Depois de muito trabalho e espera, tenho o imenso prazer de divulgar que acabo de assinar contrato com a Editora Subtítulo para publicação impressa de “O Véu”.
A Subtítulo é uma aspirante editora no mercado carioca. Tendo iniciado seus trabalhos meados do ano passado, com seus primeiros livros lançados na Bienal do livro do Rio de Janeiro, ela ainda promete crescer bastante e eu pretendo embarcar nessa deliciosa aventura com ela. Estou imensamente feliz com esta oportunidade e espero poder colaborar ao máximo para o sucesso desta família que me acolheu de braços abertos.
Gostaria muito de agradecer a todos aqueles que leram, comentaram e divulgaram, dedicando tempo e carinho, para que meu livro pudesse ganhar notoriedade na rede.
Muito obrigado a todos vocês!
Ainda não tenho ainda muitas informações acerca do lançamento. A única previsão é que saia para fins deste ano, mas qualquer novidade, manterei o blog atualizado. Então, mantenham-se por detrás do Véu e fiquem por dentro.
Saudações amigos.
Tudo parece caminhar para que finalmente "O Véu" seja publicado em edição impressa. Semana passada, recebi a proposta da Editora Arielli e depois de muito conversar, decidimos realizar a parceria.
O contrato ainda não foi assinado, mas tudo parece certo para que finalmente os fãs das aventuras de Ian e Ana possam ter seu exemplar nas mãos.
Desde já, gostaria de agradecer à vocês, amigos, seguidores e leitores, que tanto contribuiram para a realização desse sonho. E também um forte agradecimento à Nessie, da editora Arielli, por investir no meu trabalho.
Torcemos para que tudo dê certo e assim que eu souber com maior precisão a data, divulgarei aqui no blog.
Bem gente, como todo o pai orgulhoso, eu não canso de falar da minha cria. Nesse caso, de meu livro.
Aqui vai uma breve resenha que fiz sobre "O Véu" e que disponibilizei no site Skoob. Ela serve para aqueles que ainda não leram e querem saber mais da obra, ou até mesmo para aqueles que já leram ou estão lendo, para verem se meu objetivo foi cumprido.
Enfim, para aqueles que quiserem saber mais do mundo de Ian. Aqui vai.
“O Véu” é uma saga de fantasia contemporânea composta de dois grandes volumes. Ele é também a minha estréia no mundo literário, lançado de forma livre através da internet com fins unicamente de divulgação.
Ao construir “O Véu” eu tive a vontade de criar um trabalho que pudesse ser, ao mesmo tempo, simples e de agradável leitura, mas que também pudesse envolver algumas questões mais complexas e rebuscadas. E a forma como consegui fazer isso foi, criando uma história básica envolvendo áreas do interesse juvenil tais como o romance, a ação, os mistérios e a aventura, e bebi um pouco da história e da filosofia para a construção do mundo. E assim foi feito esse trabalho.
O mundo de “O Véu” é um mundo igual ao nosso: as mesmas casas, os mesmos problemas e as mesmas pessoas. Porém, nele a magia existe, mesmo não sendo usada. Os seres humanos aprenderam ao longo dos anos a mexerem com a mágica, mas abandonaram por considerá-la perigosa, e hoje a ignoram completamente por simplesmente desconhecê-la. Com a ascensão da modernidade e o uso da ciência como forma de explicar o mundo, mais e mais a mente da sociedade ocidental se fechou no ceticismo, permitindo assim a criação do Véu. Nesse sentido, o Véu é uma barreira que separa o mundo dos Adormecidos – pessoas comuns – e o mundo dos Despertos – magos. Porém, ele não é uma barreira física e sim conceitual, pois assim como o véu tecido, o Véu barreira é capaz de ofuscar a visão de uma pessoa e até protegê-la do sol de dos mosquitos, mas também e frágil e basicamente a única coisa que impede alguém de atravessá-la é a sua vontade.
A história gira em torno de Ana. Uma jovem que cresceu em um mundo de magia, trazido a ela através de suas tias e das histórias que elas lhe contavam em volta da fogueira em Três Corações. Porém, com a morte prematura delas e o crescimento de Ana, a garota logo viu que se quisesse crescer saudável e normal, teria de abdicar das fantasias de infância. Desse modo, ela passou a ser como todas as garotas normais. Era feliz, estudava, saía, gostava de música e tinha amigos. Mas acima de tudo, sabia o que era magia, bruxos e feitiços, mas esses estavam nos livros de fantasia e não no dia a dia. Porém, quando seu melhor amigo Ian começa a apresentar comportamentos estranhos. Comportamentos esses que remetem as antigas histórias contadas em volta da fogueira há anos atrás, então Ana percebe que precisa descobrir mais sobre aquilo que até então lutou para considerar mito.
Assim, com essa mistura de mundo complexo, mais enredo simples, eu construí a narrativa do Véu, tendo como principais influências Anne Rice, J. K. Rowling e Livros de RPG para a construção desse mundo de fantasia, amor e mistérios.
Espero que tenha conseguido meu intento e que todos os que se arrebicarem a atravessar “O Véu” venham a gostar. Desejo a todos uma ótima leitura. Um grade Abraço.
Willian Nascimento.
P.S. - Acrescento também um esboço dos personagens principais que preparei nos primeiros dias em que o Véu foi ganhando forla em minha cabeça e ameaçava sair.
Para aqueles que quiserem ir dando uma espiada na próxima aventura. (Download disponível - link ao lado)
Todo o carioca, seja ele amante de sua cidade ou não, sabe que as ruas do Rio de Janeiro não são boas para se andar sozinho durante as madrugadas de Junho. Além do frio, que naturalmente já espanta os transeuntes, a segurança – ou melhor, a falta dela – é outro fator que tornam aos passeios noturnos menos convidativos.
Assim, muitos preferem a monotonia de seus lares e a comodidade de seus aparelhos de TV, a arriscarem sair pelas madrugadas desertas, ainda mais se você é como a pessoa que começa a surgir no horizonte. Vindo ao longe, pelas ruas artificialmente iluminadas e frias da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, caminhava uma jovem. Qualquer um que a visse se perguntaria o que uma menina de aparência tão frágil estaria fazendo por ali às duas da manhã.
Ela devia ter uns vinte e dois anos, no máximo, e seu corpo era bem desenvolvido, característica essa que era realçada pela blusa curta e calça justa que usava. A única coisa que protegida sua pele do frio da madrugada era um fino casaco que a cobria até a altura dos joelhos. Ela mantinha a gola dele levantada, na tentativa de proteger o rosto dos ventos cortantes e quem sabe, encobrir um pouco seus olhos castanhos que olhavam com temor por todas as esquinas, como se estivesse à espera de algum perigo iminente. Ao julgar pela coloração vermelha do globo ocular e pelo inchaço nas pálpebras, ela devia ter acabado de chorar e o medo que deixava vazar denunciava que não devia saber muito bem o que fazia ali.
Ela era Amanda. Uma garota de classe alta de Copacabana, moradora do condomínio Ares Novos, situado na Rua Bolívar. Estava muito próxima de casa naquele momento, mas ainda assim se amaldiçoava por ter se arriscado a vir por cerca de dezoito quadras até ali sozinha. Estava irritada com isso e em sua cabeça considerava apenas uma pessoa como responsável por seu infortúnio: Pedro.
Por que ele insistia em lhe irritar? Por que não conseguia se acostumar com ela da forma como era? Pedro era seu namorado há uns três meses. Amanda gostava dele, mas seus mundos eram diferentes. Pedro gostava da ordem, do estudo e de uma vida calma. Já Amanda, sempre foi fã das festas, da noite e da diversão. Até hoje ela não saberia dizer exatamente o que tinha visto no rapaz para começar a namorá-lo. Talvez houvesse se enganado, mas era difícil de acreditar, pois ninguém levava um engano por tanto tempo.
A verdade era que gostava muito dele, mas não podia suportar suas críticas. Desde que começou a namorar, sua vida social sofreu graves perdas por deixar de ir às festas, shows e outros eventos que faziam parte de seu mundo como o ar ou a comida. Ela reconhecia que Pedro se esforçava para levá-la a alguns lugares, mas as saídas que o namorado lhe proporcionava não eram nada comparadas a sua vida agitada de solteira.
O rapaz tinha vinte e cinco anos e estava concluindo o mestrado de Ciências Políticas. Amanda o conhecia desde os doze anos e sabia que ele era do estilo responsável. Desde pequeno era visto como NERD e foi com essa dedicação que Pedro foi capaz de conseguir uma bolsa integral na faculdade mais cara do Rio de Janeiro, sendo que ele nem precisava disso, já que seus pais poderiam arcar com os custos da universidade sem muitos esforços.
E desde que entrou para a vida universitária, a responsabilidade e maturidade dele sofreram visíveis acentuações, contrastando ainda mais com Amanda, que vivia no extremo oposto. A garota ainda não sabia bem o que fazer da vida e ainda estava no que gostava de chamar de “Estágio de Conhecimento Próprio”, que não tinha prazo definido. Pedro sempre criticava esse seu lado despreocupado, o que a irritava completamente e quanto mais ela ia refletindo sobre o namorado, mais se perguntava por que havia começado o relacionamento para começo de conversa.
Ela não saberia explicar, mas há uns três meses um estranho interesse começou a surgir entre eles. Talvez o ar maduro, ou a idade tenham dado uma beleza a Pedro que não possuía na época de adolescente magrelo. Mas o fato é que Amanda começou a se sentir atraída por ele. Ela se lembra que quando iniciaram a relação, saíam juntos quase todo o fim de semana. Ela conseguia arrastá-lo para todos os lugares e assim pôde ver que o amigo era mais divertido do que supunha. Então, numa dessas noites, ele a pediu em namoro.
Talvez fosse a bebida, mas Amanda não pensou muito antes de aceitar e o começo da relação ainda foi bom. A primeira semana foi de muita diversão e saídas, mas quando essa vida boêmia começou a prejudicar o rendimento de Pedro no mestrado, suas saídas sofreram uma grave paralisação, que, no início, ela até aceitou bem. Sentia que amava o namorado e o que era um tempinho longe da diversão se conseguia se sentir bem ao seu lado? Mas então, a vida monótona começou a irritá-la e o tédio passou a ser um companheiro recorrente de seu dia.
Pedro sempre dizia que ela devia tentar a faculdade naquele período, descobrir alguma vocação, tentar um curso talvez e nesses momentos, Amanda sempre o cortava. Não gostava de ser repreendida. Se seu pai não se importava com seu Estágio de Conhecimento Próprio, quem era ele para se meter? Então, as coisas começaram a esfriar entre os dois e foi piorando à medida que o estresse dela aumentava e as cobranças dele cresciam.
E vendo isso, naquela noite, Pedro decidiu levá-la para uma boate próxima, a fim de fazerem as pazes. Mesmo chateada, aceitou o convite. Seria uma boa hora para tentarem se acertar. Não gostava de brigar com ele. Apesar de tudo, o amava.
Mas então aconteceu: quando Amanda foi dançar no meio da pista – coisa que sempre fazia – sentiu seu braço sendo puxado por uma mão forte fazendo seu corpo ser arrastado para um canto do estabelecimento. Quando conseguiu ver quem era, percebeu seu namorado que parecia um tanto irritado
- O que houve? – disse tentando libertar o membro preso
Mas ele não respondeu.
- Me solta! - ordenou fazendo força agora, mas ainda assim não conseguiu – Está me machucando!
Ela sentiu com alívio a mão dele se afrouxando e Pedro se virou para encará-la.
- O que deu em você? – Amanda gritou por causa do barulho das caixas de som.
- O que deu em você? - rebateu – Dançando daquele jeito no meio da pista. O que você estava pensando?
- Eu sempre faço isso! – lembrou entre dentes começando a sentir raiva. Não acreditava que agora Pedro quisesse controlar seus passos de dança também.
- Pois já devia parar! Não vê quanta atenção chama assim? Não viu quantos caras estavam olhando pra você?
- Eu não me importo! – replicou.
- Mas eu sim! – Pedro argumentou – Não quero que fiquem te vendo dançar como uma...
Mas se calou no meio da exaltação, deixando a frase solta. Dava para ver que se arrependera de ter ido tão longe e seus olhos se reviraram torcendo para que ela não tivesse percebido o que ele pretendia falar. Mas Amanda percebeu.
- Como o que? - questionou com a voz cortante, mas ele ficou em silêncio.
- Como o que? - insistiu – Como uma vagabunda? Era isso o que queria dizer?
Amanda sentia que sua voz poderia até mesmo superar o volume da música do estabelecimento devido a sua raiva, mas não se preocupou em falar baixo
- Olha aqui Pedro! – gritou – Eu não me importo com o que ninguém nessa droga de boate possa pensar! Só não achava que você também pensasse isso.
Ele ficou calado olhando para o chão. Dava para ver que ainda estava com raiva, mas o constrangimento era maior.
- Descul... – tentou dizer, mas não teve tempo de completar o pedido, pois uma tapa na cara dado por Amanda o fez se silenciar.
E sem dizer nada, ela se virou e saiu de perto dele. Amanda pensou em voltar para a festa, tentar dançar novamente, beber algo talvez, mas sua noite já estava arruinada. Queria voltar pra casa e pensou em pegar um taxi, mas precisava de um tempo só, para poder refletir.
Então, olhou à rua de frente para o mar e estava deserta. Sua casa ficava à apenas alguns quarteirões de distância, logo, o caminho não deveria oferecer muito risco.
Idiota, idiota. Pensou com raiva de si mesma enquanto tentava apressar o passo, mas seu salto alto ameaçava machucá-la ao fazer isso. Como esse caminho não oferecia risco? Ela percorria a rua deserta com os olhos e desejando não encontrar ninguém. Nessas circunstâncias, era melhor estar só do que em companhia de um ou dois estranhos.
Mas agora faltava pouco e Amanda logo estaria em casa. Lá, poderia respirar melhor. E foi quando escutou o som de motor de carro vindo detrás de si. Era o único som no meio do silêncio do lugar e, apesar da raiva que sentia do namorado, por um segundo, torceu para se virar e ver o Volvo branco de Pedro a perseguindo. Assim, virando o rosto com cautela, ela sentiu suas esperanças se esvaírem quando percebeu o Chevrolet azul surgir na Avenida Nossa Senhora de Copacabana.
Sem coragem de ficar olhando para o carro por muito tempo, ela tratou de se voltar para seu caminho e fingir que não viu o veículo enquanto apressava mais o passo, ignorando as fisgadas que seu calçado lhe dava. Conforme andava, torcia com toda a força para que o motorista não parasse e seguisse seu caminho em paz.
Mas não foi assim. Pelo canto do olho, percebeu o veículo se emparelhando com ela e seu peito se apertou. Então, decidiu se virar e olhar. Os vidros estavam fechados e eram escuros, não dava para ver quem era. E nesse instante, num gesto rápido que fez a garota dar um pulo, o carro azul se colocou na sua frente e as portas se abriram num único som.
Um homem jovem, bonito até, e bem vestido saiu. Não tinha a cara de um assaltante, mas mesmo assim o coração de Amanda não a deixou em paz. O rapaz sorria pra ela, um gesto que não a acalmava, mas que a deixava mais apreensiva, pois ele não parecia ter muita prática nisso. E foi quando outros três homens saíram de dentro do carro e seguiram o motorista na direção de Amanda.
A garota teve a intenção de correr. Não gostava ver que tantos vinham até ela de uma vez. Amanda olhava para os olhos deles e também não gostava do que via. Cada parte de seu corpo gritava para que ela saísse dali, mas os pés não obedeciam mais. Assim que conseguiu mandar uma mensagem para as pernas, fazendo-as se moverem, seu salto alto quase a derrubou no chão. O medo tornava suas pernas um tanto instáveis.
- Oi gatinha – falou o motorista e, aparentemente, líder do grupo.
Amanda não respondeu. Deu um passo pra trás, mas ele fez um sinal para que parasse.
- Calma. Calma. – disse sorrindo – Não vamos te fazer mal.
Mas Amanda não confiava naquele sorriso e logo percebeu que os demais a estavam cercando. Ela queria gritar, mas não conseguia se lembrar como fazia para o ar dos pulmões se transformarem em som.
- Calma gatinha – disse o líder, agora muito próximo, alisando seu rosto e arrancando risadinhas dos demais companheiros – Só queremos dar uma checada no material.
O que? Seus olhos se arregalaram.
Agora entendia o que acontecia. Provavelmente estava sendo confundida com uma prostituta do calçadão. Ela queria corrigir o engano acreditando que assim eles iriam embora, mas quando a mão do homem foi para dentro de seu casado, Amanda só pensou em empurrá-la socando-a com violência. Vendo que tinha ido um pouco longe, tentou correr para trás, mas esbarrou num dos garotos que a empurrou de volta. O motorista a segurou pelos cabelos arrancando-lhe um grito de dor.
- Olha aqui vadia – rosnou – Não vem com essa agora de bancar a virgem com a gente. Vamos logo, mostra o material.
E ele tenteou passar novamente a mão por dentro do casaco de Amanda, que lutava para empurrá-lo. E foi quando ele se irritou e lhe deu uma bofetada. Amanda sentiu o rosto arder e já não conseguiu mais segurar o casaco que lhe foi tirado, expondo seu corpo ao frio. Logo, o motorista a empurrou contra o chão e a garota sentiu a dor dos quadris batendo no meio fio e seu corpo rolar para a rua.
Antes que conseguisse se levantar, viu que estava cercada de novo. Os olhares que lhe lançavam faziam-na tremer de medo, pois conseguia ver o prazer que aqueles garotos estavam sentindo com seu sofrimento, e sabia bem que a coisa não ia parar por ali. Começou a chorar involuntariamente. Um choro abafado pelo pavor que sentia.
- Vamos ensinar uma liçãozinha a ela gente – riu-se o motorista erguendo o pé contra Amanda.
O único gesto instintivo que a garota foi capaz de fazer foi o de proteger o rosto enquanto esperava o impacto.
- Ah! - gritou, mas percebeu que sua reação saiu adiantada, pois não veio acompanhada de nenhuma dor.
Amanda abriu os olhos e viu que seu corpo não fora molestado. E olhando para frente, percebeu que o agressor parecia tão surpreso quanto ela.
Jean sentiu que alguma coisa segurava seu pé e logo sentiu raiva. Sabia bem que não deveria ter trazido Daniel com eles. O cara era muito covarde e ia acabar dando para trás logo naquele momento. Porém, quando olhou para a sua frente, viu que Daniel estava lá. Ele olhou para o amigo com uma interrogação nos olhos e quando passou o olhar pelos demais, constatou que todos estavam à sua frente.
Então, quem estaria lhe segurando a perna?
E quando baixou os olhos, precisou de alguns segundos para entender o que acontecia. Havia uma espécie de mão segurando seu membro. Mas não uma mão comum, esta era negra como a noite e tinha um aspecto estranho, com seu braço parecendo longo e fino demais e seus dedos em forma de garra. A sua cor não se assemelhava a de nenhum tom de pele que Jean conhecia, fazendo perecer que aquela mão estranha era feita de remendos de escuridão e não propriamente de tecido vivo.
Ele acompanhou com os olhos intrigados a fim de encontrar a origem da mão misteriosa e se assustou ao constatar que era sua própria sombra quem o agarrava.
- Mas que merda é... - Não teve tempo de terminar a frase, pois logo uma força sobre-humana lhe ergueu do chão, fazendo-o ficar de ponta cabeça.
Amanda não conseguia explicar o que lhe acontecia diante de seus olhos. Num segundo, o homem à sua frente lhe levantava o pé para atingi-la em cheio e no outro, ele era erguido pelo que parecia uma longa serpente negra que oscilava no ar e parecia surgir do chão. A cobra misteriosa demonstrava encontrar muita facilidade em erguer um homem de uns oitenta quilos numa altura acima da cabeça de Amanda, e mais facilidade ainda em arremessá-lo à cerca de uns trinta metros em direção ao outro lado da rua.
Ouve-se o grito do motorista enquanto ele voa contra a calçada oposta e então se escuta o som dos ossos dando de encontro ao concreto. Não demorou muito para que seus companheiros se exaltassem e começassem a correr em direção ao carro sem nem querer olhar para trás.
Então, mais uma coisa incrível aconteceu.
A serpente gigante se ergue do chão, oscilando sob a luz dos postes e se divide em três grandes tentáculos, que num bale macabro, avançam em direção aos outros três agressores. Amanda via o garoto que impediu sua fuga ser amarrado pelos pés e cair de cara no chão. Logo depois, ele recebe o mesmo destino do companheiro e é arremessado pelas pernas contra o outro lado da rua. Os outros dois tiveram uma sorte um pouco melhor. Foram presos também, mas seus corpos não foram arremessados, sendo apenas golpeados contra o chão. Um deles cai ao lado de Amanda, gemendo de dor.
Tão rápido quanto começou, terminou-se a cena de devastação e um silêncio opressor preenche o lugar. Agora Amanda vê os tentáculos negros voltarem em sua direção e ela se encolhe, acreditando ser a próxima vítima, mas eles não parecem mais tão ameaçadores agora. Eles vêm delicadamente e pegam uma das suas sandálias que saiu do seu pé no momento em que caiu na rua e a entrega à Amanda.
Meio atônita, ela segura o calçado devolvido com as mãos trêmulas, ainda sem acreditar no que está acontecendo. E é então que, através de seu campo de visão, consegue ver um novo personagem que surge. Ao virar o rosto, ela vê um homem de estatura e porte médio, que estava a uns vinte metros de distância e vinha andando calmamente em sua direção. Não havia percebido ele ali antes. Estava tão próximo que Amanda se perguntou há quanto tempo estaria ali.
Era jovem, de aparência próxima a uns vinte e cinco anos, talvez e ele vestia-se completamente de negro, com calças, blusa e sobretudo aberto no mesmo tom. Era esguio e de feições suaves e caminhava impecavelmente em sua direção. À mão direita, ele segurava um fino cordão que estendia uma espécie de pêndulo prateado enquanto a esquerda parecia dar base a ele, como que para ampará-lo caso viesse a cair. Amanda forçou o olhar para ver melhor o estranho objeto e percebeu que parecia uma espécie de medalhão com um pentagrama como pingente, que oscilava, girando hipnoticamente sobre sua mão.
O medalhão brilhava e quando finalmente percebeu, as sombras a sua volta desapareceram. Agora, Amanda conseguia ver melhor seu salvador. Os olhos que se mantinham fechados enquanto parecia se concentrar se abriram, revelando dois belos globos cor de avelã. O homem tinha traços bem definidos no rosto fino e agora olhava pra ela com um sorriso nos lábios. Era um sorriso diferente do que ela recebeu dos outros garotos. Aquele parecia verdadeiramente feliz em vê-la bem.
Ele foi se aproximando e Amanda se manteve sentada. Não parecia capaz de controlar as pernas e se levantar. Ela começou então a notar seus cabelos encaracolados e bem cuidados que caiam graciosamente sobre a testa. Seu salvador parecia um pouco mais branco que o normal, mas isso só lhe acentuava o certo ar de mistério que todo o momento já lhe concedia.
Ele, agora, estava a uma distância de um metro dela e se abaixou olhando bem dentro de seus olhos. Sem dizer nada, o homem passa a mão com o medalhão em seu rosto e ela o deixa cair em cima dela, surpreendendo-se ao constatar que sua pele era tão quente.
Amanda olhava seu herói sem saber o que dizer. Sentia que um simples obrigado não era ao bastante. Era tudo tão fantástico que achava difícil de acreditar mesmo que estivesse acontecendo na sua frente. Então, ficou ali, parada, olhando para ele. Alguém que chegara para lhe salvar a vida.
A garota sentia-se hipnotizada pela presença dele e não foi capaz de tirar o foco de seus olhos avelã. Ele sorriu de novo, revelando dentes impecáveis. Amanda queria que ele dissesse algo. Talvez se ele falasse, isso despertasse a memória dela e assim fosse capaz de se lembrar como se faz para pronunciar palavras.
Mas ele não disse nada. Apenas foi inclinando o corpo aproximando seu rosto do dela. Ele foi fechando os olhos, fazendo o avelã sumir da vista de Amanda. Instintivamente, ela também fechou os seus. Não sabia por que ele estava fazendo isso, na verdade não sabia por que ela estava fazendo isso. Mas parecia uma forma tão perfeita de se acabar a cena. O beijo final, dado entre a mocinha e seu herói. Assim como ocorrem nos mais belos contos de fada.
O toque foi quente, mas suave. Ela sentiu o corpo vacilar e a cabeça pender quando sua mão quente soltou seu rosto. Os lábios ainda ficaram selados por um tempo, até que, mais rápido do que ela pudesse imaginar possível, parou de senti-los.
Quando abriu os olhos, estava só. Ainda olhou nervosamente para os lados, mas isso só serviu para constatar que o seu herói havia desaparecido. Como? Ela olhava para o alto, como se ele pudesse ter saído voando da cena, mas nada.
Teria imaginado tudo aquilo? Estaria louca? E foi quando um gemido ao seu lado parecia querer lhe dizer que não. Um dos agressores ainda se mantinha ao seu lado, reclamando de dor com a cara enfiada no asfalto. E olhando em volta, ainda via os quatro corpos no chão. Há não ser pelo garoto ao seu lado, todos os demais pareciam mortos. Amanda ainda precisou de alguns segundos para ver que era hora de se levantar.
Passado o susto, se deu conta de que estava com frio. Olhou em volta e viu seu casaco ao lado. Não se lembrava dele ali, mas essa era a menor das coisas que intrigavam a garota naquele momento. Então, vestiu o casaco, calçou o tamanco e se levantou. Tinha certeza de que só tinha uma coisa a fazer naquele momento: voltar para casa.
Virou-se para sair e foi quando escutou novamente o gemido ao seu lado. Ela viu um dos garotos estendendo a mão em sua direção. Seus olhos estavam cheios de uma súplica de cortar o coração e Amanda percebeu que tinha algo pra fazer antes de ir para casa.
Sem pensar duas vezes e achando que iria se odiar por isso depois, ergueu a perna acertando um chute bem na boca do estomago do seu frustrado agressor. Não era coisa mais nobre a se fazer, mas se sentiu bem com isso. Logo, ele desmaiou e o silêncio voltou a reinar na rua, cortado apenas pelo som distante de uma sirene. Amanda olhou mais uma vez em volta, na vã tentativa de ver o homem de roupa negra mais uma vez, mas nada.
Então, sem mais delongas, se virou e seguiu seu caminho de volta para casa.
*
Do alto de um dos edifícios da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, que faz esquina com a Rua Siqueira Campos, Gabriel conseguia ver a garota que agora andava apressada, possivelmente, de volta para casa. Era melhor assim.
Ele continuou fitando-a até que desaparecesse de vista, admirando aquele corpo salvo. Era realmente muito bonita, havia escolhido bem. E em pensar que tinha quase testemunhado a flagelação daquele corpo perfeito. Isso enchia o jovem de raiva. Por sorte, chegara a tempo de salvá-la.
Amanda saíra de vista e agora ele olhava para os corpos dos quatros garotos e percebeu que havia exagerado um pouco. Aqueles eram filhos de membros da elite local e com certeza suas mortes seriam investigadas. Mas não adiantava chorar pelo leite derramado naquele momento. No fundo, não sentia arrependimento nenhum. Estava fazendo aquilo por amor e isso justificava tudo. Talvez, seu único arrependimento tenha sido o de não torturá-los mais antes de dar o tão sonhado fim, pois a raiva que sentia por terem tentado ferir o corpo de Amanda ainda era grande, mas era hora de parar de pensar e ir embora.
Sua parte estava completa e Gabriel só esperava que os demais estivessem cumprindo seus papéis de forma correta. E agora, ele precisava esperar novas instruções. E assim, inclinando o corpo num ângulo de cento e oitenta graus, Gabriel deixou-se cair do edifício em que estava e foi descendo os dez andares em queda livre, como se não tivesse peso, até tocar suavemente no chão.
Gostaria de dividir com vocês algumas informações rápidas referentes as novidades no mundo de "O Véu".
A primeira delas e a iminência do lançamento do volume dois do Véu para download aqui no blog. Agora com data marcada: dia 1° de Março.
Para aqueles que leram a gostaram, irão poder continuar a aventura e para aqueles que ainda estão lendo ou desejam ler, poderão ficar tranquilos pois terão os dois volumes da saga disponíveis. Sem riscos de ficarem com a história incompleta.
Espero que curtam bastante essa continuação.
P.S. Para aqueles que já leram o primeiro e não gostam de esperar, estou disposto a burlar as regras e mandar-lhes por e-mail, se quiserem. É só me mandar um endereço de e-mail e ficarei feliz em enviar um "Véu - Volume dois" para vocês.
Ainda falando de "O véu - Volume dois", o cadastro dele no Skoob já está pronto, para aqueles que queiram marcá-lo como pretenção de leitura futura e ou desejem saber mais dessa continuação.
E agora, passando para o Volume 1, uma noticia interessante. Aqueles que o leram, devem ter reparado que a obra possui um ou dois errinhos de digitação e ortografia, não é mesmo? (Bem, se vocês disseram 'sim' então são muito gentis, pois ele estava CHEIO de erros. rs). Mas a boa notícia é que ele acabou de entrar em processo de revisão e logo, logo, teremos uma versão de "O Véu" turbinada aqui no blog. E a responsável por esse trabalho é uma nova amiga minha, Adriana F. que está realizando esse belo trabalho e a quem eu agradeço muito mesmo.
Nesse segundo e último volume da saga, a aventura de Ian e Ana continua, só que desta vez com algumas mudanças. O tempo passa, os inimigos aumentam e a magia continua.
Em breve, disponível para download aqui no Blog.
E para aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de conhecer o Volume 1, aqui vão os links para download.
Saudações amigos.
Acabei de cadastrar O Véu no Site Skoob.
Para quem não conhece, o Skoob é um novo site de relacionamentos, só que mais voltado para amantes de literatura. Nesse site, você encontra resenhas, opiniões e cadastros de livros dos mais distintos autores, podendo até mesmo propor trocas, vendas e aquisições de novos livros.
De todas as férias que passava, não havia nenhuma melhor para Ana do que as que ocorriam no sítio dos avôs em Três Corações, interior de Minas Gerais. O Estado mineiro é famoso por suas lendas locais e superstições dos mais variados tipos, mas Ana gostava especialmente desta cidade aonde havia as lendas de bruxas que ela tanto amava. Suas tias, que também moravam na região, tinham o costume de lhe contar inúmeras historias enquanto assavam marshmallows em volta da fogueira no quintal da casa delas. Teresa e Samanta eram suas melhores amigas e sempre se diziam bruxas de alto poder, coisa que Ana jamais duvidou. Tal crença sempre foi forte no coração da garota e certos acontecimentos só fortaleciam sua fé no poder delas. Ela ainda conseguia se lembrar muito bem da noite em que acordara doente com o termômetro marcando quarenta graus de febre. Tia Teresa lhe trouxe um chá de ervas que, segundo ela, era capaz de curar quase todos os tipos de enfermidades. Com apenas oito anos na época a menina não teve receios em acreditar com todas as forças na cura milagrosa e aparentemente os céus recompensaram sua fé, pois no dia seguinte estava curada. Esse e outros casos só serviam para confirmar para Ana o poder que aquelas duas mulheres possuíam. Sílvio e Marieta, seus avós, reforçavam suas crenças. Sempre confirmaram para Ana o poder de suas filhas, contando casos em que elas conseguiram mexer com as forças da natureza. Numa certa ocasião, eles contaram, uma onda de calor atacou o Município de Três Corações, trazendo algumas doenças de caráter misterioso. Eles se recordam que numa semana as irmãs Samanta e Teresa saíram de casa alegando que iriam para o interior da floresta onde havia um local especial onde elas poderiam realizar um ritual que poria um fim no problema. Logicamente seus pais foram contra tal empreitada, principalmente pelo fato das duas irmãs apenas terem doze e quatorze anos, respectivamente, na época. Mas a proibição não adiantou muito e naquela noite as duas haviam fugido as escondidas e ficaram desaparecidas por uma semana. Seus pais procuraram por elas de todas as formas possíveis sem obter resultados vantajosos. Mandaram inúmeros grupos de busca para a floresta, mas todos voltaram sem resultados e a policia começava a cogitar a idéia de um seqüestro. Porém, exatamente uma semana depois, as duas irmãs reapareceram. Ilesas e aparentemente saudáveis, elas diziam que foram bem sucedidas no ritual mágico. Sílvio e Marieta ficaram irritados, mas depois que tiveram suas filhas de volta, foram capazes de perceber que de fato as coisas haviam mudado e que o clima estava bastante ameno. Sem saber o que fazer, deixaram aquela passar, mas não sem antes arrancar uma promessa das duas de que jamais fariam aquilo novamente. Ao contrario de seus avôs, sua mãe, não concordava com tais comportamentos de suas irmãs. Helena era na época professora Adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde lecionava biologia. Ela não compartilhava das crenças de Ana. Para Helena, mágica não existia. Na verdade, para ela nada que não pudesse ter uma explicação baseada em átomos, enzimas ou teorias da física não existiam. “Por isso não arrumam maridos”, era o comentário que sempre fazia. Apesar dessa opinião, Helena nunca forçou Ana a seguir suas idéias, embora não gostasse da influência que suas irmãs tinham sobre a menina. Seu pai, apesar de também ser descrente, em nada se importava. Ele sempre dizia que crianças deviam ter o direito de sonhar. Para ele, que era psicólogo, essas fantasias eram importantes para o desenvolvimento infantil. “Crianças devem ser crianças”, ele sempre dizia. Com essa família, Ana nunca teve dificuldades em deixar sua imaginação correr. E sempre que cabia a ela escolher aonde seriam as próximas férias, a resposta já estava gravada em sua língua: para Três Corações. Porém, as suas férias de meio de ano, próximas da data de comemorar seu décimo segundo aniversário, poriam um fim a esse mundo de magia.
* Era Inverno e mais uma vez Ana tinha decidido passar seus dias de férias na casa dos avôs. As três primeiras noites que passou, ela ouviu ótimas histórias de bruxas e magos em volta da fogueira no quintal da casa de suas tias. Samanta lhe contou uma lenda antiga, sobre uma família de magos muito antigos que habitava as regiões do norte do Canadá: a família Garow. “De acordo com a lenda, essa família, diferentes dos demais magos existentes, possuía uma forte ligação com a natureza da região, sendo capazes até mesmo de controlar o clima gelado e os lupinos locais. Além dos poderes incomuns, seus traços físicos eram muito peculiares e em muito lembravam aspectos canídeos. Dizem até mesmo que a lenda dos lobisomens nasceu devido a esse clã. “Durante a caça às bruxas, inúmeras foram as tentativas dos inquisidores europeus de erradicar esse grupo. Porém, devido ao seu grande poder e sua afinidade com a natureza local, nunca foram derrotados, obrigando os colonizadores a não adentrar seus territórios e mantendo a região conservada. “Como os Garows não demonstravam instintos expansionistas, viveram em paz com os russos que vieram a habitar essa região nos anos seguintes. Até que desapareceram.” - Mas como tia Samanta? - a garota ficou pasma - Os russos finalmente conseguiram derrotar os Garows? - Possivelmente não. - respondeu Teresa – Apesar de a Rússia possuir excelentes grupos inquisidores na época e seu povo já ser acostumado ao clima gelado, duvido que fossem capazes de deter a afinidade dos Garows em sua terra. - Mas então como eles puderam desaparecer? - Ninguém sabe – agora era Samanta quem dizia – esse é um dos maiores mistérios do mundo mágico. Como um clã tão poderoso pôde simplesmente ser erradicado? - ela deu de ombros - A noticia correu o mundo quando começou a circular na Europa o diário de um colono Russo que habitava a região e tinha relações com os membros do clã. Seu diário continha alguns relatos da dizimação dos Garows. Esses relatos mostram o grau de destruição em que a aldeia foi encontrada. Todos os moradores foram brutalmente assassinados, provavelmente por um grupo mais feroz que eles, devido aos tipos de ferimentos encontrados nos corpos. Ana ouvia cada detalhe com muita atenção, tendo até mesmo que se lembrar de respirar em algumas seqüências. - Nossa! - exclamou - Quando crescer, vou descobrir o que aconteceu com o clã Garow. - Claro que vai querida – encorajou Samanta com um sorriso – mas agora você vai é voltar para casa da vovó para dormir. - Exatamente. – completou Teresa – Já está tarde e se você se atrasar mais meus pais vão nos mandar para a fogueira. Ana riu e concordou. - Vou indo sim. Mas posso fazer uma última pergunta? - Claro – encorajou Samanta - Como eles eram? Digo, eram humanos? - Claro que sim. Todos os magos são humanos, querida. Magia é para todos e aposto que as habilidades dos Garow, apesar de incomuns, foram fruto de um intimo contato com sua terra. Afinal, eles moraram naquela região por cerca de mil anos e nesse tempo aprenderam muitas coisas. - Claro que tem a questão da aparência – lembrou Teresa. - Como assim? – a garota se interessou. Bem, contam as lendas que a grande afinidade que os Garow tinham com a sua terra acabou mudando a sua própria fisionomia. – e fez uma pausa para acrescentar um ar de mistério a narrativa – Parece que a ligação deles com os canídeos deram a este grupo algumas características bem bestiais como unhas em forma de garras e caninos pontiagudos. Outra característica forte no clã eram seus intensos olhos azuis. Todos os relatos sobre os Garows falam desses olhos. Parece que o efeito que causa em quem vê é impactante. - Eles deviam ser bem bonitos – comentou Ana. - Bem, tem gosto pra tudo – riu-se Teresa não concordando por completo – Então, vai querer companhia pra casa? - Não Tia. Já sou crescida. - Que ótimo. – felicitou Samanta – Então vai logo. Amanhã fazemos outro programa. – e, de repente, ela deu um pulo lembrando-se de uma cosia – Espere. Eu quero que leve isso contigo. Samanta remexeu o bolso do casaco à procura de algo, até que enfim encontrou um pedaço de pano, aparentemente muito velho. - O que é isto? – perguntou a garota um tanto enojada pela sujeira do tecido. - Abra – recomendou Samanta. Após desdobrar o pano sujo, Ana encontrou uma mancha. Ela olhou para as tias interrogativamente e depois focalizou a atenção novamente no presente. Aos poucos foi identificando os aspectos da estranha mancha e percebeu que tinha um padrão ali. Logo percebeu se tratar, não de uma mancha, mas sim de um desenho de aparência bem rústica. Depois de poucos segundos a garota conseguiu identificar a cabeça de um lobo estampada no tecido. A face do animal, toda em estilo tribal, se encontrava de frente e com um olhar ameaçador. O desenho não tinha muitos traços, mas era bonito assim mesmo. - Esse é o símbolo da família Garow. – explicou tia Teresa – É uma relíquia, talvez uma das poucas que um dia pertenceu à tribo. O rosto da garota se iluminou com a informação. - Serio! Obrigado! – Exclamou enquanto voava no pescoço das tias num forte abraço – Mas como você conseguiu? - Bem, como você sabe, fomos ao Canadá algumas vezes na nossa vida. Numa dessas viagens participamos de uma excursão pelas tribos indígenas da região e encontramos essa relíquia num desses lugares. Ela estava sendo vendida como lembrança por pessoas que provavelmente saquearam o lugar antes de nós chegarmos. - e completou com um sorriso amarelo - Reconhecemos a autenticidade do símbolo e conseguimos pechinchá-lo fazendo o vendedor acreditar que não era nada de valor. - Legal – repetiu a garota sem se importar com a trapaça das tias Quando Ana as largou, Teresa disse: - Sabemos o quanto você gostou desse tipo de clã em particular, então resolvemos lhe dar isso. – e alertou – mas, cuide bem dele. Temos esse símbolo há anos. - brincou. E depois de se despedir de Teresa e Samanta, Ana saiu para a casa dos avôs. Estava escuro e deserto no caminho que levava até o sitio de Sílvio, mas Ana adorava a sensação de perigo que envolvia andar sozinha à noite. Apesar do distrito de Três Corações não ser violento e as chances de que algo aconteça com ela durante os dez minutos de trajeto da casa de suas tias até a casa de seus avós ser de uma em um milhão, Ana gostava de se sentir destemida e encarando o desconhecido. O vento começava a soprar com força fazendo os cabelos curtos da menina esvoaçarem. Era um fenômeno normal nas noites da região e que Ana adorava. Além de gostar da sensação do vento acariciando seu rosto, essa corrente noturna aumentava o ar sobrenatural da região que sempre a deixava de pelos arrepiados. Mas a brisa começou a soprar com mais força exigindo que ela levasse o braço à frente do rosto para proteger os olhos. Um som começava a ser produzido em seus ouvidos e ela se lembrou de suas tias dizendo que os ventos muitas vezes carregavam mensagens distantes, embora Ana nunca tenha conseguido interpretar nenhuma. À medida que chegava perto de casa, Ana sentia que o vento em seus ouvidos começava a ganhar forma, até finalmente se tornar uma mensagem clara que Ana pôde interpretar. E ficou aterrorizada com o que escutou. Matar Quando ouviu isso, o medo tomou conta da jovem garota. Ela olhava desesperadamente em sua volta tentando localizar a boca que emitia tal mensagem. Aquela voz gélida parecia pertencer a alguém cruel, que talvez nem humana fosse. Matar De novo e as lágrimas começaram a querer sair de seus olhos, mas ela as segurou. Não gostava de chorar na frente dos outros e muito menos daquilo que tentava apavorá-la. - Quem está ai? – ela gritava para o escuro. Sem resposta. Ela tentou juntar toda a coragem que tinha para continuar falando – Eu sou sobrinha das duas maiores bruxas da região. Não se meta comigo ou você está frito! Agora o vento ria do comentário da jovem menina. Mas ao invés de responder, ele foi sendo levado para longe. Porém, os sussurros continuavam soando em seus ouvidos e desaparecendo aos poucos. Sussurros que continuavam a dizer: Matar, matar, matar. Matar as duas. O vento agora era levado em direção ao caminho por onde Ana havia vindo. Tias, um medo atravessou o coração da pequena e conseguindo se livrar da paralisia em seus músculos causada pelo medo, ela correu como nunca na vida em direção a casa dos avôs. Quando chegou, entrou gritando desesperada: - Vô! Vó! Rápido! As minhas tias estão em perigo! - O Que houve minha filha? - perguntou sua avó largando a revista que lia e se erguendo da poltrona ao notar seu desespero. - Vó. Eu ouvi alguém dizer que vai matar a tia Teresa e a tia Samanta. - Onde você ouviu isso? Quem te disse? - a velha começava a ficar preocupada. - Eu ouvi. O Vento me disse. - Como? - Por favor, vovó! Chame a polícia, alguma coisa. Chame o vovô! - Seu avô saiu querida. Vai demorar um pouco para chegar. - Mas vão matar as tias! – Agora Ana não conseguia segurar as lágrimas em seus olhos e foi então que se iniciou um choro soluçante que impedia Ana de continuar a falar com precisão. Vendo a situação desesperadora da neta, a avó a abraçou e disse: - Calma minha filha. – e vendo que não conseguia acalmar a garota, propôs – Vamos lá na casa das suas tias. Veremos se estão bem. Vou levar o celular caso aconteça algo. Ta bem? A garota concordou saindo em disparada até a casa das tias. Mesmo limitada pela idade, Marieta lutava para acompanhar os paços da garota. Quando finalmente chegaram, tudo estava transpirando uma enorme paz. - Viu queria? Está tudo bem. Mas Ana ainda não estava completamente convencida. Ela tinha que entrar e conferir. Porém, não teve tempo para isso, pois logo um clarão surgiu do interior da casa e um estrondo de explosão derruba a ela e a sua avó no chão. Ana sente o ouvido zumbir devido ao barulho e quando consegue abrir os olhos só consegue ver chamas no local onde antes havia uma casa. O fogo conseguiu se espalhar com uma velocidade nunca imaginada e toda a casa ardia em meio às chamas. - Tia! – Ana sentia seus pulmões arderem a cada grito – Tia Samanta! Tia Teresa! Ana gritava sem obter respostas até que chegou uma próxima visão que fez sua voz se calar num engasgo. Pois no meio das chamas a menina pode identificar uma silhueta que se encontrava na janela. Tia? Ela pensou, mas no fundo sabia que não era. A silhueta parecia pertencer a um homem. Era alta e forte. Mas como alguém sobreviveria no meio daquele inferno? Apesar de não poder enxergar o rosto daquilo que estava na janela da casa, sabia que aquilo a encarava. Então o medo voltou a brotar no fundo de seu corpo, assim como acontecera quando ela ouvira a voz na estrada de terra. Um medo tão forte que toda a sua voz era sufocada quando tentava alertar sua avó do que ela via. Mais um estrondo. E a última imagem na cabeça de Ana ficou sendo a da casa e do ser misterioso desaparecendo num segundo clarão.
* Ana acordou duas semanas depois. Descobriu que o corpo de bombeiros local acusou um escapamento de gás como a causa da explosão. E apesar de tentar, não importava o que Ana dissesse ou o quanto gritasse, pois ninguém acreditava na sua versão sobre ventos malignos. Seus relatos sobre a noite não eram levados a sério e com o tempo nem sequer eram ouvidos, servindo apenas para que Ana ganhasse anos de visitas à psiquiatras de diferentes estados do país e remédios com nomes cada vez mais complicados. Anos se passaram e aos poucos Ana foi desistindo de sua versão. Na verdade, o tratamento devia estar funcionando, pois nem mesmo ela conseguia mais acreditar no que tinha testemunhado. O fato de não acreditarem nela e o medo de acabar como a avó – que foi internada num hospício ao enlouquecer após o acidente com as filhas -, fizeram Ana finalmente se calar. À medida que foi crescendo, Ana foi também esquecendo. Esqueceu-se das antigas histórias que lhe contavam suas tias, das horas passadas em volta da fogueira. Magia e bruxas eram agora para ela apenas sonhos de uma garotinha, que morreram junto com suas tias naquele terrível acidente.
Como uma barreira tão fina pode esconder tão grande verdade? Ana teve uma infância feliz ao lado de suas tias em Três Corações. Com elas, a garota aprendeu a sonhar e acreditar em toda a forma de magia que o mundo tinha a oferecer. Porém, crescer significou também amadurecer, e ambas as coisas a fizeram abdicar das fantasias do passado. Mas agora as histórias contadas em volta da fogueira há tempos atrás ameaçam voltar com toda a força, quando aquele que esteve ao lado de Ana o tempo todo parece esconder um grande segredo. Teria você também coragem de atravessar o véu?