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domingo, 18 de março de 2012

Leitura e reflexão – J. T. Um conto de fadas punk


Sei que normalmente dedico este blog, e em especial esta coluna, a falar acerca de livros, contudo, peças de teatro também são gêneros literários, tão antigos quanto à poesia e as crônicas, e mais até que os romances. E apesar de eu não ter lido a história “J. T. um conto de fadas punk”, tive a oportunidade de assisti-la no Centro Cultural Banco do Brasil esta semana.

O texto de Luciana Pessanha narra a “história real” de Jeremy “Terminator” Leroy, um famoso escritor estadunidense que, ao escrever duas autobiografias – “Maldito Coração” e “Sara” - contanto os casos de abuso que sofreu na infância, a adolescência nas ruas onde se prostituía com caminhoneiros e os problemas que teve com drogas e álcool, acaba por se tornar uma celebridade instantânea, cercada de fãs e respeitada por artistas das mais diversas áreas. Com uma história tão obscura e uma coragem absoluta em retratá-la em páginas, J. T. Leroy ganha o público. O problema: a biografia é falsa. Leroy não existe.

 Com fortes cenas de humor e drama, mescladas de forma que espectador vive um intenso conflito entre decidir se deve rir ou se emocionar, a peça é um excelente programa para aqueles que curtem uma história bem feita, com bons atores e cenas que nos obrigam a pensar. E este último requisito é justamente o objetivo desta coluna, por isso o lugar de destaque que coloco aqui para “J. T. Um conto de fadas punk”.

A ação humana é capaz de mudar o mundo, de marcar as pessoas de tal modo que sua memória permanece viva até os dias vindouros. Isabel assinou a Lei Áurea e até hoje é considerada o símbolo da redenção; há mais de vinte anos, um jovem chinês se transformou no ícone da luta pelos direitos humanos ao se lançar em frente aos tanques de guerra do Partido Comunista Chinês para protestar contra o regime opressor instalado em seu país. Ações humanas, que são interpretadas hoje como valorosas e que nos motivam a tomar nossas próprias escolhas.

Até então estamos falando apenas de personagens de carne e osso, mas e se estes não tiverem? E se existirem apenas em papel e tinta? Seriam suas existências desprezadas apenas por isso?

Mesmo na história temos personagens cuja existência ainda não pôde ser provada. Rei Arthur, por exemplo, durante séculos povoa o imaginário ocidental sem que ainda se tenha encontrado provas de sua real existência. Contudo, o fato de não se poder atribuir total veracidade a sua existência não o impediu de durante anos servir de inspiração para histórias e movimentos de nacionalidade do povo inglês. E mesmo personagens que foram criados com intuito totalmente ficcional não podem ser privados de sua importância para criar o mundo que temos hoje. Como a Capitu de Machado de Assis, cujo caráter ambíguo e os fascinantes olhos de ressaca serviram de inspiração não apenas para outras histórias ficcionais como também para se pensar em questões importantes como o papel da mulher em nossa sociedade e a instituição do casamento na mesma. Ou, para usar um exemplo bem contemporâneo, posso citar o nosso cavalheiro das trevas, Batman, que até hoje é talvez aquele super herói que mais nos obriga a pensar nesses papeis de mocinho e vilão em nosso mundo. Em como um homem a margem da sociedade pode, na verdade, ser a salvação em uma sociedade corrupta como a nossa.

O caráter imaginativo nunca impediu a ficção de conseguir atingir o nosso mundo. Os fenômenos da fantasia são assim, recheados de coisas que nos obrigam, mesmo sabendo de seu cunho mentiroso, a pensar acerca da possibilidade de sua existência. Locais como fonte da juventude, o Shangri-la, Atlântida. Pessoas como Robin Wood e a idéia de um herói ladrão. Romeu e Julieta e o desejo do amor impossível. Dorian Gray e a busca humana pelo prazer e juventude. Enfim, a literatura está repleta de personagens fictícios cuja sua origem fantástica não os impediu de marcarem nossa realidade.

E neste contexto, J. T. Leroy entra como um bom pretexto para se falar nesse tema. É por isso que eu recomendo àqueles que possam, de ir prestigiar. Vale à pena.



Informações:

JT - Um Conto de Fadas Punk

16 de Março a 27 de Maio

Local: Teatro I | CCBB RJ - Rua Primeiro de Março, 66 - Centro

Horário: De quarta a domingo, às 19h

Texto: Luciana Pessanha.

Direção: Paulo José.

Elenco: Natália Lage, Débora Duboc, Nina Morena, Hossen Minussi e Roberto Souza.

Duração: 90 min.

Classificação: 16 anos

Telefone: (21) 3808-2020

Ingressos: R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia entrada)



Bom espetáculo

quinta-feira, 8 de março de 2012

Moda e inovação


Moda é uma palavra que tende a ser um divisor de águas, pois ela delimita claramente a fronteira entre aqueles que querem ser integrados e aqueles que acreditam que ser como os outros é a pior coisa possível. Muitos desejam estar na moda, gostam de se sentirem atualizados, fazer parte de um grande grupo, perceber-se integrados ao mundo. Outros, em contrapartida, preferem seguir a linha underground, estarem constantemente contra a maré, testarem suas individualidades e serem diferentes a cada dia.

Na literatura, isso não acontece de forma diferente. Temos grandes ciclos de temáticas que povoam os Best Sellers das prateleiras. Tivemos os ciclos das teorias de conspiração, com o apogeu de O Código da Vince. Observamos as fases sobrenaturais, dos bruxos, dos vampiros, dos anjos. E em todas elas, existiram aqueles que abraçavam a causa de forma apaixonada, e aqueles que detestavam as tendências de maneira intensa. Até aí, tudo normal.

É comum que haja conflitos entre essas duas forças, pois aqueles que desejam defender seus gostos farão de tudo para firmar suas escolhas e acusar aqueles de que delas não partilham de algo. Os que estão na moda chamarão os undergrounds de invejosos, arrogantes, enquanto os que estão à margem das modas vão apontar para os outros e dizer que não passam de seres alienados, sem personalidade.

Mas então, você autor, como agir dentro dessa sinuca de bico? O terreno da moda é sempre perigoso, pois como autor, seguir uma tendência já consolidada pode dar muito certo, como também acabar tudo errado. Pois se eu escrevo hoje um livro cuja temática já está passada, corro o risco de, além de atrair os comentários maldosos dos undergrounds que vão me chamar de vendido, também posso acabar despertando o desgosto daqueles que estão inclusos na moda, isso porque estes, normalmente engajados no fã clube de algum autor, me chamarão de plagiador e sem criatividade.

Eh meus amigos, escrever não é fácil, ainda mais em um mundo em que a leitura está tão disseminada. Pois basicamente chegamos a um ponto em que inovar totalmente está fora de cogitação. Não importa a idéia mirabolante que tenhamos, será basicamente impossível não encontrar, em qualquer parte do mundo, alguém que já não tenha pensado naquilo antes de nós. Enfim, se quisermos ser completamente inovadores naquilo em que propomos escrever, temos muito trabalho a fazer.

Mas também, deixando o pessimismo de lado, o fato de uma temática já estar batida não significa que você não possa inová-la ainda assim. Trazer algum ponto original que faça toda a diferença na análise do todo. Acontece que hoje em dia todos aqueles que querem se aventurar por uma nova escrita esbarram no medo de ter a sua obra confundida com a de outro autor. O que eu tenho a dizer simplesmente é: relaxe, pois ela vai ser confundida mesmo. (risos)


Não importa o quanto você inove ou tente trabalhar um assunto por uma temática mirabolante. Sempre haverão aqueles pontos em que seu trabalho irá ao encontro de outro já produzido, seja de forma clara ou numa simples menção. E neste momento, pode apostar que existirá aquela pessoa que apontará essa característica, seja para louvar, seja para ridicularizar.

Neste sentido, o que quero dizer é que não é apenas estando no campo da moda que sua obra corre o risco de indicar referências a outros trabalhos. Isso é algo já preso na vida, pois por mais que você não tenha contato com a obra de referido autor, de alguma maneira você faz parte da mesma cultura que ele, esse autor compõe, em maior ou menor grau, a tradição na qual você foi criado. E assim, independente de você tê-lo ou não lido, acabará por absorver parte de suas idéias na vida, pois suas idéias influenciaram uma geração que, por vias indiretas, passam esse aprendizado para você.

Hoje o que temos é que os ciclos de moda estão muito intensos. Temos os grandes temas que viram febre e isso torna essa relação de inspiração e aprendizagem muito clara. E logicamente, também muito irritante. É normal que você, ao não gostar de determinada tendência, e vendo esta se espalhando a sua volta e invadindo seu espaço privativo, acabe por odiá-la. Mas isso não deve obscurecer a idéia de que o ato de copiar é algo intrínseco ao ser humano. Eu posso não me sentir inspirado pelos autores contemporâneos, que são os mais vendidos de minha geração, mas é claro que irá haver aquele autor, mesmo que distante e esquecido no tempo, que me deixará sua marca e que esta aparecerá em minha escrita.

Inspiração não é ruim, pois ela não impossibilita a originalidade. Porque, a menos que copiemos cada linha de um trabalho já escrito, o nosso livro terá aquela pitada nossa, aquele detalhe que é nosso e exclusivamente nosso. E nessa mistura de algo copiado com um toque de acréscimo estará um trabalho original. Volto a dizer, hoje vivemos o apogeu das grandes temáticas literárias, mas elas são apenas a intensidade máxima daquilo que já é comum na literatura. A moda é simplesmente o ponto de encontro de diferentes autores que partilham de um gosto comum e que acabam por chamar demasiada atenção em um mundo governado pela mídia de massa. E é claro que terão aqueles que odiarão e aqueles que amarão estas modas. Tudo isso porque faz parte também do ser humano o gosto pelo conflito.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Conto: Personagem

Salve salve amigos.
Estava remechendo meu computador e acabei encontrando este texto que escrevi já faz algum tempo. Trata-se de um conto produzido para participar de uma antologia, contudo, como o mesmo não foi aceito e eu tenho certo pavor de trabalhos que são escritos porém jamais encontram um leitor para si - aqueles que me conhecem sabe do que estou falando (risos) -, decidi por disponibilizá-lo aqui para vocês.
Espero que gostem.
Abraços

Willian Nascimento

Personagem


Victória Martins era o tipo de mulher que toda a garota queria ser. Rica, bonita, independente e famosa, era daquelas capazes de ter o homem que queria, além de ser invejada por nove a cada dez pessoas no país inteiro. Mas nenhuma pessoa no mundo sentia tanta inveja de Victória Martins quanto à própria.
Autora de livros de auto-ajuda, Victória era o arauto de esperança para milhares de mulheres que compravam avidamente seus livros. Sendo umas das maiores imagens do mundo feminino, transparecia uma imagem quase inalcançável para suas leitoras, pregando como uma mulher do séc. XXI deveria se portar.

“A mulher moderna tem de ser, antes de qualquer coisa, segura de si”

Escrevia em seu notebook, estando sentada confortavelmente na cama de seu apartamento em Ipanema. Victória vestia pijamas e roupão, e mantinha seus cabelos despenteados e rosto sem maquiagem. Uma regalia que se permitia sempre que estava dentro de sua residência, onde as câmeras não a alcançavam. Onde ela podia ser mais ela mesma.

“Após séculos vivendo sob as regras de um mundo governado por homens, aprendemos finalmente como inverter o jogo, e hoje, cada uma de nós é capaz de guiar seu destino, não dependendo mais desses macacos portadores de falo para termos alguma razão para viver.”

Victória estalou os dedos, espreguiçando-se longamente enquanto mexia a cabeça de um lado para o outro para relaxar os músculos do pescoço. Quando se virou para a direita, permitiu a si mesma uma breve olhada ao retrato que repousava sobre mesa de cabeceira. Nele, a foto de um homem de meia idade, bem conservado, sorria para ele.
Espero que esteja se divertindo com aquela vadia, querido. Pensou com ironia antes de voltar a escrever.

“Depois de dois anos divorciada, aprendi que somos mais do que mães, esposas, companheiras. Nós somos nós mesmas. Somos mulheres, somos profissionais, somos donas de nossos próprios narizes. Confesso que já chorei muito por causa de meu ex-marido, mas hoje percebo que eu chorava na verdade por mim mesma. Pela mulher que deixei para trás por anos, enquanto fingia ser somente a senhora Braga, que vivia em função de esperar de braços abertos o marido quando este chegava do trabalho, que era submissa, que sempre concordava com tudo que seu amado dizia.”

Enquanto digitava freneticamente, percebeu que no canto de sua tela um alerta de mensagem em sua caixa de e-mails piscava. Curiosa, pressionou Alt + Tab em seu teclado e a tela de seu e-mail se abriu diante de si. A remetente da mensagem era Jéssica Cortes, e tal nome fez um sopro de impaciência esvair-se dos pulmões da escritora. Jéssica era uma menina um tanto quanto tola, que há uns dois dias havia contatado Victória para pedir conselhos quanto a sua relação conjugal. Victória não era do tipo que atendia uma por uma de suas fãs, mas a pobre menina despertou seu carinho e decidiu responder a um de seus e-mails só para que ela pudesse sentir-se mais importante.
Contudo, naquelas poucas 48 horas em que a relação se desenvolveu, sua paciência já foi levada ao limite. Decidiu então que este seria o último contato respondido.

Jéssica Cortes disse:
Querida Victória. Desculpe por mais uma vez vir lhe importunar, mas desta vez venho lhe dizer que não corro atrás de seu tempo com mais dos meus problemas, mas sim lhe escrevo para agradecer a toda a ajuda que me ministrou.
Graças ao gelo que dei em Rodolfo, seguindo um conselho seu, ele agora parece se interessar por mim novamente. E com isso, poderei reacender a chama de nosso casamento, que ainda é tão jovem. Completaremos apenas dois anos na semana que vem.
Bem, não vou me demorar mais. Só vim agradecer.
Obrigado.

Victória torceu o nariz ao ler a mensagem e decidiu que não poderia deixar aquela pobre alma fazer a besteira que planejava. Rindo da imbecilidade de sua correspondente, digitou uma curta mensagem:

Victória Martins disse:
Cara Jéssica. Percebo que não deu ouvidos a tudo o que eu lhe disse outrora, não é mesmo? Quando pedi para que se afastasse de seu marido, não me referi a dar um simples “gelo” nele, mas sim que se libertasse dessa relação doentia. Não percebe que ele não lhe ama mais? Que não quer estar contigo? Se ele voltou agora é apenas porque sentiu saudades de visitar suas pernas. Não dê isso a ele. Só espero que me escute desta vez.
Com carinho,
Victória

Não precisou esperar muito para receber:

Jéssica Cortes disse:
Bem... Acho que vou seguir seu conselho então.

Com um sorriso enviesado, começou a digitar:

Victória Martins disse:
Acredito que seja o melhor. Sei que é difícil, mas

Mas o telefone tocou, forçando-a a parar de escrever para atender:
— Alô.
— Querida, tenho uma ótima notícia – era a voz de Kátia, sua editora. — Acabo de falar com o Andréias, e ele me confirmou que hoje à noite que você é uma das convidadas de honra da festa de lançamento da nova coleção Lumus. E com um pouco de sorte, será sua próxima garota propaganda.
— O que? — deixando o notebook de lado, ela se inclinou para frente como se pudesse tocar sua interlocutora e beijá-la — Sua filha da mãe, você...
— Exatamente — completou Kátia, cheia de si — Eu consegui convencer os responsáveis pelo Marketing da Lumus de que você é perfeita para liderar a nova campanha.
— Oh meu Deus! — levou a mão à boca — Oh meu Deus, oh meu Deus! Não acredito...  — e gritou.
Kátia riu do outro lado da linha.
— Eu sei — concordou — Sei como deve se sentir.
— Eu te amo! — exclamou.
— Também sei disso — respondeu sem nenhuma modéstia. — Mas devo lembrá-la de que a festa de lançamento da nova coleção é hoje à noite. Então, esteja pronta às dez. Um carro irá aí te buscar.
— Deixe comigo! — E pulou da cama, pondo-se de pé. — Estarei pronta.
— Boa sorte — desejou.
— Obrigado — e desligou.
Ignorando completamente o computador pessoal, correu para o banheiro onde parou de frente ao espelho para ver sua própria face de alegria. Victória não era capaz de segurar a euforia que avassalava seu coração. Nem podia crer que seria a garota propaganda da Lumus, uma das maiores empresas de cosméticos e moda do país. Sem dúvidas que seu nome seria perfeito para ser vinculado à nova linha, que era voltada para mulheres independentes e bem sucedidas.
— Você é perfeita para a linha, Victória. — falou para si mesma diante do espelho.
Sorriu alegremente antes de abrir o armário atrás do espelho para pegar os sais de banho. Naquela noite, teria que está bem perfumada. Contudo, quando tocou o pequeno frasco rosa, uma voz vinda não se sabe de onde cortou o silêncio do banheiro.
— Você? Ou está se referindo a mim?
Victória parou num instante, olhando em volta assustada a procura da estranha voz.
Nada encontrou.
— Afinal, Victória Martins é a mulher perfeita para a campanha. E você não é Victória Martins — continuou a voz.
Desta vez, não havia nenhuma chance de Victória ter ouvido coisas. Então, a simples curiosidade começou a ser substituída pelo medo atenuante, conforme a mulher revirava os olhos e vistoriava o banheiro sem coragem de mexer o rosto.
Nada.
— Quem está aí? — decidiu por fim arriscar.
Nada.
Desistindo de esperar pela resposta e enchendo novamente o coração de esperanças, Victória decidiu fechar o armário do banheiro e retomar seus afazeres, julgando não ter passado de alucinação a voz ouvida. Mas o susto só foi atenuado quando ao fechar a porta e dar de cara com o espelho, encontrou diante de si uma versão sua estampada com um sorriso frio e estudado.
Um grito quase irrompeu de seus pulmões ao dar de frente com aquela imagem sua, mas ela foi capaz de segurar o brado com a mão, que tampou toda a boca quase a sufocando com seu aperto. A mulher diante de si sorriu de forma mais insinuante, deixando aparecer sua fileira de dentes bem feitos. Victória encarou a si mesma, assustada. O que estava acontecendo?
— Victória Martins... — A imagem estalou a língua — Victória Martins, grande escritora, Best Seller nacional. Mulher independente... — e revirou os olhos — Hunf! —Você está me descrevendo querida, e não você.
— Quem é você? — conseguiu enfim perguntar, mesmo que de forma rápida e nervosa.
— Sou Victória Martins — respondeu o reflexo.
— Não seja tola — rebateu, mas logo se arrependendo devido ao medo que sentia. — Eu sou Vitória Martins! — falou num tom um tanto mais contido.
— Pode até ser... — cogitou — A Victória Martins, filha de Yolanda e Bernardo Martins. A Victória Martins, autora de sucesso. Até a Victória Martins, ex-mulher de Otávio Braga. Mas não a Victória Martins de “Segredos do Sucesso”, ou de “Como viver bem estando solteira”. Esta sou eu.
— Do que você está falando? — quis saber.
— Simples. Do fato de você estar me usando para conseguir vender as porcarias de seus livros. De estar me usando para ser a garota propaganda da marca Lumus. Cansei de ser usada por você. Cansei de sua inveja de mim.
— Você está louca — retrucou Victória — Você não passa de uma alucinação de minha cabeça.
— Está enganada mais uma vez — respondeu — Eu sou mais. Sou mais do que uma ilusão. Sou mais do que devaneios de uma mente insana. Eu sou a criação de seus desejos, de sua fome, de sua inveja. Você inveja as mulheres comprometidas, Victória. Inveja aquelas que se realizam na vida ao lado do homem dos sonhos. Você as inveja, por isso vive pregando que as mulheres têm de ser solteiras, pois não consegue aceitar o fato de não ter conseguido manter um homem entre as suas pernas.
— Eu não preciso ouvir isso — e se virou, para sair do banheiro, mas uma força invisível a segurou na posição em que estava, mantendo-a diante do espelho e de seu reflexo distorcido.
— Fique! — ordenou a imagem refletida — Fique e ouça a verdade.
— Você não sabe de nada — Victória acusou.
— Se engana — rebateu — Desde que você me criou, ao escrever “Segredos do Sucesso”, que eu venho lhe observando. Que venho lhe estudando e comprovando o quão patética você é. Achou mesmo que poderia esconder isso de todos?
— Quem é você? — insistiu.
— Eu sou Victória Martins, a personagem principal de seus livros. A mulher que você criou para seguir e copiar. Para ser sua imagem veiculada na mídia. Eu sou a coragem que você não tem, a independência que lhe falta, e a realização que você deseja. Eu sou aquela que você criou para se vingar daquelas que sente inveja.
— Eu não sinto inveja de ninguém — contestou nervosa.
— Sente sim. — continuou a imagem — Sente inveja de cada mulher, seja na vida real ou na ficção, que se realizou matrimonialmente. Sente inveja de sua mãe, cujo casamento sobreviveu aos vários anos juntos. Sente inveja de seus amigos que se casaram e formaram família, enquanto você se divorciou em menos de dois anos de casada. E você sente inveja de Miranda, a ex amante e atual noiva de Otávio. Pois ela está com o homem que deveria ser seu.
— Cale a boca. — ordenou com a voz trêmula e baixa.
— Como toda a invejosa — continuou, ignorando a ordem recebida — você tende a desdenhar do que não vai ter. Prega que o caminho correto é o inverso, apenas porque você mesma não foi capaz de seguir o mesmo que os demais. Como um corredor que está em último lugar e de repente muda sua rota, passando a correr no sentido oposto só para ter a ilusão de que lidera a corrida.
— Calada. — falou com mais convicção, apesar de a voz ainda estar fraca.
— Então você criou uma imagem de você que queria que existisse. Então me criou: uma Victória Martins muito mais forte do que você jamais foi e como nunca será.
— Chega! — bradou.
— Mas nem sequer me criando você conseguiu paz. — sibilou — Pois agora, além de invejar todas as mulheres realizadas no amor, você inveja a mim. A mim que fui criada contra a vontade, que vim para ser a mulher que você deseja ser, mas não consegue. A mim, que não sou sequer a sombra da derrota que você é...
— CHEGA!
E neste momento, toda a raiva de Victória foi direcionada contra sua atacante. E erguendo o punho, desferiu um pesado golpe contra o vidro, arrebentando sua imagem refletida em mil pedaços. Pequenos cacos caíram, tintilando ao tocarem o chão.  E com eles, grossas gotas de sangue tingiram o piso branco de rubro.
— Chega... — engasgou-se chorosa.
— Não acabou... — ouviu dizer, mas desta vez o som não parecia vir do nada como anteriormente, mas sim de um ponto específico.
Atrás dela.
Virando-se em um salto, deu de frente para com uma imagem exata dela mesma, com as mesmas roupas e as mesmas feições. Tentou andar para trás, mas a pia do banheiro a impediu de se afastar. Tateou o lugar atrás de algo, até encontrar um pedaço de vidro grande o suficiente para lhe servir de faca.
— Afaste-se de mim — ameaçou, erguendo o vidro entre seus dedos.
— Quanto ódio — constatou com pena. — Tanto ódio contra as mulheres felizes, contra os homens, contra mim... — pausou — mas a única pessoa que de fato desperta seu ódio é aquela que você tentou encontrar olhando para o espelho, mas não encontrou...
A imagem deu um passo à frente, pegando a mão instável de Victória que segurava a arma.
— Victória, Victória... — e levou a mão da mulher para perto do próprio pescoço — Você não quer me matar — e deixou a ponta do vidro tocar seu sua pele. — Pois eu sou sua maior criação. E por maior que seja sua inveja, você, no fundo, me ama. Me ama porque nunca será como eu. Me ama porque eu sou aquela que pode lhe dar alguma esperança nessa sua vida medíocre. E me ama porque sou eu quem vou conseguir o contrato com a Lumus no nosso nome.
E sem deixar tempo para que Victória pudesse responder, largou a mão dela e caminhou até a porta, onde abriu para sair. Entretanto, antes de abandonar do cômodo, deixou sua voz transmitir uma última mensagem.
— Talvez seja hora de ser você mesma... E acertar as contas com quem e a responsável pelo seu infortúnio. É só uma dica — Completou, fitando-a brincalhona.
E saiu. Ao chegar ao lado de fora, parou encostada na parede, esperando apenas ouvir o som de carne sendo cortada e de um corpo pesado caindo no chão. Quando finalmente aconteceu, começou a caminhar em direção a saída, enquanto suas roupas mudavam magicamente. Deixando o moletom desaparecer e dar lugar a um longo vestido roxo. Seus cabelos desgrenhados agora se ajeitavam em um belo coque, e sua pele era coberta por uma maquiagem vinda do nada.
Parou diante do espelho e se contemplou por algum tempo. Dizendo em fim:
— Agora sim, você é Victória Martins.