Em meu artigo anterior — “Senso comum – A fantasia nas coisas comuns” — eu tentei demonstrar uma nova forma de pensar e também provar, na medida do possível, que a realidade é algo muito mais aceito para a maioria das pessoas do que propriamente algo comprovado. Fiz questão de acentuar que o ser humano não faz questão de provas para todas as questões da vida e que em muitas vezes ele está disposto a simplesmente acreditar de forma que possa dar segurança ao mundo em que vive. O ser humano sempre é capaz de acreditar em algo minimamente possível, se isso lhe gerar conforto, mas nenhum de nós está pronto para gerenciar o Caos. A incerteza, o “Não sei”.
Mas confesso também que essa minha abordagem gerou um problema a ser levantado. Problema esse que foi muito bem levantado pelo meu amigo Luiz (Ver nos comentários do artigo). Pois, se então, tudo não passa de crença, de fé, então não existem fatos? Tudo é uma questão de discurso? De convencimento.
Meu interesse por esse tema é grande. Isso por que, muito além de ser um mero devaneio meu, esse é um fenômeno muito forte no mundo Contemporâneo: A descrença no paradigma científico. Um campo onde podemos notar essa tendência muito bem é no da Literatura. Tanto pelo Boom de trabalhos de ficção fantástica que vem acontecendo ultimamente — aonde eu me encaixo — como até mesmo em obras clássicas como “Fausto” de Goethe ou “Frankenstein” de Mary Shelley. E tal fenômeno se dá, principalmente, por que as promessas da ciência, trazidas com os auges do iluminismo não se cumpriram.
Primeiro, as Duas Grandes Guerras colocaram abaixo o ideal de que a humanidade é uma evolução continua. Isso por que, como uma sociedade desenvolvida pode gerar guerras? E até mesmo a proposta de um futuro pleno e de felicidade geral também não existe ainda e os jornais e televisão não nos deixam enganar. Isso por que, por mais que a tecnologia ajude na produção de alimentos, o mundo passa fome. E por maiores que sejam as aberturas comerciais do mundo — fenômeno gerado pela globalização — o mundo ainda se encontra dividido. Seja por cor, religião ou opções sexuais.
Esse sentimento de descrença acabou gerando em muitos pensadores uma necessidade de se criticar esse discurso positivista da ciência, começar a contestar sua total veracidade. E a História — área do saber que eu amo e também estudo com afinco — não saiu limpa desse problema. E alguns autores começaram a se questionar? Seria possível se ter um acesso direto ao passado? Não seria a História uma questão apenas de discurso? Ou ainda. Qual seria a diferença do discurso Histórico e do ficcional?
Hayden White em seu trabalho – “Meta-História” — defendeu que a História funciona como uma forma de poesia. Pois sua metodologia tem sempre um “Quê” de criação literária. De criação ficcional. Isso por que, enquanto não tivermos acesso a uma máquina do tempo, não se teria como nenhum de nós sabermos como as coisas realmente aconteceram. Pois a única coisa que temos acesso é às Sobras do passado. Ou seja, aquilo que os antigos deixaram e aquilo que sobreviveu até então. Muito se perdeu, muito não chegou a nós. Então, o trabalho do historiador não poderia ser completo a partir do momento que suas fontes estão fragmentadas. E é daí que para se construir e completar as lacunas da História se é necessária a intervenção da ficção. Da criação, ara assim poder contar o que supostamente aconteceu.
Não acredito que a idéia de Hayden White foi a de dizer que toda a história é um mero discurso e que não existe verdade histórica, mas com certeza essa sua tese foi utilizada para gerar um novo problema. Novo e maior.
Quantos aqui já ouviram falar da corrente filosófica Revisionista? Bem, para aqueles que não, vou falar um pouco dela. A corrente Revisionista leva ao extremo a idéia de Hayden White e alegam que tudo na História não passa de criação e que, uma verdade Histórica só é conseguida através do discurso. Logo, aquele discurso que melhor puder convencer, é o verdadeiro. E isso gera um problema grave. Pois pensemos, por exemplo, na brincadeira que eu fiz com relação ao caso do movimento de Translação dos Planetas. Não sei se consegui, mas o que eu tentei fazer no artigo anterior foi criar um discurso convincente de que talvez a coisa não aconteça assim. Se fui bem sucedido, vocês quem me dirão. Rsrs
Mas qual o problema disso? O problema é que a partir do momento em que acreditamos nisso, então, basicamente podemos acreditar em qualquer coisa que alguém, com uma boa retórica, disser que é. Então, torno a perguntar. Qual a diferença entre o discurso histórico e o discurso Ficcional? Não. Melhor ainda. Qual a diferença do discurso científico e do fantasioso?
Para responder essa pergunta, chamo um historiador que muito trabalha no assunto. Carlo Ginzburg. Em seu trabalho, “Olhos de Madeira”, o historiador se mostra desconfortável com essa nova visão revisionista que se faz. Isso por que, Ginzburg alega que há sim diferença entre o discurso científico e o discurso ficcional. E essa diferença são as fontes. Ele não nega que parte da criação histórica seja feita em cima de pressupostos, hipóteses e também imaginações, que muito tem haver com a Literatura. Mas ele diz também que, se formos analisar mais a fundo, encontraremos a pista que deu início a isso tudo. Logo, ao contrário da criação ficcional que não precisa necessariamente partir de um fato ou uma prova, o discurso científico precisa e parte.
Então, quando falamos, por exemplo, de uma Pompéia — cidade que desapareceu após a erupção do monte Vesúvio, que diferenças temos dessa cidade para, por exemplo, o castelo de Hogwarts descrito por J. K. Rowling em “Harry Potter”? A diferença está na arqueologia. Pompéia foi encontrada arqueologicamente. A erupção vulcânica congelou a cidade no tempo, deixando para nós hoje fragmentos daquilo que um dia ela foi. Ao contrário de Hogwarts em que só temos o que a autora diz. Aí está a diferença.
A terra gira em torno do sol? Sim. Eu posso não ter as provas, mas houve cálculos, houve observações astronômicas para se chegar a essa conclusão. Mas é claro que, muito além de dados, também houve um pingo de fantasia, pois Galileu, ao formular essa teoria, teve de que partir do nada, da criação e a partir daí, necessitou de um pouco de fantasia para poder crer. Fantasia e realidade não são tão opostas quanto parece, mas são diferentes sim. Isso não se pode esquecer. Existem fatos. Existem elementos empíricos que nos ajudam a entender que algo físico é diferente de algo abstrato, e isso não pode ser esquecido.
Então alguns de vocês devem me perguntar: “Mas então para que diabos o Willian entrou nesse assunto no artigo anterior? Só para nos confundir?” E a resposta será. “Sim”. : ).
No Véu eu brinco com essa realidade, mas isso, não por que eu quero causar em vocês um total estranhamento e fazê-los desconfiar de tudo o que dizem. Meu objetivo no livro e no artigo era outro. Pois como uma obra de arte, meu livro atende a outra necessidade: a de criar Verossimilhança. A uma tentativa de criar um mundo fantástico tão parecido com o real que possa causar em quem lê a sensação de possibilidade. E para que essa possibilidade ajude o leitor a entrar na história, exigindo dele o menor grau de abstração possível. Esse é o objetivo da arte, esse é o objetivo da fantasia.
E no artigo, meu objetivo foi o de propor uma nova forma de pensar. Uma forma mais relativista e mostrar para aqueles que desprezam a ficção ou a fé no sobrenatural de que, as nossas crenças e as deles não são tão diferentes assim e que existe muito de fantasia no nosso dia a dia. Ela está lá. Seja para criar um mundo ao qual possamos nos adaptar. Seja para espaçar dele de vez em quando.





