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quinta-feira, 27 de maio de 2010

Um toque de brasilidade


Essa tecla a qual bato agora já foi tema de meu artigo anterior, mas acho interessante abrir uma nova linha de discussão baseado num levantamento feito pela Mayre. Pois mais do que uma influência visível através do consumo de produtos estrangeiros, o que eu noto é que essa influência estrangeira em nosso país a travessou fundo a esfera econômica e nos atinge no cotidiano. Ela está incrustada em nossa sociedade: na forma como falamos, em como vemos o mundo e etc.
Mas qual o problema disso? Bem, dependendo da pessoa podemos citar vários, mas esse não é o objetivo desse artigo e sim, observar como essa influência não só está presente no que compramos, como também em como nos portamos e no que produzimos.
Sobre o dia a dia, temos inúmeros exemplos, desde nosso linguajar que adotou inúmeras expressões em inglês como OK, Anyway, but, what, e outras como nas lojas e em nomes de produtos brasileiros. E eu não me refiro aqui às empresas multinacionais, pois a estas sim é normal venham com o nome de seu país de origem, mas sim das nacionais, que adotam essa nomenclatura como forma de se tornarem mais chiques. A academia é um bom ligar aonde se observar isso, pois só perto da minha casa eu já vi nomes como Body Up, Body shape, Body fit, e outras. E a coisa vai ainda longe.
Mas agora vamos partir para a produção literária e, em especial, a fantasia, que são os temas centrais que criaram esse blog. A idéia de escrever esse artigo já me ocorreu há muito tempo ao analisar outras obras de iniciantes como eu. Uma vez, li uma história ambientada no Rio de Janeiro e me assustei com os nomes encontrados: Noah, Billy, Zac, Emily e outros mais. (P.S. Eu não me lembro exatamente dos nomes, mas a coisa foi por aí. srrs)
Definitivamente, a cultura estrangeira está impregnada em nossas veias, pois até quando pensamos em nomes para por em nossos personagens somos tentados a puxar um timbre estrangeiro de modo a dar um grau de requinte a ele. Na verdade, não só no nome dos personagens, até nos nomes dos nossos filhos (Afinal, eu me chamo Willian. Rsrsrs^^) Engraçado isso, não acham? Eu mesmo, olhando nos últimos dias meus velhos cadernos de RPG, observei os nomes antigos de meus personagens e me impressionei com tantos Brians, Tons, Willys que vi ali. Mas na época aquilo era tão normal para mim. Era como se os nomes como Carlos, Vitor, Felipe não fossem tão atraentes ou tivessem algo de pouco nobre. Hoje eu rio muito disso.
Outra questão também bastante legal — e essa é um tanto polêmica, pois vai de encontro aos meus próprios gostos — é a questão da nossa mitologia importada. Pois cada vez é maior os mitos estrangeiros em nosso dia a dia, em nosso imaginário. Mitos esses importados, mas que já fazem parte de nossa vida. Quase podemos nos identificar com ele, sentindo-os como pertencentes de nossa nação.
Eu já disse uma vez — se não me engano, no meu primeiro artigo postado — que muito além de historietas ou mentirinhas contadas para as crianças, os mitos são formas de ver o mundo. Foi como forma dos antigos interpretarem a realidade que eles criaram os mitos. Uma forma de dar sentido, de gerenciar o caos e também, por que não, para dar identidade. Sim. Mitos criam identidade, pois é através da tradição que deles nasce que um povo se reconhece como tal. Mas o cômico nessa história toda é que hoje em dia, esses mitos ultrapassam as fronteiras de um povo e hoje são comunitários, divididos na nossa grande nação global.
E nesse sentido eu falo mesmo de bruxas, vampiros, fadas e mais e mais. (Hehe. Bem, acho que agora vocês entenderam por que eu disse que o tema é polêmico. Pois eu também amo esses mitos e eles já estão tão presentes na nossa sociedade é que difícil os vermos como algo pertencente à mitologia de outros.)
Para encerrar, o que irei dividir agora é um projeto futuro meu, mas que pode ser abordado por qualquer um interessado no assunto: o folclore brasileiro. Eu sinceramente estou muito interessado em escrever alguma fantasia que gire por esse tema. E para isso pretendo, em breve, começar a ler um pouco de Luis Câmara Cascudo, grande estudioso brasileiro do tema – e aqui vai a dica para quem se interessar pelo tema.
Bem, acredito que de todos os artigos por mim postados, essa será o que terminará com a maior lacuna, pois, de fato, não o escrevi pensando em propor nada de concreto. Não quero gerar uma revolução ou desabafar uma angustia profunda. Só queria expor algo que está de tal forma na nossa cara, mas que poucos nos permitimos perceber.
Boas leituras a todos. 

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A difícil tarefa de se vencer o estrangeiro em nosso próprio território


O assunto do qual vou tratar aqui já foi discutido repetidas vezes em diferentes tempos, mas não custa nada dar uma reforçada. Sem querer ser nacionalista ao extremo, ou adepto de teorias conspiratórias de que as potências estrangeiras façam lavagem cerebral em nós para que compremos seus produtos, mas acho que ninguém pode negar que a produção nacional continua terrivelmente desvalorizada perante a produção estrangeira.
Falando de arte, temos muitos e muitos exemplos. Os milhões que pagamos por ano para que algum músico ou banda venha aqui para tocar uma única vez. Os besteiróis americanos que permanecem em cartaz em nossos cinemas por meses ininterruptos enquanto bons filmes nacionais duram no máximo poucas semanas. E também as editoras brasileiras que insistem em publicar traduções de Best-sellers americanos ou europeus enquanto temos inúmeros autores no nosso país que não encontram chance.
Como minha proposta no blog é discutir literatura, vou dar ênfase à questão dos livros. Eu compreendo perfeitamente que uma editora, seja ela qual for, é uma empresa. Logo, assim como todas, ela tem um objetivo claro: o lucro. Ela tem que se manter, ela tem uma folha de pagamento para cumprir, e como todo o bom negócio, tem que garantir a seu dono uma receita favorável.
Olhando as coisas por esse ponto de vista, é óbvio que se torna muito mais rentável, por possuir uma margem de risco menor, investir em um livro que já fez sucesso em algum outro lugar, que tem um marketing pronto, um público alvo. Isso se torna mais interessante do que pegar um trabalho do zero, tendo que criar para ele um estilo próprio, uma estratégia de propaganda própria e ainda correr o risco de ele não ser aceito. Porém, essa questão ainda não me parece suficiente para justificar o mal trato com a produção nacional que vemos claramente em nosso país.
O fato é que nossas editoras — não digo todas, mas um número considerável — não parecem prontas para competir no mercado. Quando digo isso, não quero dizer que não tenham capacidade, mas se encontram constrangidas ou com pouca coragem para isso. O mercado exige riscos, exige destreza de quem nele se lança, exige que o empresário esteja disposto a tentar inovar, investir, e, aí sim, lucrar.
As editoras internacionais sabem disso e por isso encontram coragem para pegar um autor novo, mas que, em sua visão tenha potencial, e investir nele. Criar um marketing próprio, uma estratégia de venda. E é isso que garante e a elas a primazia em alguns mercados. O que seria de J. K. Rowling hoje se na Inglaterra as editoras preferissem traduzir romances alemães ou franceses ao invés de investir na produção nacional? Bem, provavelmente o mundo jamais conheceria Harry Potter.
E o que será que acontece aqui no Brasil? Quantos talentos podem estar sendo desperdiçados por conta da falta de investimento? Mas quando falo de falta de investimento, não digo que a culpa é única e exclusivamente de nossas editoras, mas trago um pouco da responsabilidade para nós leitores também. Pois quantos de nós já não torcemos o nariz quando ouvimos falar sobre alguma produção nacional? Seja na literatura, na música ou no cinema — neste último, eu diria que a coisa é mais visível.
É claro que para nós leitores a produção estrangeira é muito mais acessível. Não estou dizendo o contrário. Elas são normalmente mais baratas, pois são publicadas em editoras de grande tiragem. Elas estão em toda a parte: nas vitrines, nas partes mais visíveis das livrarias. Mas isso também não justifica. Pois não é trabalho nenhum tentar buscar algo para além do que nos é basicamente empurrado.
Nelson Rodrigues uma vez disse que o brasileiro sofre de um grave complexo de Vira-lata, pois sempre se vê como inferior, sempre acha que o que vem de fora é melhor, que nossa produção jamais poderá chegar aos pés do que é feito nos EUA, Inglaterra, França, e Cia. Confesso que não discordo completamente dele. Não quero dizer com isso que devamos boicotar a produção estrangeira. Temos em nossa cabeça que tudo o que vem de fora é bom e tudo o que vem de dentro é ruim, mas eu não quero que tomemos o partido contrário. Trocar um extremo pelo outro não é minha intenção. O que eu proponho aqui é uma justa medida. Saber valorizar. O que eu trago aqui é uma volta do ideal do movimento antropofágico: mastigar, digerir e aproveitar do estrangeiro, apenas aquilo que dele presta e desprezar o que não presta. Valorizar sim a produção nacional. Mas não toda e qualquer, e sim as boas. Reconhecer que nela também temos pérolas que devem ser valorizadas, ou ficarão para sempre dentro da ostra.

Para encerrar minha linha de raciocínio, chamo a atenção para um escritor que é de conhecimento nacional e mundial: Paulo Coelho. Esse autor é extremamente criticado por muitos brasileiros. É chamado de literatura comercial – Engraçado que muitos que dizem isso são leitores de Agatha Cristie, Stephanie Meyer, J. K. Rowling e Meg Cabot que também são literaturas comerciais — de escritor de livros de auto-ajuda, ou de afrancesado. Esse último estigma é o que me chama mais a atenção, pois ele se baseia no fato de que Paulo Coelho, mesmo sendo brasileiro, vive na França e escreve usando muito do cenário europeu e que por isso ele estaria traindo o Brasil, esquecendo-se de suas raízes. Agora pensemos francamente: quem de nós no, lugar dele, não faria o mesmo?
Vamos nos colocar no lugar: Somos autores altamente criticados em nossos países de origem, menosprezados, alvos de inúmeras críticas. Porém, em contrapartida, se encontramos num país estrangeiro, um lugar aonde as pessoas nos tratam como reis, aonde somos elogiados, valorizados. Aonde ganhamos inúmeros prêmios e nosso trabalho é reconhecido. Em que pais você escolheria ficar? Francamente, acho que a resposta não é muito difícil.

Esse é um exemplo interessante, pois mostra, para mim, como nós mesmos não vemos nossas próprias pérolas e que, muitas vezes, precisamos que elas sejam descobertas em outros lugares para que possamos enxergar.


quinta-feira, 13 de maio de 2010

A ascensão do Anti-herói


Antigamente, era mais fácil sabermos para quem iríamos torcer enquanto líamos um bom livro ou assistíamos a um filme. Os papeis eram claros, os personagens definidos. As disputas entre o bem e o mal eram claras e nós sabíamos exatamente aonde nos posicionarmos: no lado certo. Mas hoje, creio eu que a coisa anda um pouco diferente. Pois a cada dia que passa, os vilões se tornam mais e mais atraentes enquanto os mocinhos são apresentados de forma mais enfadonha, perdendo a força para os sádicos, sarcásticos e hilários antagonistas.
Um bom exemplo dessa nova tendência é o filme ‘Batman: o cavaleiro das trevas’. Acredito que todos os que assistiram ao filme irão concordar comigo que o grande barato do filme é o personagem Curinga, pois o Batman em si estava muito fraco. Mas esse filme não é o único. Em muitos casos a figura do vilão está se mostrando cada vez mais complexa, elaborada e, também, impactante. Não existem mais espaços para os velhos clichês, com suas risadas sarcásticas e planos malignos. Agora o espaço é dado aos “Lestats” das crônicas vampirescas de Anne Rice, dos “Hannibals” interpretados por Anthony Hopkings e muitos e muitos outros vilões que vêm a se tornar os novos astros. Que, mesmo cometendo as maiores atrocidades, são irresistíveis.
No ‘Evangelho Segundo Jesus Cristo’, de José Saramago, uma passagem me chamou muito a atenção. Ela diz respeito a um momento aonde Jesus dialoga com Deus e com o Diabo, conhecendo, a partir dali, seu futuro e o destino de sua religião, aonde muita morte terá de acontecer com a morte dos apóstolos, as cruzadas e a inquisição. Satanás, nessa passagem, faz uma proposta a Deus, de que, se O Pai o perdoasse de todos os seus pecados, ele desistira de sua revolta e assim a paz poderia chegar ao planeta, pois não mais haveria mal. Deus, no entanto, não aceita, alegando que é necessária a existência do mal para que Ele possa existir. Dessa forma, um mundo sem o Diabo, seria um mundo em paz sim, mas um mundo aonde ninguém reconheceria Deus.
Essa atitude egoísta da divindade proposta por Saramago mostra mais uma característica dessa valorização do anti-herói. Isso por que, um personagem que é a pura representação do mal — o Diabo — aqui aparece como aquele que tenta a paz, tenta a redenção. Como ele mesmo diz: ‘não podem dizer que o diabo nunca tentou’. O Diabo é apresentado aqui como um ser virtuoso, mas não é só ele. Anne Rice trás os vampiros — monstros comedores de gente — e os transforma nos heróis de suas obras. J. K. Rowling pega a velha bruxa má, destruidora de campos e amiga de Satanás e a transforma na protagonista de sua série. Demônios, aquilo que é de pior na mitologia judaico-cristã, ganham a possibilidade de protagonizarem em ‘Demônio: a queda’ e ‘De corpo e Alma’ — Em breve nas livrarias (rsrs — Momento comercial).
Os personagens estão, sem dúvida, mais complexos, mais surpreendentes. Os papeis podem ser trocados e as torcidas podem variar. Mas o que significaria isso?  Estaríamos nós nos tornando uma sociedade de degenerados que cultuam o mal e riem da moralidade e da ética? Ou estaríamos entrando em um novo momento de revelações, onde as injustiças do passado com relação a mitos antigos estão sendo revisados e vingados?
Sinceramente, não sei. Talvez o vilão seja aquele que nos permita entrar em contato com nosso lado mais obscuro, permitindo-nos prazeres pouco convencionais mesmo que de forma ficcional. Ou talvez seja apenas um processo de modernidade na forma de se fazer ficção. Um sintoma de um público cansado dos mesmos heróis com suas mesmas virtudes. Ou pode ser possível ainda que os próprios valores da sociedade, com o tempo, possam estar mudando.
Essa terceira me é mais atraente, pois, se observarmos os valores de antes, percebemos que eles não estão mais presentes hoje. Pensemos — apenas com o intuito de ilustrar — na virgindade feminina até o casamento. Esse é um tabu presente nas sociedades ocidentais desde antes de Cristo, mas que hoje já foi quebrado e superado. As mocinhas virginais dos contos de cavaleiros não atraem mais o leitor como antes e hoje são elas que tomam a atitude ativa e exigem que os heróis as possuam. Como faz a Bella de ‘Crepúsculo’ com relação a Edward. A revolução sexual já aconteceu no mundo e a arte acompanhou essa tendência.
Voltando agora ao anti-herói, também temos aí uma questão atual, pois, muito mais do que uma apologia ao mal, acredito que essa nova onda de vilões, é, na verdade, uma resposta a uma própria falta de conhecimento do que seria o certo. Não que sejamos um bando de degenerados que desgraçam a humanidade, mas sim que somos pessoas que vivemos em um mundo aonde a polícia mata os cidadãos, os políticos nos roubam enquanto os pobres morrem de fome e as pessoas continuam matando em nome de Deus. Vivemos em um mundo, aonde os mocinhos da história não são mais tão virtuosos. Então, não estaria nos vilões a solução?
Mas como eu disse antes, não sei a resposta para essa tendência atual. Pelo menos não precisamente. Estou deixando aqui apenas algumas observações. Vocês teriam alguma outra sugestão de resposta? Adoraria ouvir. Mas uma coisa não se pode negar: os papeis estão se tornando a cada dia mais imprevisíveis.