Os livros de Paulo coelho, sempre que lidos, me fornecem coisas para pensar. Não somente com temas ligados a espiritualidade, campo primário de interesse do autor, mas também com relação a sua própria recepção no cenário atual. Não é novidade para ninguém, que Paulo Coelho é um dos autores mais lidos no mundo, talvez um dos poucos que conseguiu colocar a nossa literatura no mapa da produção livresca mundial. Na França, inclusive, existem até mesmo grupos de estudo nas universidades voltados à análise de suas obras. Contudo, apesar de toda essa projeção, no Brasil, insisti-se em se praticar o ostracismo com relação a este letrado.
O livro escolhido, “Verônika decide morrer”, é apenas um dos que poderiam ser citados para fins desta avaliação, contudo, tome-o como escolha por se tratar de minha obra favorita do “mago”. Veronika é uma garota normal do final do séc. XX. Com independência financeira, vida estável e beleza admirável, ela tem todos os elementos necessários para ser chamada de uma mulher feliz. Apesar de solteira, não está sozinha, possuindo amigos e até mesmo amantes quando a vontade chama. Contudo, ela decide morrer.
É nesta escolha que o desenrolar da trama se desenvolve, partindo de sua tentativa frustrada de suicídio com a overdose de remédios para dormir, que não foi capaz de levá-la a morte, mas apenas de danificar seu organismo deixando-a com cinco dias de vida, chegando até sua internação em um centro para loucos, onde o contato com aquela forma de existência paralela lhe faz questionar o mundo em que sempre viveu e as escolhas que sempre tomou.
Mais importante do que a dicotomia entre vontade de morrer contra desejo de viver, acredito que loucura e razão sejam os elementos chave do romance. É através da experiência da personagem principal em Villete, nome do hospício em que se encontra internada, que algumas questões do nosso admirável mundo moderno são postas em xeque, questionando isso que chamados de normalidade, racionalidade em contraste ao mundo da loucura e das emoções.
A pergunta elementar: “quem são os loucos?” A resposta: “não se pode dizer”. Michel Foucalt trouxe também esse tipo de problemática ao apresentar ao mundo sua “História da loucura no ocidente”, onde o tema da loucura e a construção dos hospícios foram utilizados como forma de engrenar todo um jogo de poderes que tentam se estabelecer em nossa sociedade. A razão, nesse sentido, tanto quanto a loucura, foram construções que se fizeram na tentativa de se tentar estabelecer o que é normal do que não é anormal, de separar a ordem do caos, o apolíneo do dionisíaco.
Quantas coisas daquilo que dizemos normal, são na verdade convenções. Atributos de um comum acordo que não necessariamente partem de uma essência humana ou divina, mas sim dos interesses de uma maioria interessada em estabelecer a sua ordem. Quando pensamos desta maneira, podemos então relativizar aquilo que temos naturalizado em nossas cabeças, que condena práticas inofensivas que fogem a nossa maneira de entender o que é certo e errado.
Com esta deixa, entro agora no segundo ponto de minha “Leitura e Reflexão” de hoje. Pois observando meus artigos anteriores, em que trabalhei um romance contemporâneo alemão “O Leitor”, e um clássico da literatura estrangeira, “O Médico e o monstro” de Stevenson, além do excelente personagem do cartunista Ziraldo, “Jeremias o bom”, podemos ver que assim como estes, “Veronika decide morrer” de Paulo Coelho é capaz de gerar um rico material para se pensar, tal como qualquer livro estrangeiro.
Mas ainda assim, se formos perguntar para as pessoas nas ruas o que elas acham de Paulo Coelho, estas ainda vão dizer que se trata de uma literatura popular, de baixa qualidade. Aqueles que acompanham meu blog sabem o que eu penso desse casamento ilusório que insiste em se estabelecer na mente das pessoas, que vincula literatura popular, ou comercial, a livros de baixa qualidade. Uma coisa não implica necessariamente na outra. Aqueles que gostam de criticar o trabalho do mago, costumam apontar seu caráter espiritualista e seu teor de auto-ajuda. Todavia, sempre que me falam disso eu não consigo deixar de pensar no sucesso que livros como “A Cabana”, de William P. Young e até mesmo “O símbolo perdido” de Dan Brown (que por incrível que pareça também traz muitos teores dessas naturezas), fizeram no Brasil.
Acho que não mistério algum que eu curto sim este autor. Gosto de muitos trabalhos dele assim como também desgosto de outros. Mas não exatamente por isto que gosto de bater nesta tecla a respeito da aceitação de sua obra, mas sim porque realmente me incomoda esse destrato para com a nossa produção literária. Esse nosso “complexo de vira lata” que despreza tudo aquilo que é brasileiro em favor do internacional. É claro que sei que posso estar sendo injusto, pois tenho na minha cabeça muito claramente, que se Paulo Coelho fosse, ao invés de escritor, um jogador de futebol, a coisa seria bem diferente.
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domingo, 10 de julho de 2011
quarta-feira, 29 de junho de 2011
O ato de se conhecer através do outro: a literatura e seu poder de criar realidades.
A literatura é sem dúvidas uma das experiências mais intensas de desestabilização da realidade. Através da leitura de um bom livro, somos capazes de nos deslocar de nós mesmos e sermos apresentados a um mundo completamente novo, cheio de novas possibilidades e impressões. No momento em que lemos, não somos mais nós mesmos. Pois um bom autor consegue fazer com que entremos na personalidade de sua personagem, em seu mundo, e nisto nos desprendemos de nossos próprios valores e ideais e passamos a compartilhar da visão de mundo do eu lírico.
Não há duvidas para mim que nenhuma pessoa seja capaz de sair imune de tal experiência. Pois a partir do momento em que somos realmente capazes de nos colocar no lugar de outro, mesmo que fictício, somos de tal forma confrontados com suas ânsias, dúvidas e perspectivas que dificilmente passaremos a ver a nós mesmos e nosso mundo como antes. Nesse sentido, a boa literatura não só nos eleva e nos dá prazer, mas em alguma medida nos transforma e nos faz ser melhores do que antes. Isso porque, quando estamos na pele de outra pessoa, não apenas somos capazes de conhecer melhor o outro, mas também conhecer um pouco mais de nós mesmos.
É através da relação que se estabelece entre o “eu”, leitor, e o “outro”, personagem, que podemos nos identificar ou não. E não é só a semelhança que encontramos que nos permite vermos como somos, mas, acima de tudo, é também a partir de nossas diferenças que descobrimos coisas de nós mesmo que nem sequer imaginávamos. E vemos que às vezes somos capazes de pensar, sentir e expressar emoções que na vida real julgaríamos impossíveis. Sei que estou sendo vago e confuso, por isso procurarei dar exemplos como forma de exemplificar melhor.
Como explicamos, por exemplo, alguém que nunca viveu um grande amor, conseguir chorar lento “Um amor para recordar”, de Nicolas Spark? Ou então um homem homossexual ser capaz de se apaixonar por personagens como Hermione, de “Harry Potter”, Capitu de “Dom Casmurro”, assim como um homem heterossexual sentir certa atração por personagens vigorosos como o Pierre de “De corpo e alma” (É isso aí, estou fazendo auto propaganda. risos) ou (que Deus me perdoe) o Edward de “Crepúsculo”? Ou ainda, para usar de um exemplo mais obscuro, alguém absolutamente normal e centrado, poder rir junto de vilões como o Coringa de “Batman”? Não necessariamente sentimos empatia apenas por aqueles que reconhecemos como sendo iguais a nós. Muitas vezes, somos capazes de compreender aqueles que são completamente diferentes, e torcer por eles através da leitura de um bom romance.
Não precisamos acreditar em vampiros para torcermos pelos amores impossíveis que permeiam nossa literatura atual, assim como não necessitamos de fé em bruxos e anjos para nos sentirmos eletrizados com as aventuras fantásticas. Pois se a literatura fosse apenas uma copiadora da realidade, logo a fantasia não teria a aceitação que ela tem hoje. Conseguimos assim compreender nós mesmos a partir do momento em que nos colocamos no ligar de outro, e a partir daí sabemos que somos capazes de sentir coisas que até então não julgávamos como parte de nossa natureza.
Pode parecer algo um tanto quanto romântico de minha interpretação, mas olhando por este escopo, chego até mesmo acreditar que exista alguma forma de essência que liga a nós como humanos. Com as quais, pessoas opostas em termos de credo, orientação sexual, etnia e outros desses divisores de águas que insistem em nos separar, podem se encontrar e partilhar da mesma vivência. E só por um momento, entender como é estar totalmente na pele de outro. E a arte nos proporciona isso, de alguma forma.
A cópia da realidade, neste caso, não tem como função espelhar o mundo do leitor, mas criar na ficção, signos que sejam capazes de estabelecer esse elo empático entre realidade e ficção, de forma a proporcionar ao leitor a possibilidade de entrar de cabeça do mundo proposto, de viver todas as alegrias e tristezas dos personagens, e ter a chance de voltar ao seu mundo sabendo que viveu uma experiência completamente nova da sua, que a partir daquele momento, você é diferente do que foi ontem, pois agregou a si, conhecimentos e valores que ao longo da experiência diária, jamais os teria, pois estes só podem ser acessados a partir do momento em que você se arriscou a ser outra pessoa.
sábado, 18 de junho de 2011
Resenha: O castelo das águias, de Ana Lúcia Merege
O livro escolhido de hoje, é o recém lançado romance de Ana Lúcia Merege, O castelo das águias, publicado pela editora Draco.
Sionopse:
O Castelo das Águias, romance fantástico de Ana Lúcia Merege, é um lugar especial. Localizado nas Terras Férteis de Athelgard, região habitada por homens e elfos, abriga uma surpreendente Escola de Magia, onde os aprendizes devem se iniciar nas artes dos bardos e dos saltimbancos antes de qualquer encanto ou ritual. Apesar de sua juventude, Anna de Bryke aceita o desafio de se tornar a nova Mestra de Sagas do Castelo. Aprende os princípios da Magia da Forma e do Pensamento e tem a oportunidade de conhecer pessoas como o idealizador da Escola, Mestre Camdell; Urien, o professor de Música; Lara, uma maga frágil e enigmática, e o austero Kieran de Scyllix, o guardião das águias que mantêm um forte elo místico com os moradores do Castelo. Enquanto se habitua à nova vida e descobre em Kieran um poço de sentimentos confusos e turbulentos, uma exigência do Conselho de Guerra das Terras Férteis põe em risco a vida e a liberdade das águias Com o apoio de Kieran, Anna lutará para preservá-las,desvendando uma trama de conspiração e segredos que envolvem importantes magos do Castelo.
Resenha:
O romance de Ana Lúcia Merege traz um enredo que muito pode se confundir com o badalado Harry Potter, por girar em torno de uma escola de magia onde alunos vivem em regime de internato e os professores usam túnicas das mais diversas cores. Contudo, mais do que uma projeção abrasileirada da história de Rowling, O castelo das águias trás coisas originais, com personagens carregados de traços latinos, um temática que trabalha política e meio ambiente, e linguagem sóbria.
Ao chamar a atenção para estes detalhes, quero dizer que, ao contrário de uma tendência natural que observo na literatura nacional hoje, onde os personagens parecem viver os dilemas, possuir as formas de pensamento, e viver um contexto, que muito se assemelham a nossos vizinhos estadunidenses e europeus, o Castelo das águias abriga personagens bem brasileiros, em seus modos de pensar, agir e sentir.
Em seu enredo, apesar de trazer questões que podem ser vistas como batidas, como a magia em si, ou uma história de amor, este romance também preocupasse em trabalhar dimensões ambientais, com a questão das águias do reino que são usadas para fins perversos, mas também reflexões acerca do próprio papel da linguagem no mundo, como ela nos forma, nos liga e como elas possuem um poder próprio, que se manifesta na forma do discurso, da dramatização e da poesia.
Como último ponto, gosto de chamar a atenção para a narrativa do livro. Ao contrário de mim, que gosto de uma fala mais intensa e dramática, Ana Merege parece preferir o estilo mais sóbrio e centrado. Sua história corre naturalmente, sem grandes exaltações ou até exageros da fala de sua narradora, Anna de Byrke. Talvez isso acabe por retirar de determinadas cenas a intensidade que precise, mas ganha em termos de coesão com a psique de sua personagem principal, narradora da história.
Para concluir, gostaria de destacar que o romance é uma boa alternativa para uma leitura agradável e interessante, que vale a pena ser apreciado. Um mundo bastante original que mescla um enredo simples e reflexão rebuscada.
Para saber mais da autora e seus trabalhos, acesse seu endereço clicando aqui.
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