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quarta-feira, 28 de novembro de 2018

"O brasileiro e a corrupção" ou "O diagnóstico corno manso"



Nelson Rodrigues uma vez diagnosticou o brasileiro com o que ele chamou de gravíssimo complexo de Vira-lata, que é perceptível em nossa mania de subvalorizar todo que é nacional quando comparamos ao que é estrangeiro. Longe de criticar tal análise, só venho pôr mais lenha na fogueira, pois além da acima citada, outra enfermidade assola o brasileiro médio: O complexo de corno manso.
Quando o assunto é corrupção, creio que todo o brasileiro sabe lá no fundo que é roubado. Quem nunca ouviu a célebre frase “Político é tudo ladrão”, “nenhum presta”. Sempre tem aquele parente bêbado que em reunião de família gosta de expor seu senso politizado soltando uma dessas. Isso nos mostra que de alguma forma, sempre soubemos que éramos roubados, só não tínhamos noção de quanto.
Assim como o brasileiro com a corrupção, o corno manso sabe que é corno, todavia não sabe e nem quer saber a dimensão dos próprios chifres. Porém, tudo muda quando vem aquele amigo, parente ou conhecido que revela aquilo que ele sempre soube, traz provas e esfrega na sua cara. É nesse momento que o corno manso se revolta. O único problema é que o alvo de sua revolta quase nunca é contra o conjugue infiel, mas contra aquele quem fez a acusação. Ele corta os vínculos de amizade, briga com a família, faz de tudo, menos terminar o relacionamento.
Percebo semelhanças entre essa reação com a do povo brasileiro após os escândalos de corrupção da Lava Jato. A Petrobrás vem sendo roubada há décadas, todavia só agora tivemos um governo interessado em se aprofundar na questão. E o que o povo brasileiro fez? Pediu a retirada deste governo. Obviamente que o partido em questão possuía membros dentro deste esquema de corrupção, porém não era o único. Vários de seus políticos foram investigados e na medida do possível punidos, mas não só eles. Agora o que podemos atribuir como original do governo Dilma foi de fato de ser o único que criou condições para que fossem investigados esses problemas. E foi isso que causou a revolta da população, e consequentemente a sua queda.
Assim como o corno manso, o brasileiro conhece sua condição de violado, e ele vive bem com isso, desde que tenha a a sensação de que sua situação é oculta aos demais membros da sociedade. Pois quando ela é revelada, vem o constrangimento, vem a humilhação. E isso ele quer evitar. Por isso o brasileiro pede a volta da ditadura. Não pela honestidade, mas pela censura. O brasileiro não está cansado da corrupção, ele só não quer mais que fiquem lembrando a ele a cada dia, hora ou minuto o quanto ele é roubado, enganado, feito de trouxa.
Não é minha intenção buscar a santidade do governo PT, mas sim desconstruir a ideia de o governo mais corrupto de todos os tempos. Pois é equivocada. A sujeira sempre esteve ali, encoberta. Alguém só teve a curiosidade de olhar debaixo do tapete. E a imagem grotesca ficou cravada na mente dos brasileiros. Torno a dizer, não foi um governo perfeito, mas sejamos justos: vocês gostem ou não, foi o governo que abriu as portas de toda essa investigação e esse mérito é deles. Como diria Matheus “dê a Cezar o que é de Cezar”, e nada mais.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

O Véu Publicado


Saiu enfim a publicação oficial do primeiro volume da série “O Véu”, lançado pela editora mineira Estronho.



Sinopse
Como uma barreira tão fina pode esconder tão grande verdade?
Ana teve uma infância feliz ao lado de suas tias em Três Corações. Com elas, a garota aprendeu a sonhar e acreditar em toda a forma de magia que o mundo tinha a oferecer. Porém, crescer significou também amadurecer, e ambas as coisas a fizeram abdicar das fantasias do passado.
Porém, agora, as histórias contadas em volta da fogueira há tempos atrás voltaram com toda a força, quando aquele que esteve ao lado de Ana o tempo todo parece esconder um grande segredo.
Teria você também coragem de atravessar o Véu?

Interessado?
O livro se encontra à venda nos portais da editora (com desconto de lançamento) e Amazon.


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Quer ouvir a opinião de quem já leu?



Bem vindos ao Mundo por detrás do Véu


segunda-feira, 7 de novembro de 2016

GOSTAR DE MULHER


Certa vez ouvi uma frase muito comum, dita por um rapaz que, em uma conversa, queria deixar claro para quem quisesse ouvir a sua opção sexual:
EU SOU HOMEM, GOSTO É DE MULHER.
Com certeza nenhuma frase original, mas naquele dia, por alguma razão, me fez questionar a chegar à conclusão que ela não está totalmente certa. Isso se pensarmos no verbo “gostar” de forma mais completa e não tão vulgarizada como na frase acima.
Creio eu que, no geral, os homossexuais gostem muito mais de mulher do que os heterossexuais. Não querendo generalizar, obviamente, mas você não vê por aí muitas matérias de agressões físicas de gays contra mulheres. Gays não batem em mulheres em casa ou na rua, não as violentam, nem as matam por ciúmes ou pela falsa sensação de que elas são sua propriedade.
Dificilmente você ouvirá de um Gay que “lugar de mulher é na cozinha”. Gays não vêm problemas em irem eles mesmo para a cozinha e preparar algo para suas mães, irmãs, afilhadas, sobrinhas... Em resumo, homossexuais não enxergam problemas em cuidar das mulheres de suas vidas.
Isso porque eles valorizam e muito as mulheres. Muitas delas são elegidas como divas, sendo alçadas a um patamar de quase divindade para muitos. Alguns gays inclusive queriam ter nascido mulheres. Eles não se sentem desvalorizados se uma mulher é sua superior hierárquica, ou se elas são melhores em algum esporte ou atividade física que eles.  Pois reconhecem que ambos têm as mesmas capacidades.
E se vocês pensam que eles não valorizam a beleza feminina, estão enganados. A diferença é que eles têm uma gama de adjetivos muito maiores para referir a isso: elas não são apenas gostosas, elas são bonitas, lindas, sensuais, poderosas, chiques, divas...

Enfim, creio que a frase de autoafirmação que os machões deveriam usar seria, “eu sou homem, tenho tesão em mulher”. Pois no que diz respeito a gostar de mulher, os heterossexuais têm muito o que aprender com seus amigos gays. 

sexta-feira, 27 de maio de 2016

O caso Patrícia Abravaneu e Homofobia





O caso ocorrido com as declarações da filha de Silvio Santos é realmente muito interessante, pois apesar de toda a polêmica causada (em parte justa, outra não), creio que a posição defendida por Patrícia Abravanel é a mesma de uma parcela significativa de nossa atual sociedade: a dos “tolerantes”.
O termo tolerante nunca me agradou muito quando aplicado em determinadas situações, pois ele denota uma certa relação entre certo e errado que não acho cabível em questões como orientação sexual, gênero, racial ou religiosa. Afinal, você só é capaz de tolerar aquilo que, no fundo, considera errado. A tolerância nada mais é do que discordar de uma coisa e ainda assim ser capaz de conviver com ela. Salvo, é claro, certos limites.
Nesse caso, quando ela fala que não é contra o “homossexualismo”, mas que não acha normal, creio que ela reflete sim a opinião de muitas pessoas. Pessoas tolerantes que aceitam que exista homens e mulheres homossexuais, mas não desejariam isso para seus filhos. Ou, que concordem que eles possam morar juntos, mas não com o casamento entre iguais. Que toleram que existem pessoas que se relacionem com o mesmo sexo, desde que as famílias normais não sejam obrigadas a conviver com isso, seja vendo na televisão ou com demonstração públicas de afeto.

Enquanto não retirarmos essa visão “heterocentrica” de nossa sociedade, não vamos parar de olhar a questão da orientação sexual por fora do embate do certo contra o errado. Onde temos o caminho correto e os desvios. Nessa ótica o máximo que poderemos ter é uma sociedade “tolerante”, que ainda enxerga como erro, mas engole o sapo. O que não é saudável. “MAS”, se formos lembrar que vivemos em uma sociedade onde pai e filho são agredidos na rua por serem confundidos com um casal, ou onde um político claramente homofóbico é eleito com a maior votação de sua região, então tolerância já é alguma coisa. Longe do ideal, mas alguma coisa.



Um convite para falar sobre a ideologia do gênero

"Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino".
 BEAUVOIR, S. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.




Esse trecho foi utilizado pelo ENEM 2015 como uma de suas questões para a área de Ciências Humanas. E desde então, causou um grande reboliço com memes estourando pela internet. A maioria deles, infelizmente, sem pé nem cabeça. Então, por que não explicar um pouco sobre o que é ideologia de gênero. Não custa nada tentar, mesmo que acredite que muitos não irão ler até o fim.
Antes de entender o que é Ideologia de Gênero, temos que saber diferenciar três categorias que, apesar de semelhantes, trazem significados muito distintos: Sexo, orientação sexual e identidade sexual (ou identidade de Gênero). O sexo é o mais simples, pois define a nossa questão puramente biológica. Nascemos do sexo masculino, feminino, ou, em casos mais raros, hermafroditas (com características dos dois sexos) e assexuados (carecendo de características que possam definir com precisão o sexo). Orientação Sexual também é relativamente simples, pois se define como um individuo se relaciona afetivamente com os sexos. Se ele sente atração pelo mesmo sexo, sexo oposto, ambos, ou nenhum em especial. Dai heterossexual, homossexual, bissexual e outras tantas definições que temos hoje.
A identidade sexual, por outro lado, já é mais complexa. Pois ela diz respeito à uma série de comportamentos, valores e responsabilidades que são culturais e sociais. Como assim?
Vamos por partes. Quem de nós nunca ouviu a célebre frase: "Fulano tem que começar a agir como homem", ou então "Ciclana que é mulher de verdade". Podemos perceber só por ler essas frases que elas não fariam o menor sentido se, para uma sociedade, ser homem ou ser mulher fosse algo facilmente definido pelo sexo, correto? Ou seja, nasceu com pênis é homem e vagina é mulher. Pois é, é mais complicado.
Se dizemos, por exemplo, que fulano não é homem por ser covarde, logo podemos deduzir que, ser homem em nossa sociedade é também ser corajoso. Ou se alegamos que ciclano não é homem por ter prometido uma coisa e não cumprido, logo dizemos que para ser homem é necessário ser responsável com sua palavra. Ou ainda, se beltrano é menos homem por ter traquejos femininos, então ser homem é necessariamente ter atitudes másculas. Essas questões, por mais que possam ser naturais para alguns, não são biológicas. Não está detalhado no cromossomo Y de ninguém a coragem, a responsabilidade ou outras coisas que são culturais. Como também, esses mesmos valores podem se modificar, dependendo do lugar onde você se encontra. Por exemplo, ser homem para os judeus, é um estado alcançado após se concluir o bar mitzvá. E ser mulher para o islã ortodoxo, é andar coberta dos pés a cabeça. Se formos nos basear nisso, então podemos concluir que no Brasil quase não temos homens e mulheres. Devemos ter, sei lá, alguma outra coisa.
Nesse sentido, vale pensar por que a ideologia de gênero é tão importante para movimentos sociais, em especial para o feminismo. Por que ela desconstrói coisas que parecem em nossa sociedade como naturais. Não é o segundo cromossomo X que define que uma pessoa deva ganhar menos que a outra exercendo a mesma função em uma empresa, ou que diz que ela ficará responsável pela casa, enquanto o outro para o trabalho, ou ainda que deva ser necessariamente "bela, recatada e do lar", ao invés de outra coisa qualquer que queira ser. Parece óbvio não é? Mas acredite, para muitos não é. E quanto mais vemos as atrocidades que ocorrem em nossa realidade, percebemos sim que é algo em que precisamos pensar. Assim poderemos avaliar melhor por que alguns se sentem no direito de  desrespeitar mulheres na rua ou até possuir a sensação de direito de usar e abusar do corpo de meninas como bem entendem.
Agora explicado, você meu amigo tem todo o direito de discordar da ideologia de gênero. Só não tem o direito de ser idiota. Critique com base. Entenda antes de falar mal. Caso contrário, sua piadinha perde completamente a graça e apenas atesta a sua ignorância.


sábado, 27 de junho de 2015

Alguns comentários a respeito desta imagem.



Esta imagem tem circulado como forma de protesto as recentes manifestações favoráveis à decisão estadunidense de aceitar o casamento homoafetivo em seu código civil. Incomodados com a recente onda arco-íris que invade o facebook, estes manifestações resolveram apontar para problemas ainda mais sérios presentes em nossa nação e em todo o mundo. Motivo este muito louvável, todavia pensemos mais a fundo.
Em primeiro lugar, fico me questionando por que tantas pessoas que até então nunca pareceram se preocupar com o problema da fome no Brasil e no mundo (digo isto pois não costumo ver essas pessoas postando ou fazendo nada contra isso durante todo o resto de seu tempo que não seja agora) resolveram se pronunciar a favor desta causa utilizando de uma crítica as atuais reivindicações. Isso só me leva a crer que utilizar o problema da fome, explorando a imagem chocante de uma criança subnutrida, serve apenas para criticar aqueles que se manifestam a favor dos direitos homoafetivos, e não como real interesse em lutar contra a fome como um problema sério que ela é. Creio que isso não seja muito nobre da parte destes manifestantes.
Em segundo lugar, acho interessante também como essa “modinha” passou a irritar muitos internautas. Digo isto pois “modinhas” são o que não faltam nas redes sociais. Filmes, séries, imagens são verdadeiros campeões de postagens maçantes e repetidas. As imagens do “me solta miga”, por exemplo, os Spoillers sobre Game of Thrones, ou até mesmo o habito de se postar uma foto de perfil com fundo escuro para mostrar a todos quando se esta de luto por alguém. Existem várias modinhas que passam despercebidas pelas pessoas, mas que se mostram profundamente indignadas com essa onda arco-íris  Será mesmo incômodo com relação ao fato de sua tela estar ficando bem colorida ultimamente, ou um total desconforto em saber que opiniões de extrema direita veiculadas por ícones como Silas Malafaia, Marcos Feliciano e cia não são tão compartilhadas quanto se julgavam ser?
Dessa forma, apoiar causas e lutar por direitos é um direito de cada um. E nos sentir incomodados com os outros, também. Mas ficam as perguntas: o casamento entre pessoas do mesmo sexo vai mudar tanto a sua vida assim? Ele em alguma medida inviabiliza o casamento entre pessoas de diferente sexo?  Foi proibido ser heterossexual, assim como durante muitos anos foi proibido ser homossexual?

Enfim, não é preciso ser gay para ser contra a homofobia, não é preciso ser negro para ser contra o racismo, e nem mulher para ser contra o machismo. Assim, eu me coloco a favor do direito das pessoas colocarem uma foto colorida em seu perfil de facebook, mesmo que eu não tenha interesse em postar uma para mim.  Fica a dica.

domingo, 31 de maio de 2015

Conto: O obituarista



O estalo do vidro se despedaçando, mais uma garrafa arremessada contra a parede. Quantas ao todo? Cinco seis... Não importava.  Tudo o que delas restava agora se encontra misturado. Nas manchas da parede que antes eram aguardente, os cacos, os restos mortais dos recipientes de vidro... Tudo unido... Todos em um... Como eram ele e Viviane.
Provavelmente se ela ainda estivesse ali, estaria lhe dando uma bela bronca, por sujar a casa que ela tanto prezava limpa. Sua voz fina que quando gritava doía os tímpanos... Seus sermões que pareciam dirigidos a uma criança... Sua mania de ficar de mal com ele mesmo pelos pequenos deslizes. Como sentia falta de tudo aquilo.
Mesmo em seus momentos de discussão, Viviane era uma companhia melhor que o silêncio, melhor que o álcool, melhor que a solidão. Naquele apartamento vazio na Glória, com uma máquina de escrever empoeirada, esquecida pelo tempo. Em um quarto escuro, sujo, onde o ar devia estar trancado há dias, semanas, talvez meses. Quanto tempo desde a última vez em que abriu as janelas para deixar o ar circular, ou a luz do sol aquecer o cômodo?
Não conseguia se lembrar. Há muito que mal sabia diferenciar os dias das noites. Muito menos ter a noção da passagem do tempo. Para ele, uma única data importava. Todo o tempo se resumia aquele dia. Pois depois dele, os segundos não mais caminharam, e Cronos parou de correr.

Levantou-se para pegar outra bebida, caminhou vagarosamente até a cozinha, abrindo o armário para pegar a última garrafa. Senti-la em seus dedos causou mais desconforto do que alivio à sede que lhe queimava a garganta. Sabia que em breve teria de ir a rua comprar mais, encontrar um ou dois conhecidos. Alguns ainda com a audácia de perguntar como estava. Ou simplesmente condoídos de sua piedade a ponto de apenas olharem para ele como o animal ferido que era.
Arrancando a rolha com os dentes, caminhou até seu quarto para poder deitar e beber sua última garrafa em paz. Mas não teria o sossego que almejava aquela tarde, pois mais uma de suas habituais companhias estava lá. Quem era. Não importava. Se era amigo ou inimigo, se conhecia ou não. Ou ao menos se era real ou fruto de sua bebedeira.
Um homem, branco, magro, vestido com as mesmas roupas pretas de sempre que, combinadas com seus cabelos curtos e negros, e a pele leitosa, configuravam-lhe uma atmosfera sepulcral. Sentado em sua cadeira em frente à escrivaninha, ele olhava atendo a página presa à velha máquina de escrever.
— “Quinze de novembro e 1996” — leu de forma vazia, como se não tivesse prestando atenção ao que narrava. — Realmente esta máquina já foi usada para narrar acontecimentos mais emocionantes.
“Aurélio Américo Meirelles, 83 anos. Profissão: agricultor. Filiação: José Pereira Meirelles e Vitória Américo. Sepultamento às 10 h, em local a definir, saindo de Igreja do Carmo, as 09h.
Ana Paula Carneiro da Silva, 36 anos. Profissão: do lar...”
— É uma boa forma de ganhar dinheiro, dado os tempos como estão, onde muitos estão morrendo — explicou o bêbado, sem muita importância.
— Realmente muitas profissões encontraram um aumento em sua produtividade, dados os dias escuros em que vivemos. A minha é uma delas. Mas a sua antiga de jornalista também seria muito útil na atual conjuntura, tanto ou mais quanto esta nova de obituarista.
O homem com a garrafa se deita na cama, ignorando o último comentário de seu interlocutor, que continua independente de platéia.
— Você ainda se lembra de quando decidiu mudar de coluna no jornal? — silêncio — Imagino que sim. Qual foi mesmo a data? Vamos ver... Ah sim... Vinte e um de Janeiro do corrente ano. Foi quando escreveu seu primeiro obituário, não é mesmo?
O silêncio era tamanho no aposento que era até mesmo possível ouvir o ranger dos dentes do jornalista, algo que pouco ou nada incomodou nosso misterioso narrador.
— Foi realmente maldade com você pedirem para escrever aquele texto. Mas quem melhor que você, para homenagear a heroína de seu país...
— Viviane não foi uma heroína! — Mesmo sem olhar para o homem a quem se dirigia, o tom de voz de nosso amigo alcoolizado era suficiente para espantar qualquer ser vivo em um quarteirão. Todavia, o senhor de preto é imune a qualquer tipo de ameaça. — Ela foi apenas uma descuidada, uma idiota. Que estava no lugar errado, na hora errada.
— Ah, foi sim. Uma fatalidade, sem dúvidas. Realmente a jovem Viviane não era das mulheres mais virtuosas que já caminharam por este maldito mundo... De fato não era.
— Limpe sua boca ao falar dela! — desta vez a ameaça sonora não foi o suficiente. Foi necessário também ao nosso desafortunado amigo se erguer e agarrar o irritante companheiro pelo colarinho, de modo que seus olhos quase colidissem um com o outro. — Maldito! — cuspiu.
Algo semelhante a um sorriso traçou o rosto do desconhecido. Embora seus olhos demonstrassem uma constante e inalcançável tristeza, poderíamos jurar que este se divertia com a situação.
— Vejo que a chama que reuniu aquele jovem casal da foto ainda queima dentro de você...
Quase que instintivamente, o obituarista olha para a direção da máquina de escrever, onde ao seu lado, repousa um velho porta retratos tão empoeirado quanto a casa que o cerca.  Na fotografia que ele guarda, um jovem e belo casal sorri para quem lhe assiste. Uma mulher negra, cabelos alisados, sorriso espontâneo e sincero. Ao lado, uma versão menos maltrapilha de nosso colega jornalista. A foto de um tempo em que ele ainda se preocupava em fazer a barba, ou cortar o cabelo. De um tempo em que a insônia não transformara seu rosto em uma erupção de bolsas.
Para qualquer um que olhasse o belo homem de foto e o comparasse a sua versão atual, imaginaria um buraco temporal de pelo menos uns vinte anos que os separassem. Todavia, não havia mais de dois anos que diferenciassem nosso jornalista do homem da foto. Os cabelos e os olhos continuavam castanhos, mas os primeiros estavam maltratados e os segundos tristes. A pele ainda era branca, mas a primeira era suavemente bronzeada e a atual completamente entregue a falta de exposição aos raios ultravioleta.
— Deve ser por isso que a presença dela não sai deste quarto — o homem de preto se liberta das mãos do obituarista sem fazer muito esforço, caminha até a janela e puxa as cortinas com um movimento rápido e preciso. — Vamos ver se um pouco de luz espanta esse espectro daqui.
A luz solar ofuscante inunda o quarto, queimando os olhos do jornalista no instante em que entra em contato com eles. Irritado, ele corre até a janela para fechá-la novamente, mas é impedido com a imagem que se forma a sua frente.
Talvez fosse o efeito do álcool, ou simplesmente a apatia a qual entregou sua própria vida faz algum tempo, mas a imagem aterradora a sua frente não causou maior reação em seu espírito do que uma leve confusão ao não reconhecer o lugar em que estava.
Seu apartamento possuía uma vista privilegiada para o Aterro do Flamengo, onde al julgar pelo dia que brilhava lá fora, haveria um grande fluxo de corredores, ciclistas ou simples transeuntes que, sozinhos ou acompanhados, levando bolsas ou animais de estimação, estariam transitando pela orla.
— Onde estão todos? — foi tudo o que conseguiu perguntar, com sua voz quase desaparecida dentro de sua garganta.
— Todos... — o interlocutor pensou um pouco antes de morrer — Já os levei.
— C... Como? — balbuciou.
A rua deserta e suja a sua frente, o cheiro de morte. Nenhum som, nem a poluição dos carros, nem mesmo as conversas misturadas das ruas. Onde estavam todos? Ao longe, apoiada na calcada, o obituarista pode reconhecer algo parecido com uma menina em um vestido florido deitada no meio fio. Mas bastou um olhar atento para perceber que não se tratava de uma criança. Ou pelo menos, não uma criança completa, pois ali restavam apenas seus ossos em decomposição.
— Parece que a guerra pelos recursos naturais chegou a um nível absurdo — explicou calmamente o homem de preto. — A guerra civil no Brasil, entre esses tais nacionalistas exacerbados e os vendidos ao capitalismo estrangeiro alçou inúmeros comentários maldosos nos demais países. Já que o Brasil, detentor da maior riqueza natural do planeta, parecia disposto a destruir toda a sua glória lutando entre si num conflito até então pouco explicado.
— Setembro de 1995 — interveio o jornalista, ainda sem conseguir tirar os olhos da catástrofe que era vista nos prédios destruídos, em carros pegando fogo, no mundo que, do dia para a noite, parecia ter virado de ponta cabeça. — A ONU declarou a Amazônia como Patrimônio da Humanidade.
— E definiu como dever de protegê-la todos os países do mundo — o homem de preto solta uma risada seca — realmente, essa colocação é passível de muitas interpretações com relação as reais boas intenções da Organização...
— Grupos se revoltaram no Brasil, manifestações, repressão, guerra civil...
— Sim. Hobbes deve estar rindo no inferno. Os brasileiros se tornaram animais. Lutando uns contra os outros de forma tão violenta até que o ideal por trás de tudo aquilo se perdesse em sangue e lágrimas.
— Não lutávamos contra nós mesmos — o jornalista começava a recuperar a voz enquanto via uma figura moribunda caminhar pela Avenida Infante Dom Henrique. Tratava-se da versão magérrima e maltrapilha de um cão. O animal caminhou até o cadáver da menina, cheirando-o atrás de um pouco de carne que aqueles ossos pudessem ainda guardar. Quando percebeu que nada encontraria, deitou-se ao lado do cadáver para ali descansar em paz. — Lutávamos contra o governo que queria entregar nosso país.
— Não era isso que Viviane pensava, não era mesmo?
Um rosnado brotou no peito do obituarista, mas ele segurou o impulso de espancar o rosto do homem de preto.
— Viviane acreditava que o Brasil conseguiria reverter à situação em juízo. Que bastava esperarmos. Ela era passiva, infantil, inconsciente.
— E você era racional, ativo... Com garra, foi às ruas lutar. Ela pediu que você não fosse. Que ficasse em casa em segurança.
— Mas eu ignorei seus pedidos.
— Sim, e ela o abandonou. Foi para a casa da mãe, onde a Guerra Civil a alcançou.
— Ela morreu...
— Sim — o homem de preto encarou o vazio da rua, que parecia refletir o vácuo em sua alma. — E logo depois a cidade do Rio de Janeiro também.
— O que aconteceu?
— A Guerra Civil continuou. Os ânimos afloraram, pessoas morreram. Até que a intervenção externa foi necessária.
— Atacaram-nos.
— Sim... Uma bomba de nêutrons. Mais poderosa que a que atingiu Hiroshima, disparada contra o interior do Estado. Evitaram atingir a cidade antes Capital da República como forma de preservar o que até então era considerada uma das grandes cidades do globo. Mas o estrago não tardaria a chegar.
“Radiação trouxe doenças, que gerou o isolamento da cidade, que aumentou a fome, que trouxe mais doenças. Eu chegar e arrebatar toda a população foi apenas questão de tempo... Em poucas semanas, a cidade fora reduzida a essas cinzas que agora se encontram a sua frente”.
Algo não fazia sentido. O obituarista sabia disso. Alguma não se encaixava.  A História estava incompleta... Havia um detalhe que o homem de preto não estava contando.
— Está errado.
— O que disse?
— Está errado. Não foi isso o que aconteceu.
— Então como foi que aconteceu — pela primeira vez o homem de preto demonstrava algum tipo de interesse pela conversa.
— Viviane, não foi para casa dos pais. Ela... Ela foi atrás de mim.
A memória voltava a cada segundo. Aos poucos, aquela realidade criada pela estranha criatura desvanecia e a verdade se configurava na mente do obituarista.
— Estava realmente uma confusão na Candelária àquela tarde — concordou o homem. — Ela devia gostar muito de você para ter se embrenhado naquela balburdia enquanto você brincava de revolucionário.
— As coisas haviam perdido o controle. A polícia passou atuava sem muita certeza em quem devia atirar. Vilões, mocinhos. Não se era possível diferenciar naquele dia.
— Viviane me achou... Eu a vi ao longe, abrindo caminho em meio às pessoas — uma lágrima irrompeu no olho direito do jornalista.
— Se eu não me engano, você estava lá não apenas como militante, não é mesmo? Você estava lá também para cobrir o evento.
— Foi quando aconteceu...
— Sim... — A voz do homem de preto foi se perdendo em um abismo sem fim conforme a cena daquela tarde trágica do dia três de janeiro de mil novecentos e noventa e seis invadiu os pensamentos.
A multidão, a gritaria, a guerra. Uma voz feminina chamando seu nome, Viviane abrindo caminho em sua direção. A jovem que se colocou entre ela e sua passagem, a bomba. A fotografia.
— Foi um verdadeiro golpe do destino seu você ter ido como jornalista aquela tarde. A foto que seu companheiro de reportagem pegou ficou realmente muito bonita. Viviane abraçada àquela jovem. Uma menina que devia ter seus recém completos quinze anos. A cena que se formou naquela fotografia valeu ouro. Como se Viviane tivesse jogado seu corpo para proteger a jovem.
— Viviane não quis proteger aquela menina.
— De fato, não — riu-se o homem de preto — Como eu disse antes, Viviane não era uma mulher virtuosa. Mas para a matéria que seu jornal lançou no dia anterior, isso pouco importou. A matéria que você foi chamado a escrever, juntamente com o obituário dela.
— Viviane não conhecia a menina, sequer se importava com ela. Ela apenas cruzou seu caminho, caiu quase em cima dela.
— Sua esposa tentou empurrá-la, não é mesmo? Tirá-la do caminho.
— Mas antes que conseguisse, aquela bomba lançada não se sabe por quem explodiu a poucos centímetros dela. As duas e mais alguns forram arremessados longe. Ela não teve chance. E acabou caindo por cima da garota, abraçando-a. Qualquer um diria que ela a estava protegendo.
— Equivoco esse que você não fez a menor questão de esclarecer, não é, meu caro obituarista?
Silêncio...
— A reportagem foi comovente. A mulher morta tentando proteger a menina. Quais foram as palavras? Ah sim: “a prova de que ainda é possível se conservar um pouco de humanidade em meio à barbárie”. Você sempre foi muito bom com as palavras.
“Bastou esse artigo ser lançado no dia seguinte, com a foto estampada na capa, que o país se comoveu. As classes que até então se mantiveram em silêncio despertaram. Clamores pelo fim da guerra ecoaram de todos os cantos. Os grupos armados perderam tanto sua credibilidade que começaram a ser sufocados até desaparecerem. O equilíbrio se restabeleceu e as ameaças de intervenção estrangeira não tinham mais fundamento. Viviane se transformou em um mártir da paz”.
— Não foi a intenção dela.
— Não foi, de fato — o homem de preto respirou profundamente, como se estivesse ponderando o que diria em seguida — Dizem que o inferno se esconde atrás das boas intenções. Nesse sentido, casos como esse me fazer perguntar se o paraíso não se encontra escondido atrás das piores.
— Viviane não foi uma heroína.
— Não foi — o homem de preto quase foi capaz de rir com essa afirmação — Então olhe lá fora.
Os olhos do obituarista se encheram de lágrimas quando este deu de cara com o mundo que conhecia. Ali, o barulho reinava, as pessoas e os animais caminhavam, corriam, bebiam, comiam... Viviam. Tudo estando como sempre esteve. Quase foi capaz de chorar, tamanha era a alegria por ver aquele mundo, tamanha era a saudade que nem sabia nutrir por ele.
— Graças a Deus — arfou. Sorrindo pela primeira vez em muitas semanas.
Ao olhar para o lado, deu de cara com o quarto vazio. Contudo, pouco se importou com a ausência do homem de preto. Chegou de repente, e assim saiu. Sem vestígios, sem recados.
A garganta estava seca. Era hora de ir à rua...
O galão de água estava vazio.

            

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Uma questão de interpretação.

Um dos pontos mais interessantes na literatura - creio na verdade que seja de toda a forma de arte - é a capacidade que ela tem de gerar uma pluralidade de interpretações acerca de um mesmo fato. Basicamente, cada leitor tem seu papel ativo na hora de se aventurar pelas páginas de um livro. Ativo, porque ele não apenas recebe as informações passadas pelo autor, como se o processo de leitura fosse uma via de mão única, mas sim as pondera e recria de acordo com suas experiências e expectativas. Nesse sentido, não é de todo o incomum que aconteçam sérios debates acerca de interpretações envolvendo grandes sucessos, de crítica ou de público.
O universo das Fanfics vem inclusive apresentar um novo tipo de leitor: o leitor co-autor. Nesses trabalhos, em sua maioria feitos de forma amadora, percebemos como muitos personagens são vistos por aqueles que lêem sobre eles. Como suas características são realçadas ou suprimidas, como alguns de seus vícios e virtudes enfatizados em detrimento  de outros. Tudo para refletir a imagem que esses co-autores adquiriram de seus heróis ou vilões favoritos.  Desta maneira, acreditar que um autor tem total controle de sua história nada mais é do que um ledo engano. Pois a partir do momento em que se depara com o público, todo e qualquer controle que ele poderia ter sobre o caráter de seus personagens ou sobre o enredo de sua trama se perde.
Sendo assim, creio que quando lidamos com questões de adaptação, estamos meramente dentro do território da interpretação. Um filme inspirado em um livro, uma séria baseada em histórias em quadrinhos, todas são maneiras de interpretar e resignificar uma obra. Desta maneira, exigir que um trabalho inspirado em outro, seja uma reprodução fidedigna do original, nada mais é do que castrar a originalidade que este tipo de trabalho também possui. Pois também há criação em adaptar, há mudanças. Como em uma fanfic, em que formamos situações novas para personagens antigos, em um filme, o roteirista também vai gerar situações que ele acredite que determinado herói poderia ter vivido, e que talvez o autor não o tenha explorado.
Basicamente, podemos dizer que a única diferença entre as fanfics e os trabalhos adaptados é que esses últimos contam com maiores recursos e por isso são divulgados em mídia maior, se tornando mais conhecidos. E sendo mais conhecidos, são mais fáceis de serem criticados também.
Falei um pouco sobre isso em um artigo mais antigo (Livro vs Filme), que o motivo de muitas vezes gostarmos mais do livro do que do filme é por que no livro temos a liberdade para criarmos o mundo apresentado pelo autor a nossa maneira. Já quando vemos o filme, essa criação já foi concebida por um roteirista que, assim como nós, antes foi um leitor e criou e significou o mundo literário a sua maneira. Nesse sentido, perdemos o poder de criação que temos quando a história está apenas na relação entre nossa imaginação e as páginas.

Então galera, vamos parar de querer que as adaptações sejam iguais aos livros. Elas não devem ser. Assim como não gostamos quando alguém quer nos forçar a entender uma obra a maneira dos outros, também não é legal querer limitar o processo criativo dos outros. Quando o assunto é interpretar, cada um vai ter a sua maneira. E eu defendo que ninguém – nem mesmo o autor ou autora originais do trabalho – possui o direito de se meter nisso. P. S, Até por que, se eles quisessem que suas obras não tivessem interpretações que detergissem de suas expectativas, era simples: bastava não publicá-las.

domingo, 17 de maio de 2015

Gostos e discordâncias


Apesar de a muito tempo não escrever, ainda dedico minhas horas vagas ao bom gosto da literatura. Entre clássicos e modernos, entre a tida “boa literatura” e a mera “literatura de entretenimento”, gosto de me aventurar pelo mar de páginas, sem distinção ou preconceitos. E um assunto que sempre me faz torcer o nariz é essa tendência a querer impor barreiras, dividindo o certo do errado no que diz respeito ao interesse pelos livros.
Acho que todos já passamos por momentos em que temos nosso gosto estético ridicularizado, seja por profissionais ou leigos. São professores, colegas ou até mesmo desconhecidos nas redes sociais e sítios na internet, que apegados às aulas de literatura e ao gosto pelos clássicos, ridicularizam tudo aquilo que sai de novo. Discordar, é normal. Na verdade, termos gostos destoantes são necessários para garantir a pluralidade na literatura. Então, nada mais saudável do que discutir nossas preferências e (por que não?) argumentar em defesa de uma obra favorita em detrimento dos trabalhos dos quais não nos interessamos.
Todavia, o que incomoda mesmo é ver como muitas vezes as pessoas se cegam para a qualidade de uma obra, julgando-a simplesmente pela data em que foi publicada. Falo isso por que, no geral e infelizmente, discutir qualidade na literatura é também discutir sobre o tempo. Muitos de nós tendemos a fazer do passado um monumento, engrandecendo-o e cultuando-o. Imortalizamos as grandes obras e os grandes “gênios” do passado. Nada contra dar ao passado o seu devido valor, mas quando este monumento se torna tão grande, a ponto de sua sombra obscurecer todos os talentos do presente, aí temos um problema.
Recentemente li um artigo interessante na página do “Bula Revista”, do portal R7, intitulado “O mal de se sentir inteligente lendo Harry Potter e A Guerra dos Tronos”. O artigo foi muito bem escrito, e apontou aspectos interessantes do movimento tean na literatura. Com o advento e popularização da internet, ficou muito mais fácil se expressar. E com isso, grupos que não tinham suas vozes ouvidas, encontraram ali um espaço de divulgação em massa para suas idéias. Soma-se isso ao fato de vivermos uma ditadura da juventude, onde existe um verdadeiro medo do envelhecimento, então temos uma mídia maciçamente utilizada por jovens ou pessoas presas na juventude de suas vidas.
Também tendo a confirmar que quando se tratam de seus gostos, estes “jovens” tendem muitas vezes a usar da violência para defendê-los. Contudo, tenho de discordar de alguns pontos.

Os jovens costumam se levar muito a sério e, em consequência, levam demasiado a sério aquilo que gostam no momento e enquanto gostam. Não raramente é entusiasmo passageio, o que não diminui em nada seu ardor. Não se furtam em entrar em verdadeiras batalhas campais (ou virtuais) para defender suas músicas, filmes, artistas, livros, novelas, times de futebol ou posições políticas preferidas. É mesmo essa a natureza das paixões [...] A alta literatura não existe para agradar ou afagar egos. Ela desafia seus leitores, retira-os de sua zona de conforto, expandindo seu universo de pensamento. A grande arte não precisa fazer ninguém se sentir cabeça por estar diante dela. Muitas vezes ocorre o contrário: sentimo-nos estúpidos por não conseguirmos alcançar o pensamento ou as intenções de um grande artista. Quando isso ocorre, a culpa é sempre nossa, jamais do artista, se ele já passou pelo crivo do tempo e da história.” (LUIZ, Ademir. O mal de se sentir inteligente lendo Harry Potter e Guerra dos tronos)

Em primeiro lugar, creio que o fenômeno de se sentir inteligente demais, não se limita aos fãs da literatura fantástica, mas pode se expandir a muitos leitores dos mais diversos gêneros. Dizer que aqueles que lêem os clássicos são de alguma forma mais “humildes”, pois são capazes de se desafiar à leitura de uma obra mesmo reconhecendo que não chegam aos pés dos brilhantes autores não passa de uma falsa modéstia . Meus anos de faculdade só me mostraram o inverso: um bando de pessoas que leram tantos clássicos quanto poderiam e isso parecia servir como medidor de sua superioridade intelectual. Arrogância é uma característica humana que independe do que está lendo naquele momento
Outra coisa que parece confundir muito os defensores dos gênios da literatura é associar leitura complicada à qualidade no texto. Quando pensamos em livros como “Harry Potter”, “A culpa é das estrelas” ou “As crônicas do Gelo e fogo”, muitos parecem acreditar que pelo processo de leitura destes trabalhos ocorrer de forma tão agradável e suave, é um sinal de que se trata de literatura jovem, de mero entretenimento, e assim inferior. Como se a literatura não existisse para ser apreciada, para causar prazer, como tantas outras formas de arte. Como a música, a dança, o cinema, o desenho e outras, a literatura tem inúmeras finalidades, e uma das quais eu não abro mão é a do deleite.
A leitura de “modinhas” pode não lhe transformar em um supergenio, mas sem duvidas que a leitura de um Saramago também não o fará única e exclusivamente pelo fato de você o ler por obrigação ou para se encaixar em algum lugar elevado da intelectualidade contemporânea.  Ler com prazer é o que torna o processo de apreciação da arte completo. Seja no campo da razão (noético), emoção (patético) e sensibilidade (estético). Objetivo esse que não pode ser atingido se você lê e valoriza um livro unicamente por ele pertencer a um gênero literário que hoje é devidamente reconhecido pela academia. Afinal, vale lembrar que muitos desses gênios não eram considerados gênios em sua época.

Mas esse é um ponto que os “entendidos” normalmente ignoram na hora de criticar os jovens. E apesar de toda a sua cultura, estes podem ser bastante cruéis e agressivos, mesmo que não assumam isso. Até por que ridicularizar também é uma forma de agressão.
Concordo com Ademir Luiz, autor do artigo citado, quando ele diz que o problema desse tipo de atitude não é do autor em si, e sim do publico. Como um exemplo simples, posso citar “O código da Vince” de Dam Brown, que se lançou como um livro de ficção e suspense, mas muitos leitores que se aventuraram por suas páginas ignoraram o lado ficcional da obra e passaram a atribuir ao escrito o caráter de relato sobre a “verdade verdadeira” da vida de cristo. Enfim, loucura...

Porém, gosto de salientar que erros de recepção não são ocasionados apenas por uma juventude apaixonada. Não são apenas os jovens que costumam a se levar muito a sério. O campo das paixões é habitado pelos seres humanos como um todo, independente de gênero, faixa etária, escolaridade, religião e outros critérios. Todos temos nossos gostos, e todos vamos defendê-los com unhas, dentes e, mais recentemente, perfis online.

domingo, 27 de outubro de 2013

Resenha: O ladão de destinos, de Nanuka Andrade


Reunindo qualidade gráfica e literária, “O ladrão de destinos” se apresenta como um prato cheio para os fãs do gênero fantasia e para os amantes da literatura infanto juvenil. Além da originalidade do roteiro, sua história chama a atenção por incorporar elementos que muito lembram os antigos filmes da Disney, tanto no que diz respeito às ilustrações, quanto ao próprio enredamento da estória e constituição dos personagens. Detalhe esse que possui a capacidade de agradar tanto ao público jovem como adulto.

Ambientado na cidade de São Paulo, Mayumi Chen, jovem estudante de ascendência oriental, descobre-se portadora de uma habilidade especial: ela consegue vagar pelos dois planos que separam o que seria o mundo material do espiritual, ou o mundo dos despertos e dos adormecidos. Além desta capacidade única, por acidente, revela-se também para Mayumi um dom um tanto quanto perigoso. Ela tem o potencial para ser uma ladra de destinos.

Roubando por acidente o destino de seu irmão, que ainda se encontra na barriga de sua mãe, Mayumi tem que se colocar em uma aventura para reaver e devolver o brilho retirado do pequeno Chen. Conhecendo assim personagens misteriosos e fascinantes, atravessando planos fantásticos, e descobrindo segredos místicos, Mayumi, descobre em si não apenas uma ladra de destinos, mas também uma pessoa muito mais forte e destemida do que jamais se imaginou.

Nanuka traz para o cenário de “O ladrão de destinos” a influência da cultura oriental, elemento este bastante acrescentador para nossas livrarias atuais, saturadas da presença europeia e americana. E Mayumi é uma personagem fortemente impactada pela novidade do mundo em que se descobre e suas questões em muito apresentam nossas próprias indagações a respeito de questões primordiais: “quem nos somos?”, “para onde iremos?” e, acima de tudo, “o que fazemos aqui?”.

Nesse sentido, recomendo a leitura de “O ladrão de destinos”, pela sua originalidade, leveza e conteúdo, que nos enleva com uma história prazerosa, mas nos põe a questionar sobre assuntos que dizem respeito a todos. Afinal, qual seria o nosso destino neste mundo no qual vivemos, onde muitos possuem respostas, mas poucos se perguntam?

terça-feira, 30 de julho de 2013

Lendo nas entrelinhas do Papa: análise de discurso.


Sei que posso parecer chato ao levantar tal polêmica, mas realmente fiquei intrigado com o resultado do discurso do Papa Francisco acerca, entre outras coisas, da homofobia. Intrigado, pois realmente me espantou a maneira como tal posição foi aceita quando inúmeros pastores radicais são execrados quando expõem suas opiniões.

Todavia, tal aceitação parece mais compreensível quando temos na figura de Chico a imagem de um bom velhinho, caridoso, calmo e gentil, enquanto outras personalidades religiosas da grande mídia parecem fazer a questão de apresentar sua faceta mais severa e seu tom mais punitivo.

Mas vamos realmente prestar atenção no que o papa nos disse?

“Se uma pessoa é gay, procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu, por caridade, para julgá-la?”

Gente, falando sério, só eu percebi que há algo de muito errado nisso? Vejamos bem, há aceitação neste discurso? Não. Há a posição de que a homossexualidade é uma característica, e não um mal que deva ser purgado? Pelo contrário.

Francamente, posso estar sendo paranoico, mas se formos ler nas entrelinhas, o que vejo no discurso do papa é a seguinte frase:

“Se uma pessoa é gay, procura Deus e tem boa vontade (isto porque reconheceu seu erro e quer mudar), quem sou eu, por caridade (pois sou um ser superior que deve levar esta alma para a luz), para julgá-la?”

Corrijam-me se eu estiver errado, mas não é essa a impressão que dá?

O fato do Papa Francisco se mostrar aberto a novas discussões, e a reverter problemas encontrados na administração anterior não muda o fato de que ele fala de um lugar muito específico: uma instituição que possui valores sólidos e que não pretende mudar de forma tão rápida. Não adianta nos iludirmos com relação a isso.

É claro que sendo este anuncio realizado logo após o sucesso da JMJ, onde o Papa saiu como uma grande figura por conta de seu carisma, as pessoas tendem a interpretar de forma aprazível tal posicionamento, mas vamos ser realistas, pouca coisa mudou no pensamento do alto clero cristão. A homossexualidade é um pecado, e deve ser convertida ou o inferno espera os pecadores, e pronto.

Agora dizer que isso é um marco... Francamente, discordo. Pra mim tem o mesmo tom da cura gay, tão criticado por uma série de pessoas, a única diferença é que foi dita de uma forma amena enquanto outros preferem tentar ganhar no grito, logo, chocando mais a população em geral.

Realmente nossa população está precisando ler mais, pois assim aprendemos a identificar os discursos que estão por detrás dos discursos, ou, em uma linguagem mais popular, ler o que está nas entrelinhas da coisa.

Enfim, é isso.

Obrigado.

sábado, 20 de julho de 2013

Coisas que valem a pena divulgar: lançamento de "O ladrão de destinos", de Nanuka Andrade

Saudações, amigos.

No dia 16 de Julho, no Shopping Iguatemi de Campinas-SP, ocorreu o lançamento de "O Ladrão de Destinos", um dos trabalhos de Nanuka Andrade, pela editor Subtítulo, que se lança na carreira da escrita fantástica.
O livro promote muita fantasia e emoção e estou doido para que o meu chegue em casa logo (risos), pois infelizmente não fui capaz de estar lá prestigiando pessoalmente.
Contudo, graças ao poder da internet, pude acompanhar alguns momentos por fotos, mesmo que postumamente.
E aqui estão elas:










Desde já, desejo muita sorte ao Nanuka e também ao pessoal da Subtítulo, que vem fazendo um excelente trabalho.
Em breve, resenha do livro...

sábado, 13 de julho de 2013

EGO, SUPEREGO, ID


Usando e abusando de meus conhecimentos rudimentares de psicanálise, gosto de pensar e repensar como estes simples elementos são tão observáveis na escrita literária. Em especial o último. Ego, a maneira como nos conhecemos e nos apresentamos ao mundo, resultado de nossos desejos mais íntimos dialogados com as pressões do mundo exterior; Superego, aquilo que está além de nós, a sociedade que nos constrange e tenta nos moldar a seus desejos; Id, a parte mais primitiva de nosso ser, nosso subconsciente, aquilo que nem mesmo nós sabemos como lidar ou sequer entender sua força e sua fome.

Aplicando isto a criação literária, podemos dizer que um livro nada mais é do que esta simples representação da mente elaborada por Freud. Afinal todos nós temos desejos de criações, das mais diversas ordens, de coisas que as vezes sequer damos conta de que desejamos, ou que são tão destoantes do resto do mundo que preferimos ignorar para não sermos lesados. Ao mesmo tempo, possuímos elementos externos a nós que de certa forma ditam os rumos de seu trabalho: o público, as editoras, a censura, todos eles com desejos próprios que tendem a moldar seu futuro trabalho, que necessita, para sobreviver, de agradar a todos esses grupos.

O resultado deste embate, entre desejos do autor e pressões do mercado, geram o livro, o ego. Aquilo que consegue ser produzido pelo duro caminho do meio do esforço literário. Por mais que muitos ainda acreditem no lema da arte pela arte, como se o artista pudesse estar completamente alheio ao mundo a sua volta, a verdade é que todos nós somos pessoas que vivem no mundo, e não podemos realizar algo que não esteja na ordem do mudando. E aqueles que tentam realizar um trabalho totalmente a parte, além de estarem se iludindo, também acabam por criar franksteins, tão alheios ao mundo que a qualidade se perde em meio a esquizofrenia de seus autores.

Não digo com isso que não exista criação, que não haja nada de inédito na escrita ficcional. Pelo contrário, há muito de inédito e de fantástico no ato de criar literatura, todavia não podemos atribuir esse fruto ao resultado do esforço exclusivo do gênio artístico, ignorando tudo o que acontece em seu entorno que, de alguma forma influencia no seu trabalho, constrangendo-o e impactando até assumir a forma que ele tem agora.

Somos o resultado daquilo que podemos ser contra o que queremos ser, daquilo que sonhamos para nós contra aquilo que os outros esperam de nós, dos nossos potenciais contra nossas limitações. Essa é a nossa condição, nosso eterno combate. E o artista não foge disto. Ele, assim como todos, luta neste cenário e “eus” e “outros” procurando estabelecer seu espaço. E muitas vezes a forma de conseguir este espaço e criando para si o personagem de artista. E marcar seu território através de seu trabalho.

sábado, 22 de junho de 2013

Saudades do Ócio


blog tão desatualizado, começo a sentir vergonha dele. Não que eu não goste mais de escrever, mas está cada dia mais difícil encontrar tempo e inspiração para tanto. A vida profissional é cansativa, e encontrar brechas para se dedicar ao trabalho intelectual é uma tarefa tão difícil que a fadiga corporal e mental impossibilitam.
Confesso que faz muito tempo que não posto aqui, e agora que olho este

Agora entendo o que Platão dizia acerca da necessidade do ócio, pois realmente é complicado manter uma carreira e um hobbie ao mesmo tempo. Ter aquele momento para pensar quando outras preocupações tomam conta da cabeça. O jeito mais simples seria tentar a feliz coincidência de mesclar os dois e seguir uma profissão que seja capaz de deleitar ao mesmo tempo em que lhe garante ascensão profissional.

O problema é que quando seu hobbie é pensar, o Brasil do séc. XXI não se mostra como o melhor espaço para lhe garantir boas oportunidades. Então o jeito é tentar se virar com duas atividades: uma para conseguir dinheiro, outra para elevar o espírito. Pois a falácia do “trabalho enobrece o homem” não cola. Por que o trabalho sozinho não enobrece ninguém.

Enfim, apesar do tom deprimente deste pequeno manifesto, não tenho por intuito desmotivar ou me lamentar para ninguém. Na verdade, acredito que escrevo este texto como forma de fazer um alerta acerca de uma cruel realidade. Cruel, mas que precisa ser vencida, e que existem estratégias para tanto.

Em um mundo corrido como o nosso, onde o tempo vale cada vez menos, a disciplina é a melhor solução. Eu realmente caí na ingenuidade de acreditar que poderia continuar como o meu ritmo dos tempos em que fazia apenas faculdade e estágio, em que os horários vagos em casa eram dedicados exclusivamente à leitura e à escrita.

Pois naquele tempo, todos os meus minutos vagos eram direcionados ao computador e às leituras, onde eu produzia bastante. Mas agora, qualquer segundo folgado só consegue ser usado para o descanso. Se eu estiver em casa, com certeza vou querer descansar, fazer uma leitura mais leve, que me garanta prazer mas que não necessariamente vá trazer grandes avanços na minha forma de pensar. Ou então assistir a um filme ou uma série, que podem trazer grandes lições ou assuntos, mas que não são suficientes para quem gosta do labor crítico.


Nesse sentido, criar o tempo é fundamental. Tornar o hobbie, quase que uma obrigação, enganar o corpo e a mente, pelo menos parcialmente, para fazê-los acreditarem que você não está fazendo aquilo que gosta apenas por que quer fazer, mas porque tem que fazer. Pois quando elas passam a ser obrigações, por mais cansados que estejamos, ainda assim conseguimos tirar forças, não sabemos donde, para realizar... Isso talvez seja nossa maior capacidade.

Dessa forma, começo a tentar me organizar. Reservar horários que até então estavam completamente disponíveis e ocupando-os com minhas obrigações/lazer. Ir para locais onde eu só poderei fazer isso, ao invés de retornar para casa onde o confortável sofá, o divertido cachorro, ou a irresistível cama vão me distanciar de meus objetivos para comigo mesmo.

Talvez essa seja a única maneira, seja de forma pessimista ou otimista, pois não sei como estas palavras podem estar sendo lidas. Mas acho que vale a penas tentar. Pois o ócio poderia ser a solução para a pacata Atenas dos primórdios do ocidente, mas se queremos manter viva a arte de pensar no terceiro milênio, temos de nos esforça um pouco mais.

Se isso vai dar certo... Bem, vamos acompanhar e ver no que vai dar.