entender, mesmo que parcialmente, sobre aquilo que estão escrevendo. Nesse contexto, personagens míticos como vampiros, espíritos ou demônios, se mostram cada vez mais descaracterizados em alguns livros que hoje aparecem nas livrarias. Eu, particularmente, considero isso uma preguiça e também falta de profissionalismo, pois, a partir do momento que você cria algo novo, tem todo o direito de trabalhá-lo como achar mais conveniente, mas quando se usa algo já existente, criado por alguém, levando-se em consideração os mais variados elementos, acho no mínimo interessante que se escute o que esse criador tem a dizer sobre sua criatura.
Ou seja, quando falamos de um mito como o do vampiro, por exemplo, criado desde os princípios da Idade Média, primeiramente apresentado como um morto vivo ambulante, até chegar a uma figura aristocrática como o “Drácula” de Bram Stoker, há aí toda uma construção cultural que se leva tempo para se formar e que com o fenômeno de popularização desse mito, tem se mostrado cada vez mais degenerado através de representações “inventivas”, onde o que é construído de novo, não apresenta nenhum respeito ao que foi feito antes. Como se o antes, nada mais fosse do que crendice, superstição, mentira, algo que já discuti antes e considero errado.
Não quero dizer com isso que não devemos inventar nada de novo, mas sim que devemos sempre prestar atenção no que já foi produzido e nos contextos em que foram, para tentar construir algo novo da melhor forma possível e assim, criar o ponto central de discussão desse artigo: a Verossimilhança.
Por que a Verossimilhança é tão importante para a literatura fantástica? Simplesmente por que essa é a função da arte fantástica, assim como toda a arte em geral. A arte tem como função a de criar um novo mundo, uma nova possibilidade de mundo. Ela não tem compromisso com a realidade em si, mas sim com a possibilidade, então, por mais fantasioso que uma história pareça, seria interessante que ela exigisse do leitor o mínimo de abstração possível. Não quero dizer com isso que o leitor tenha que sair de um livro paranóico, acreditando que vampiros de fato existam, mas eu acho interessante que ele saía dele pelo menos pensando: “Nossa, isso até poderia ser possível”. E que, naquelas horas em que ele se dedicou à leitura, que de fato ele esteja envolvido, fascinado e que as situações da história sejam o menos risível possível.
E é assim que se cria a verossimilhança, tão cara à arte e permitindo ao leitor viajar com mais facilidade nesse universo fictício. Um exemplo muito bom, em minha opinião, é o livro de Anne Rice, “A rainha dos condenados”, aonde ela, usando da mitologia egípcia, tenta construir um novo mito para a gênesis do vampiro. Esse é de fato um trabalho genial, pois ela consegue fazer com que dois mitos trabalhem juntos para construir uma nova história e, dessa forma, trabalhar para que sua história seja mais fascinante e menos risível. Em minha opinião, ela é o exemplo máximo de trabalho com mitos na literatura, pois qualquer um que leia um livro dela – pelo menos os que eu li como, “Vampiro Lestat” e a “Rainha dos condenados” - sabe que houve trabalho de pesquisa para criar seu mundo. Pois não só os vampiros, mas também a própria sociedade da época representada é muito bem construída.
Outro autor também muito bom nesse aspecto, apesar de não ser da área de fantasia e muito criticado por ser considerado “Popstar” é Dan Brown. Apesar de toda a loucura do que o Graal possa parecer para alguns, de fato temos que dizer que o “Código Da Vince” é no mínimo interessante e de fato faz quem ler pensar: “É, isso poderia ser possível”.
No meu atual projeto, “O Salto”, eu estou interessado em discutir o mito cristão dos anjos e dos demônios, coisa que eu acho da mais interessante do mundo e para isso, estou me propondo a pesquisar sobre o assunto para poder falar. Apesar desses personagens já estarem enraivados no imaginário popular e todos basicamente saberem, mesmo que minimamente, o que são anjos e o que são demônios, eu considero de extrema importância ler sobre, refinar meu entendimento do assunto. Então, mesmo não sendo católico, luterano, anglicano, evangélico, ou etc., etc., etc. eu resolvi ler a “Bíblia” e tentar ver como os primeiros pensaram esses mitos. E além da “Bíblia”, também recorri aos textos apócrifos do sécs. I, II e III para me auxiliar, tais como “Os Manuscritos do Mar Morto”, “O Livro de Enoque”, “O testamento de Salomão”. E também outros autores contemporâneos que falam do tema, como Saramago em seu “Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Tudo isso para criar uma história o mais interessante possível, aonde a barreira entre o mito e a realidade seja o menos perceptível possível, criando a verossimilhança.
Digo já de antemão que essa é minha pretensão, o que quer dizer que não sei se conseguirei meu intento, mas estou muito interessado em seguir em frente, pois acho importante respeitarmos determinados mitos ao escrever sobre eles, e se formos construir algo novo, destruindo o antigo, que o façamos de forma profissional tentando interpretá-los como algo além da mera baboseira sobrenatural.

