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quinta-feira, 28 de março de 2013

Aperitivo - Despertar (Título Provisório)

Com a iminência da publicação de "O Véu" e a ansiedade provocada por isso, aproveito este espaço para dar uma amostra de meu novo trabalho - "Despertar" (Título provisório) - cuja história contará os primeiros dias de Ian no momento em que acorda para suas demais vidas.
Espero que apreciem
Willian Nascimento

A neve corria macia por entre minhas mãos. Aquela já devia ser a terceira vez na semana, e quem sabe a décima no mês. O mesmo chão branco, os mesmos cristais de gelo, os mesmos pinheiros. Como devia ser não ter peso? Provavelmente uma sensação muito semelhante àquela. Meu corpo sequer fazia pressão contra meus membros e eu já estava me impulsionando para frente novamente, em uma velocidade avassaladora. Correndo... ou melhor, trotando por aquela mata virgem.
Meus quatro membros tocavam o chão. A neve era atirada para trás a cada pulsão que eu empregava. Meu trote era perfeito, como o de um cão de caça. E por falar em cães, meu perseguidor estava se aproximando. Atrás de mim, um belo espécime de lobo mantinha à duras penas uma proximidade minimamente digna. Sua língua pendia para o lado, conforme suas baforadas cuspiam saliva que instantaneamente se congelavam antes de tocar o solo. Ele estava cansado, mas já estávamos chegando a nosso destino.
Foi então que, chegando a hora, cravei mãos e pés no tapete branco e freei bruscamente. Meu companheiro, desajeitadamente, fez o mesmo, atropelando-me e nos fazendo rolar ainda alguns metros antes de finalmente pararmos por completo. Eu gargalhava alto, enquanto era vítima de sua língua úmida que lambuzava meu rosto. Brincamos ainda alguns minutos, próximos a um grande barranco. Inconsequentes como éramos, nem nos preocupamos com o fato de que, com um pouco menos de atraso em nossa freada, acabaríamos os dois no fundo do desfiladeiro.
Mas não queríamos, nem conseguiríamos nos preocupar com isso. Afinal, não fora para isso que viemos de tão longe para aquele lugar. E a razão de nossa corrida já estava nos esperando. De um instante para outro, paramos com nossa brincadeira infantil e nos pomos sentados para apreciar o belo espetáculo que se abria diante de nós. O céu, antes cinzento e mórbido, agora que abria para uma aquarela ondulante. Riscos de todas as cores, dançando em um ritmo próprio, inebriante. Um fenômeno que eu costumava reconhecer como a passagem das almas, que transcendiam do mundo terreno para a dimensão espiritual, e que séculos depois descobriria que o ocidente o chamava de Aurora Boreal.
O lobo estava ao meu lado, sentado e ainda se recuperando do desgaste que nossa injusta perseguição lhe impôs. Eu acariciava seu pelo e recebia de bom grado o calor que emanava de seu dorso corpulento. Ganhei uma lambida carinhosa no rosto e retribui com um afago entre as orelhas. Olhei para o céu. Era lindo demais e eu não queria nenhuma outra companhia. Nem dos membros de meu clã, nem mesmo dela... Pois aquele era o nosso lugar secreto. Meu e de Raj.
Sentirei saudades, amigo — falei para meu companheiro, enquanto sentia uma leve dor de cabeça incomodar.
Somente um ganido me foi dado como resposta, mas que foi o suficiente para deixar claro o que ele sentia. Fiquei triste, mas ao mesmo tempo grato pelo sentimento que acabava despertando nele.
Sinto muito... — tentei me desculpar, encostando minha testa em seu pescoço e aproveitando para esconder meu rosto que ameaçava despejar algumas lágrimas. Eu não gostava de chorar na frente de ninguém de minha aldeia — Mas está na hora de eu ir... Sei que é precipitado... Que pode dar tudo errado, mas... Você me conhece. Sabe que não resisto a uma aventura. Ainda mais com ela...
A dor começava a incomodar mais. Mais intensa, e concentrada. Logo atrás dos olhos, uma pontada como se alguém estivesse introduzindo um dedo por dentro de meu cérebro.
Só queria me despedir de você antes de partir — falei, buscando ignorar a dor — Eu e... — Não consegui me lembrar do nome.
Como não conseguia? Estávamos falando dela agora mesmo.
Eu e... — a dor estava ficando insuportável — Eu e... Ela... Vamos fazer hoje... E se a magia funcionar... Vai ser ótimo.
E como sempre acontecia nesta parte, a enxaqueca assumia um grau tão agudo que me fazia perder a sensação do mundo a minha volta. Estava na hora. Eu iria acordar...
Aos poucos minha visão se tornava embaçada, até tudo ficar escuro. Porém, ao contrário de logo perder completamente o contato com a floresta de pinheirais, naquela noite em específico meus demais sentidos insistiam em guardar algumas sensações daquele sonho. O cheiro úmido das plantas, o frio e a sensação dos flocos de neve caindo sobre a pele. Contudo, estes últimos se tornavam mais agressivos e seus impactos me obrigavam a acordar com mais velocidade.
Quando abri os olhos, dei de cara com a luz do poste. Os pingos de chuva atacavam meu corpo, completamente ensopado e desprotegido devido a fina roupa que eu usava. De um salto, levantei-me, para dar conta de onde estava. Em uma olhada rápida em torno, reconheci automaticamente minha posição, embora custasse acreditar que pudesse estar na Praça da Rua Volta, cerca de cinco quadras de minha casa, onde, eu jurava, havia adormecido antes de acordar naquele lugar.
Assustado, olhei mais atentamente a minha volta a procura de alguém, ou ao menos de alguma resposta para tudo aquilo. Não encontrei nem um, nem outro. Levantei e estava descalço. A dor de cabeça havia desaparecido, mas ela sequer tangenciava minhas preocupações. Minha respiração ficou mais descompassada e o medo poderia me dominar, se a racionalidade não cobrasse uma atitude e me obrigasse a pensar. Não importava o quão maluca fosse a resposta para eu estar ali naquele momento, não seria debaixo de chuva que eu iria encontrá-la.
E com esta convicção, disparei para casa. Venci facilmente a distância que me separava de minha rua, com um vigor e condicionamento que não acreditava possuir. Ao chegar em casa, deparei-me com o portão trancado.
Droga! Praguejei, deixando o desespero também participar de meu infortúnio. Procurei no bolso de meu short pela chave, mas nada. Não é possível, como então eu saí? Naquele instante, a resposta parecia ter vindo na forma da janela aberta de meu quarto. Olhei para cima e a contemplei. Eu também me lembrava de tê-la fechado antes de dormir, para que a tempestade não alagasse meus aposentos.
Não. Impossível. Não havia forma de eu saltar pela janela dormindo sem quebrar ao menos uma perna. Devia haver outro modo. Mas como já havia percebido antes, não encontraria nenhuma resposta ali fora. Então tratei de trepar o muro de casa para me proteger da chuva. Invadir o quintal foi mais fácil do que supunha, mas agora havia outro problema: como entrar na residência? A alternativa de dormir no sereno não era agradável.
Rondei a casa, atrás de alguma passagem aberta. A sorte me sorriu, ao menos. Vi que a janela que dava acesso a lavabo estava entreaberta. Sem pensar, meti a mão e forcei a entrada. A janela era velha e um pouco enferrujada, por isso que muitas vezes não conseguíamos fechá-la por completo. Mas como naquela noite em especial eu demonstrava uma saúde muito satisfatória para meus padrões, assim também o foi quando tentei abrir a janela. E ela se abriu sem muita resistência.
Na lavanderia, tratei de pegar uma toalha no secador de roupas e me enxugar. Não queria ensopar a casa. Tirando a roupa molhada e colocando-a dentro do tanque, enrolei a toalha na cintura e foi com cautela até meu quarto. A casa estava silenciosa, o que era uma boa notícia, possivelmente. Passei pelo quarto de meus pais antes de chegar ao meu e fiquei feliz em ver que ambos dormiam a sono pesado. Pelo menos minha aventura noturna não fora percebida por nenhum dos dois.
Esgueirei-me pelo pelo corredor até me refugiar em meu aposento. Fechei a porta e fui até a janela. A mesinha que ficava diante desta estava ensopada, mas não me importei. Olhei para uma última vez pela abertura antes de fechá-la. Queria entender como afinal eu havia fugido de casa, mas eu não estava com cabeça para pensar. Tentei lembrar do sonho e consegui visualizar tudo com muita nitidez, até seu final, quando a enxaqueca voltou a me incomodar.
Interpretei aquilo como um sinal para não fuçar mais aquela história. Não por aquela noite, ao menos. Conformado, vesti um short seco e me deitei. Achei que não fosse conseguir dormir, todavia subestimei meu sono pesado. E logo eu estava, mais uma vez, entregue ao mundo dos sonhos. Só esperava, daquela vez, acordar em minha cama.

sábado, 2 de março de 2013

Coisas que valem a pena digulgar: Pequenos poemas, grandes emoções; de Leonardo Pacheco



Saudações colegas do Por Detrás do Véu.
 
Recentemente, foi publicado no Brasil uma boa notícia para os fãs de poesia.
Trata-se do trabalho "Pequenos poemas, grandes emoções" do novo poeta Leonardo Pacheco, com gravação de Evaristo Kooh.


Trata-se de uma boa pedida para presentear a pessoa amada ou ter momentos de reflexão mesmo dentro de nosso caos urbano, podendo ouvir no carro ou na condução a caminho das atividades. Ou em casa, no conforto do lar.
 
 
Para mais informações:
 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Resenha: O livro do fim do mundo, diversos autores


Pegando carona na onda apocalíptica gerada pela profecia Maia, a editora Subtítulo lançou mão desta publicação que reúne mais de trinta contos de autores dos quatro cantos do Brasil. Organizado por Alessandro Finardi, Eder Rosa e Márcio Saconato, “O livro do fim do mundo” se propõe a explorar as sensações humanas levadas ao limite ao ter como norte das propostas dos contistas a seguinte indagação: “o que você faria se o mundo fosse acabar em uma hora?”.

A qualidade dos trabalhos é variada, atraindo e repudiando diferentes gostos e estilos de leitores. No geral, as histórias exploram o medo, a violência e as redenções esperadas com a iminência do fim. E como não tenho condições de falar de cada um dos trabalhos que estão aqui presentes, escolho os meus três favoritos para dedicar linhas especiais.

O primeiro, “...and I feel fine” de Leandro Samora, mereceu um artigo próprio, publicado anteriormente aqui no Por detrás do Véu. Tal empatia que me gerou o trabalho se baseia no fato de este, com um tom irônico e divertido, tocar fundo em questões interessantes a respeito da vida e do tão sonhado “fazer valer a pena”. Um conto que de forma ácida, nos faz repensar máximas já batidas, presentes nos mais pueris livros de autoajuda.

“Carta à senhorita Wargrave” foi uma iniciativa ousada de Cássio Maia. Ousada, pois distorceu aquilo que se comumente esperava da proposta inicial da antologia. Nele, não temos um apocalipse geral, mas um fim do mundo muito particular. Algo que tinha tudo para dar errado, mas que graças à originalidade e ao talento estético do autor acabou por se converter em uma obra prima e que merece o devido destaque.

E por último, mas não menos importante, “Das consequências para quem noticia o fim do mundo”, de Raul Gimenez. Este conto se destaca por trazer uma crítica sutil e inteligente dos valores que permeiam nossa sociedade. Do desapego e ceticismo que podem acometer nossos corações modernos mesmo na iminência do fim.

O gênero conto é o ideal para pessoas que, como a maioria de nosso presente volátil, percebem que o relógio corre cada vez mais rápido; que cada vez dispomos de menos tempo para fazer as coisas simples da vida. Nesse sentido, “O livro do fim do mundo”, além de se encaixar perfeitamente nessa realidade, fornecendo leituras agradáveis para pessoas que só possuem tempo para ler nos intervalos da vida, também oferece um esforço crítico acerca das condições que criaram essa sociedade que taxa preços cada vez mais altos para seu tempo e ainda assim continua sem saber lhe dar o devido valor.