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sábado, 1 de maio de 2010

O Salto

Saudações Amigos.
Eu já havia avisado em alguns posts anteriores que atualmente estou trabalhando em um novo romance que trará anjos ao palco como protagonistas.
Esse presente conto é, na verdade, primeiro capítulo do romance "O Salto", que já se encontra em processo de conclusão. O conto já foi publicado na homepage Mais 1 Livro. Para conferir, basta acessar o link Quinta do Conto, no canto direito do site. Para aqueles que possuam contos, ensaios, artigos ou resenhas  e estejam interessados em participar, o moderador, João Paulo Oliveria está fazendo um ótimo trabalho de publicação e está aberto ao recebimento de novos colaboradores. O blog está começando agora, mas já demonstra grandes potenciais de crescimento. É uma boa oportunidade para quem quer ter seu tabalho exibido.
Pois bem, sem mais delongas, apresento-lhes "O Salto"



E ali estava eu, mais uma vez. Novamente me sentindo a criatura mais desprezível do mundo, mais uma vez enganando a mim mesmo. E acima de tudo, mais uma vez querendo aquilo com todo o meu ser.
Era claro para mim que aquilo era errado, que eu deveria estar longe, mas a todo o momento meu corpo era arrastado de volta para lá, para ela. As noites eram minhas horas preferidas, pois ali eu poderia vê-la dormir. O fato de gostar mais dela adormecida não servia ao propósito de me manter oculto, pois mesmo acordada, ela não me veria. Assim como não me via de dia enquanto estava trabalhando, ajudando a avó ou lendo aqueles periódicos complicados de medicina. Ela nunca me via, pois essa é a condição: estarmos sempre perto, mas nunca sermos vistos.
Acho que era exatamente por isso que eu a preferia quando estava dormindo, pois dessa forma, pelo menos eu conseguia aceitar miseravelmente o fato de ela nunca poder me ver. É tão triste estar na sua frente o tempo todo, acompanhar seus passos e vê-la olhar para mim sem me enxergar, vendo através de mim como se eu fosse apenas ar, como se não existisse. Mas também havia outras vantagens que me faziam preferir acompanhá-la enquanto ela estava adormecida. Nesse estado, onde seu espírito saía e vagava pelas mais longínquas regiões, e onde seu corpo ficava calmo, sereno. Onde seu rosto, agora tomado de uma expressão angelical, me fazia sentir, ao mesmo tempo, alegria e nojo de mim mesmo.
Só mais uns minutos, eu pensava, eu só estou fazendo meu trabalho, tentava acreditar, ela é como todas as outras, eu queria loucamente acreditar. A todo o momento eu me enganava, sabia disso, mas como o pior dos mentirosos, fingia não notar e achar que meus argumentos eram válidos, que justificavam minha permanência ali por mais alguns intermináveis minutos.
Por um lado, era verdade que eu estava realizando meu trabalho. Como todo o anjo, minha missão era simples e clara: Protegê-los, sem jamais intervir, Observar, sem jamais ser visto. Então eu estava lá. Cuidando dela, protegendo-a a minha maneira, mas aquilo não era a completa verdade. Pois, além dela, eu tinha a missão de proteger a todos. Eu não era exclusivo.
E foi ali, olhando suas expressões calmas e ouvindo sua respiração pesada, que me permiti voltar no tempo, mais uma vez. Para o dia em que a vi pela primeira vez. Além de proteger as pessoas, eu, como Ceifeiro, tenho também a missão de guiá-los na triste data da morte, ao encontro de meu Pai. E foi esse trabalho, considerado desagradável por muitos — eu ainda não me decidi quanto a isso —, que eu a conheci.
Em torno do leito da velha senhora Magno, num quarto pequeno e aconchegante, estavam toda a sua família e também alguns poucos amigos. Os familiares estavam em número reduzido, pois um Ceifeiro já havia visitado aquela família não fazia muito tempo. Sua filha Telma e seu genro Ivan já haviam sido levados antes. Abigail, uma amiga de trabalho tinha tomado conta disso, deixando apenas uma menina de cabelos castanhos que estava naquele momento ajoelhada diante da cama, e foi a única sobrevivente do trágico acidente. O marido de Camila, Felipe, também estava ali, pousando sua mão no ombro da neta. E com eles dois, Régis e Érica, também avós da pequena criança e pais de Ivan. Todos permaneceram calados, apreensivos, esperando apenas o médico que media o pulso da velha senhora dar seu diagnóstico.
Quando finalmente parou de examinar sua paciente, ele retirou os óculos do rosto e deu a triste notícia com a calma e distância que sua profissão exigia:
— Eu sinto muito — disse para os parentes, que se colocaram a chorar. As mulheres, mais livremente. Os homens, se segurando um pouco.
Mas de todos que ali estavam aquela que mais me chamava atenção era uma menininha de cabelos castanhos e faces rosadas. De todas, ela era a única que mantinha um brilho diferente no olhar. Enquanto os demais fitavam o corpo da velha senhora com pena ou tristeza, ela o encarava com esperança.  Com o foco fixo no corpo da avó, parecia que ela tentava de alguma forma atraí-la de volta, como se com o poder de seu olhar pudesse fazer com que a morta se erguesse da cama novamente. Uma fé realmente bonita, mas desnecessária. Já era tarde, e a alma de Camila já se encontrava ao meu lado naquele momento.
— Eu morri? — ela perguntou para mim assim que notou a condição a sua volta, onde eu era o único que conseguia vê-la ali.
— Sim — respondi com o mesmo tom distante que o médico usara para anunciar a morte de Camila para os presentes. Por que será que todos aqueles que trabalham com mortos tem que assumir essa distância?
— Meu Deus! — ela levou as mãos à boca — Pobre Clara. — e olhava para o rosto da pobre criança que ainda fixava sua atenção para o corpo de sua avó, esperando que ela se erguesse depois de um sono relaxante.
— Eu preciso acompanhar a senhora — informei colocando a mão em seu ombro e tirando-a dos devaneios.
Ela ainda precisou ficar um tempo para poder reagir ao meu toque.
— Eu... — ela me olhou um tanto hesitante, mas logo consentiu — Claro.
E sem dizer mais nada, fomos embora. Era bom quando as pessoas escolhiam ir de tão bom grado. Algumas vezes, eu precisava gastar horas para convencê-las de que o melhor era seguir comigo, que era a lei imutável e que o Pai às esperava do outro lado. Porém, sempre havia aquelas cujo medo ou vontade de viver, eu não conseguia vencer, sendo obrigado então a deixá-las para trás e permitir que suas próprias experiências as conduzissem para o caminho certo. Era triste ter de fazer isso, mas a regra ainda era clara: não intervir.
Assim, chegando ao ponto final, depois de sobrevoarmos toda a pequena cidade de São Donato, onde o céu crepuscular tingia as nuvens de laranja, chegou a hora de nos despedirmos. Ali, de pé sobre o teto de telhas de cerâmica da Igreja, que ficava logo acima do morro na entrada da cidade, eu me virei para Camila.
— É aqui que eu a deixo. — informei — A partir de agora, seu caminho ficará sob responsabilidade do Pai.
Ela hesitou mais uma vez, olhando para a direção de onde viemos.
— O que a aflige? — tentei ser solícito.
— Nada.
Mas eu não acreditei, e esperei pacientemente que ela fosse capaz de abrir o coração.
— Clara... — disse o nome quase que mecanicamente.
— O que tem ela? — perguntei, me lembrando que esse era o nome da garotinha que estava ao seu lado no leito de morte.
— Eu fico preocupada com ela — admitiu — Ela perdeu os pais tão recentemente e ainda tem dificuldades em interagir com as pessoas daqui. Eu sou, basicamente, sua única amiga. Ou era...
— Compreendo.
Seus olhos marejados começaram a fitar a cidade logo abaixo de nós. Aquela era uma vista muito bonita, capaz de prender a atenção até mesmo de uma criatura como eu, que já havia visto tantas coisas. Depois de admirá-la por algum tempo, seu rosto se voltou novamente para mim. Seus olhos queriam transmitir alguma coisa que eu demorei a compreender. Mas então, analisando melhor suas expressões, previ que dali viria um pedido.
— Por favor, — suspirou — Cuide dela para mim.
— Não se preocupe. — tranqüilizei-a — Eu sempre cuido. — e lancei-lhe um sorriso carinhoso.
— Não — ela argumentou, balançando a cabeça — Eu preciso que você cuide dela de verdade.
Apesar de me sentir um tanto ofendido, continuei a sorri com carinho.
— Eu cuidarei. — garanti
— Prometa-me que não a deixará sofrer nenhum mal.
— Eu prometo. — ri de forma suave. Já estava acostumado àqueles tipos de pedidos.
— Por Deus.
— Pelo Pai — respondi e ela sorriu aliviada.
— Tenha uma boa viagem — desejei.
— Obrigada — e levando as mãos ao peito num gesto de gratidão, desapareceu. Como acontecia com todas as outras, uma luz vinda do interior de seu próprio espírito a consumiu, fazendo-a desaparecer, e eu não era mais capaz de captar sua presença. E também, como acontece todas as vezes que me despeço de alguém, eu tinha aquela sensação de estar sujo por dentro. Enfim, ignorando-a mais uma vez, eu segui meu caminho.
Naquela mesma noite, voltei à casa de Clara. Já era noite e quando entrei pela janela encontrei a menina ajoelhada ao lado da cama, realizando uma prece silenciosa. Enquanto a esperava terminar e ir se deitar, eu passei a olhar pelo pequeno aposento. Seu quarto era decorado quase que totalmente de cor lilás. Sua cama, aonde ela se apoiava os cotovelos para orar, se encontrava bem arrumada e na cômoda ao lado estava uma foto da mulher que eu acabei de guiar.
— Papai. — foi a primeira vez que escutei a sua voz, ouvindo-a falar olhando para o teto — Por que você levou a minha avó?
Uma pergunta inocente, mas ainda assim, com uma pontada de ressentimento.
— Primeiro papai e mamãe, agora ela... — e fungou alto, segurando o choro — Por que você tem que me tirar todos os que amo? Por que seus anjos tiveram de levá-la?
Ela não foi mais capaz de segurar o choro e as lágrimas brilhantes começaram a descer de seu rosto. Como aquilo me doía. Não era a primeira vez que eu escutava esse tipo de desabafo e provavelmente não seria a última, mas não podia deixar de me sentir agredido por aquelas palavras.
— Eu... Eu estou de mal com o Senhor. Estou de mal com seus anjos — ameaçou com uma coragem que só era possível para quem aos poucos deixava de acreditar que era ouvida — Não quero mais saber deles — e soluçou — Por que vocês não fizeram nada para impedir...?
Eu queria tampar os ouvidos, queria poder fazer algo para que ela se calasse, mas não consegui. Eu poderia ir embora, mas resolvi ficar. Talvez por que eu ainda estivesse me sentindo em dívida com Camila e achava-me na obrigatoriedade de ficar ali pelo menos até ela adormecer, ou talvez por que, lá no fundo, numa parte bastante obscura e doentia de mim mesmo, eu acreditava que merecia ouvir aquelas palavras. Não sei a razão, mas fiquei. E foi então que ela finalmente cansou-se de orar e resolveu se deitar. Sem saber, eu havia testemunhado a última noite em que a ouviria falar comigo ou com qualquer um de minha espécie.
Clara se deitou e se cobriu. Agarrou um travesseiro com o qual enxugou as lágrimas de seu rosto e com ele dormiu abraçada. Fungou muito antes de finalmente adormecer, mas enfim, conseguiu. Ela era uma criança. Tinha a vida toda pela frente e logo superaria isso. Era hora de eu ir embora. Mas não o fiz e aquela seria a primeira de muitas vezes que continuei ali, sem dizer, fazer ou pensar em nada, absorto em vê-la dormir. Naquela época eu nem fazia idéia da terrível armadilha na qual eu estava entrando de livre e espontânea vontade. O que havia de tão fascinante nela? Por que eu sentia como se não quisesse fazer mais nada além de estar ali? Eu não consegui responder essa pergunta naquela noite e jamais consegui responder até hoje. Sorri involuntariamente ao vê-la se mexer. Já chega Gabriel. É hora de partir. Disse para mim mesmo e com isso consegui reunir a força necessária para me erguer novamente e me dirigir até a janela. Eu não deveria precisar de tanta força de vontade assim para simplesmente sair, mas precisei.
Andei até a abertura como se minhas pernas estivessem presas por bolas de chumbo e quando cheguei bem próximo de sair, escutei algo que me fez voltar. Um gemido, muito próximo ao choro, me chamou de volta a atenção para ela. Foi quando a vi, contorcendo-se em seu leito, agarrando com força as cobertas e se remexendo. Seus olhos crispados completavam o retrato da dor que sentia e mais uma vez aquilo me incomodou. Olhei para os lados esperando que alguém pudesse vir e tirá-la daquele pesadelo terrível, mas parecia que ninguém na casa escutava seu pranto contido. Eu a olhava, desejando loucamente que ela parasse. Não agüentava mais ouvir aquilo. Não de novo, não dessa forma. Por algum motivo ele era forte demais para mim, me destruía por dentro. E foi quando cometi o primeiro de muitos erros que se seguiriam depois. Sem pensar em nada, coloquei minha mão carinhosamente sobre sua testa úmida.
Não precisou de muito tempo para que ela parasse. Um sorriso lindo cortou seus lábios e ela relaxou. Mas aquele gesto me deixou uma marca. Pois naquele instante eu senti um calor agradável na mão. Aquele toque havia despertado em mim uma sensação, até então, nunca antes experimentada: uma centelha do que seria o calor humano.
Como se aquele toque pudesse produzir chamas que me consumiria, eu retirei a mão rapidamente e olhei assustado em volta. Ninguém. Temendo a mim mesmo depois dali, voei pela janela e desapareci, prometendo não voltar.

Mas eu voltei. No dia seguinte e no outro. Voltei durante quinze anos. Assim como voltara agora. Durante o processo, eu a vi crescer. Vi quando foi à escola pela primeira vez e quando as meninas de sua turma foram más com ela. Vi quando teve seu primeiro namorado e sua primeira vez. Vi quando entrou para a faculdade e quando se formou. Eu também estava lá quando perdeu seus outros parentes: seu avô materno e paterno, ambos vítimas de ataque cardíaco. E nesse instante eu percebi que algo havia mudado nela, pois Clara não chorou por nenhuma dessas perdas. Assim como não chorou quando aquele seu primeiro namorado a traiu com uma de suas amigas. Ela não chorou mais. Nem quando se machucava na rua, nem quando brigava com os amigos ou não conseguia aquilo que mais desejava. Nenhuma vez lágrimas saíram de seus olhos.
E a todo o momento eu estava lá ao seu lado, sem que ela nunca suspeitasse. Sempre presente, desde suas visitas à cachoeira de São Donato aonde gostava de ver o véu d’água, até as visitas ao cemitério aonde levava flores para o túmulo de seus entes queridos. Nunca notado... Assim como acontecia agora...
Ela estava dormindo e eu vigiando seu sono. Vigiando, guardando e também... Esperando. Esperando o que sempre acontecia para que pudesse agir. E não foi diferente aquela noite. Nesse instante, mais um gemido se fez ouvir e seu rosto doce se contorceu de dor. Mais um pesadelo. Ela parecia ser uma espécie de chamariz para eles e mais uma vez algo de ruim se passava pela sua cabeça, atrapalhando-lhe o sono. Hoje, ela não era mais uma garotinha, era uma mulher. Mas sua dor ainda era capaz de me destruir como antes e eu acabei cometendo o mesmo erro de anos atrás. O mesmo erro que cometi durante esses quinze anos em que a acompanhei e a confortei, permitindo aquele toque perigoso que me enchia de culpa e nojo, mas também, me dava um alívio digno de um viciado. Hoje eu já não podia dizer se fazia isso por ela ou por mim.
E funcionou. Ela se acalmou.
— Gabriel — escutei no mesmo instante a voz atrás de mim me chamar e logo me virei como uma criança que é pega diante de uma travessura.
— Eu... — quis explicar, mas não tinha o que dizer. Ela havia visto tudo. Sem ter o que argumentar, limitei-me a olhar para o chão escondendo minhas feições culpadas. Quando finalmente obtive coragem, ergui o rosto e meus olhos se encontraram com os dela. Apesar de minha atitude desprezível, Abigail não parecia irritada. Seus olhos cor de avelã, pelo contrário, me olhavam com pena e compaixão.
Uma mulher de aparência jovem, morena e de longos cabelos cacheados e pretos, estava ali. Aquela aparência juvenil que escondia sua real idade milenar igual a mim. Como eu, ela era um Ceifeiro, ela era um anjo. Atrás dela, asas negras saiam-lhe das costas. Estas também, iguais as minhas.
— Gabriel. — disse com a voz doce, como uma mãe que vê com tristeza o filho ir para a guerra ou fazer qualquer tipo de coisa perigosa. — Você sabe como é perigoso o caminho pelo qual está indo.
É. Eu sabia. E o fato de Abigail ser tão doce comigo, assim como fora tão doce vendo meus erros durante esses quinze anos, me enchia de culpa. Pois eu queria fazer por merecer todo o amor e dedicação que ela me dava.
— Perdão Abigail... — foi tudo o que consegui dizer e sem esperar mais nada, ela veio e me abraçou, deixando meu rosto ser encoberto por seus longos cachos. Apesar de intenso, aquele toque não tinha o calor de Clara, que tanto me viciara. Isso por que Abigail não era humana. Mas aquilo era confortante, e isso já valia.
—Perdão — repeti e ela me calou.
— Vamos — disse simplesmente — Você também deve ter ouvido o Chamado.
É. Eu ouvira. Era hora do trabalho. Então, juntos voamos pelas janelas e desaparecemos na escuridão da noite.



domingo, 25 de abril de 2010

Revista Digital "Fantástica"


Saudações amigos e leitores do por Detrás do Véu. É com muito ânimo e alegria que venho a vocês divulgar um novo projeto que promete ser um prato cheio para os aficionados por literatura fantástica e também uma mão na roda para muitos autores nacionais do gênero.
Estou falando da Revista Digital Fantástica, com estréia prevista para o dia 25 de maio, idealizada e trabalhada pelo blogueiro Luiz Ehlers (Blog Perguntas & Respostas) e os autores Dhyan Shanasa (O Livro de Tunes); Felipe Pierantoni (O Diário Rubro); Leandro Schulai (O Vale dos Anjos); Vincent Law (O Mundo de Avalon).
A Fantástica será uma revista com conteúdo voltado exclusivamente para a literatura Fantástica Nacional, incluindo matérias, resenhas, entrevistas e muito mais atrativos sobre o gênero. Um espaço aonde autores e leitores do Gênero poderão se encontrar e discutir, tendo cada um o seu espaço de atuação.
Para aqueles interessados, é só clicar na imagem que, a partir de hoje, ficará exposta na parte superior do Blog. Espero sinceramente que curtam essa iniciativa e que possamos dar a literatura fantástica nacional o carinho que ela merece.
Boas leituras.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

E-books – Amigos ou Inimigos?

Muito comum é a crítica feita ao império da internet, que consegue disponibilizar produtos variados de forma gratuita. O cinema já foi afetado, a música e, também, a literatura. Sites, blogs, programas de compartilhamento. São muitos os meios hoje da mídia digital de conseguir disponibilizar Livros, CDs, DVDs e outras produções culturais para o grande público. Mas vamos nos ater aqui apenas a literatura.
Atualmente, é muito grande o número de livros digitalizados e também é grande o número de editoras que reclamam desse fato, alegando que a internet estaria roubando seus clientes. Mas até que ponto essa informação seria verdadeira, ou, se for, como agir nesses tempos?
Concordo que o download de livros é muito comum hoje em dia. Eu mesmo já li vários em formato digital. Concordo também que ele oferece uma opção mais barata do que os onerosos originais impressos. Mas será verdade mesmo que os e-books são os grandes vilões e que é por culpa deles a pouca venda de livros no Brasil?
Pensemos um pouco. Acho que todos que gostam de ler tanto quanto eu irão concordar que o livro em papel tem seu valor. Pois sempre é melhor termos o livro impresso em nossas estantes, na nossa mesa de cabeceira, de forma que possamos recorrer a eles nos momentos que quisermos e desfrutar de sua agradável leitura em qualquer lugar, seja na cama, no banco da praça, no chão da sala, ou no banheiro. Enfim, as possibilidades são muitas, e que vão além do ficar sentado na frente do PC, numa cadeira muitas vezes desconfortável e recebendo a luminosidade do monitor que pode prejudicar a visão. Estou, por acaso, sendo exagerado? Acho que não.
Sem dúvida livros impressos são muito mais interessantes. E se eu tivesse condições, com certeza teria que me mudar de casa, pois a minha ficaria congestionada de tantos e tantos livros. Mesmo os que eu li no PC, pois gostaria de tê-los comigo para o caso de ter qualquer vontade súbita de relê-los, eles estarem acessíveis a mim. Mas então, qual seria o problema? Acho que eu já dei a dica, não é mesmo?
Posso parecer apologético em minha frase, porém não é essa a intenção. Mas uma coisa nós temos que concordar: o acesso à cultura melhorou muito por causa da pirataria. Livros, Filmes, Documentários... Tudo está mais fácil e acessível com a internet.
Agora pensem comigo: mas se os livros em papel são muito mais interessantes do que os e-books, os digitais seriam um empecilho a venda de impressos? Eu acho que não. Pelo menos não totalmente. Isso por que, para quem gosta mesmo de ler, o livro digital não é interessante se o outro estiver disponível. Mas os livros estão caros, limitados a uma parcela da população. Muitos não foram traduzidos para o nosso idioma. Assim, caso os queiramos, além de termos de nos virar na língua estrangeira, teremos de pagar preços exorbitantes devido à importação de um exemplar de outro país. Agora a lógica: Se você é uma pessoa que vive de um salário moderado, que tem família e não possui condições de comprar livros, por acaso será a falta de um e-book que vai incentivá-lo a comprar um numa livraria? É claro que não. Se você não tem condições de comprá-lo, não vai comprá-lo independente de ter ou não uma versão pirata. A única diferença será que você não vai lê-lo e pronto.
Agora, se você possui recursos para comprar, será que vai mesmo preferir ler em frente ao computador sujeito a todos os desconfortos que eu já citei, ou vai preferir uma versão mais cômoda? A resposta não é muito difícil.
O que limita o lucro das editoras é o pouco incentivo a leitura, os altos preços dos livros, e não a atuação dos e-books, pois estes, ao contrário, por mais que muitos não queiram ver, estão a incentivá-la. Isso mesmo. Os e-books incentivam a leitura. Pois eles a popularizam.
Aqui, por exemplo, vão alguns motivos do por que eu acho que os e-books ajudam a incentivar a leitura:
1. Tradução de títulos não disponíveis aqui no Brasil: Há muitos livros de autores estrangeiros que ainda não chamaram a atenção de nenhuma editora nacional e por isso não estão disponíveis em Português. É o caso, para citar exemplo meu, do Livro “Fallen” de Lauren Kate e da saga Romances de Clã, que começou a ser traduzido pela editora Devir, mas eles interromperam o processo. Eu não sei inglês e se não fosse pela atuação de tradutores on-line, jamais os poderia ler.
2. Incentivo a tradução: Partindo da observação anterior, a tradução de livros digitais também ajuda a divulgar os livros de um autor em diferentes países e também o trabalho voluntário de leitores que, conhecendo outra língua e querendo praticá-la, ou então, futuros tradutores de livros. È uma forma desses grupos de futuros tradutores, exercerem seu trabalho e ganhar experiência.
3. Divulgação de um trabalho. Por mais que um autor não ganhe lucros monetários com a venda de e-books – lucros esses que ele não ganharia de nenhuma forma, visto que, como eu já disse, quem não tem dinheiro para comprar um livro impresso não vai comprar de modo algum – o autor pode ganhar prestígio e renome o que o ajuda na divulgação de seu trabalho, seja ele aquele que foi digitalizado, seja um próximo. Paulo Coelho mesmo é um exemplo. Pois o autor criou um site – Pirate Coelho – e nele disponibilizou todos os seus livros para livre download, pedindo unicamente para que seus leitores comprem o original impresso se gostarem, ou, se não puderem, apenas passá-lo adiante, como um trabalho social. E o que o autor nos conta é que as vendas de seus livros só aumentaram depois dessa tomada de decisão.
E para encerrar a minha forma de pensar, eu gostaria de chamar a atenção para um exemplo que comprova o que eu estou dizendo. Vamos pensar nas duas maiores sagas dos últimos tempos: “Harry Potter” e “Crepúsculo”. Ambas são sagas mundialmente conhecidas e que geraram para suas autoras grandes quantias de dinheiro. Agora falemos sinceramente: existem livros que foram mais pirateados do que esses dois? E por acaso vemos Stephanie Meyer ou J. K. Rowling chorando miséria de alguma forma? E por acaso a Rocco ou a Intrínseca deixaram de ganhar dinheiro com isso? Lógico que não, mas o que aconteceu foi exatamente o oposto e, seguindo a linha de divulgação, mais e mais pessoas leram essas duas sagas e com isso, mais e mais pessoas comentaram sobre elas e propaganda é a alma do negócio.
O sétimo livro mesmo da Saga Harry Potter chegou ao Brasil semanas antes de estrear nas livrarias e muitas pessoas leram a versão digital, pois não agüentava de ansiedade. E muitas dessas mesmas pessoas que leram, compraram a versão impressa e quando não, puderam dizer, sem sombra de dúvidas: “Ele é foda!” Pronto. Isso já ajudou bastante na divulgação.
Resumindo minha forma de pensar. Acredito que não adianta lutar contra a internet, pois ela veio para ficar. Eu mesmo hoje, se tivesse me batido um arrependimento de ter disponibilizado “O Véu” para download, nada mais poderia fazer, pois seria impossível, na altura do campeonato, retirá-lo, visto os inúmeros blogs e sites que o estão divulgado e também disponibilizando para download... Ah, e só para constar, muito obrigado aos que estão divulgando e disponibilizando meu livro. Continuem divulgando e lendo, pois esse é o mais importante. Rsrs : ).
Enfim, os e-books podem ser amigos ou inimigos. Basta você saber como usá-los