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quinta-feira, 1 de abril de 2010

A questão do Discurso – Entre o fato e a ficção


Em meu artigo anterior — “Senso comum – A fantasia nas coisas comuns” — eu tentei demonstrar uma nova forma de pensar e também provar, na medida do possível, que a realidade é algo muito mais aceito para a maioria das pessoas do que propriamente algo comprovado. Fiz questão de acentuar que o ser humano não faz questão de provas para todas as questões da vida e que em muitas vezes ele está disposto a simplesmente acreditar de forma que possa dar segurança ao mundo em que vive. O ser humano sempre é capaz de acreditar em algo minimamente possível, se isso lhe gerar conforto, mas nenhum de nós está pronto para gerenciar o Caos. A incerteza, o “Não sei”.
Mas confesso também que essa minha abordagem gerou um problema a ser levantado. Problema esse que foi muito bem levantado pelo meu amigo Luiz (Ver nos comentários do artigo). Pois, se então, tudo não passa de crença, de fé, então não existem fatos? Tudo é uma questão de discurso? De convencimento.
 Meu interesse por esse tema é grande. Isso por que, muito além de ser um mero devaneio meu, esse é um fenômeno muito forte no mundo Contemporâneo: A descrença no paradigma científico. Um campo onde podemos notar essa tendência muito bem é no da Literatura. Tanto pelo Boom de trabalhos de ficção fantástica que vem acontecendo ultimamente — aonde eu me encaixo — como até mesmo em obras clássicas como “Fausto” de Goethe ou “Frankenstein” de Mary Shelley. E tal fenômeno se dá, principalmente, por que as promessas da ciência, trazidas com os auges do iluminismo não se cumpriram.
Primeiro, as Duas Grandes Guerras colocaram abaixo o ideal de que a humanidade é uma evolução continua. Isso por que, como uma sociedade desenvolvida pode gerar guerras? E até mesmo a proposta de um futuro pleno e de felicidade geral também não existe ainda e os jornais e televisão não nos deixam enganar. Isso por que, por mais que a tecnologia ajude na produção de alimentos, o mundo passa fome. E por maiores que sejam as aberturas comerciais do mundo — fenômeno gerado pela globalização — o mundo ainda se encontra dividido. Seja por cor, religião ou opções sexuais.
Esse sentimento de descrença acabou gerando em muitos pensadores uma necessidade de se criticar esse discurso positivista da ciência, começar a contestar sua total veracidade. E a História — área do saber que eu amo e também estudo com afinco — não saiu limpa desse problema. E alguns autores começaram a se questionar? Seria possível se ter um acesso direto ao passado? Não seria a História uma questão apenas de discurso? Ou ainda. Qual seria a diferença do discurso Histórico e do ficcional?
Hayden White em seu trabalho – “Meta-História” — defendeu que a História funciona como uma forma de poesia. Pois sua metodologia tem sempre um “Quê” de criação literária. De criação ficcional. Isso por que, enquanto não tivermos acesso a uma máquina do tempo, não se teria como nenhum de nós sabermos como as coisas realmente aconteceram. Pois a única coisa que temos acesso é às Sobras do passado. Ou seja, aquilo que os antigos deixaram e aquilo que sobreviveu até então. Muito se perdeu, muito não chegou a nós. Então, o trabalho do historiador não poderia ser completo a partir do momento que suas fontes estão fragmentadas. E é daí que para se construir e completar as lacunas da História se é necessária a intervenção da ficção. Da criação, ara assim poder contar o que supostamente aconteceu.
Não acredito que a idéia de Hayden White foi a de dizer que toda a história é um mero discurso e que não existe verdade histórica, mas com certeza essa sua tese foi utilizada para gerar um novo problema. Novo e maior.
Quantos aqui já ouviram falar da corrente filosófica Revisionista? Bem, para aqueles que não, vou falar um pouco dela. A corrente Revisionista leva ao extremo a idéia de Hayden White e alegam que tudo na História não passa de criação e que, uma verdade Histórica só é conseguida através do discurso. Logo, aquele discurso que melhor puder convencer, é o verdadeiro. E isso gera um problema grave. Pois pensemos, por exemplo, na brincadeira que eu fiz com relação ao caso do movimento de Translação dos Planetas. Não sei se consegui, mas o que eu tentei fazer no artigo anterior foi criar um discurso convincente de que talvez a coisa não aconteça assim. Se fui bem sucedido, vocês quem me dirão. Rsrs
Mas qual o problema disso? O problema é que a partir do momento em que acreditamos nisso, então, basicamente podemos acreditar em qualquer coisa que alguém, com uma boa retórica, disser que é. Então, torno a perguntar. Qual a diferença entre o discurso histórico e o discurso Ficcional? Não. Melhor ainda. Qual a diferença do discurso científico e do fantasioso?
Para responder essa pergunta, chamo um historiador que muito trabalha no assunto. Carlo Ginzburg. Em seu trabalho, “Olhos de Madeira”, o historiador se mostra desconfortável com essa nova visão revisionista que se faz. Isso por que, Ginzburg alega que há sim diferença entre o discurso científico e o discurso ficcional. E essa diferença são as fontes. Ele não nega que parte da criação histórica seja feita em cima de pressupostos, hipóteses e também imaginações, que muito tem haver com a Literatura. Mas ele diz também que, se formos analisar mais a fundo, encontraremos a pista que deu início a isso tudo. Logo, ao contrário da criação ficcional que não precisa necessariamente partir de um fato ou uma prova, o discurso científico precisa e parte.
Então, quando falamos, por exemplo, de uma Pompéia — cidade que desapareceu após a erupção do monte Vesúvio, que diferenças temos dessa cidade para, por exemplo, o castelo de Hogwarts descrito por J. K. Rowling em “Harry Potter”? A diferença está na arqueologia. Pompéia foi encontrada arqueologicamente. A erupção vulcânica congelou a cidade no tempo, deixando para nós hoje fragmentos daquilo que um dia ela foi.  Ao contrário de Hogwarts em que só temos o que a autora diz. Aí está a diferença.
A terra gira em torno do sol? Sim. Eu posso não ter as provas, mas houve cálculos, houve observações astronômicas para se chegar a essa conclusão. Mas é claro que, muito além de dados, também houve um pingo de fantasia, pois Galileu, ao formular essa teoria, teve de que partir do nada, da criação e a partir daí, necessitou de um pouco de fantasia para poder crer. Fantasia e realidade não são tão opostas quanto parece, mas são diferentes sim. Isso não se pode esquecer. Existem fatos. Existem elementos empíricos que nos ajudam a entender que algo físico é diferente de algo abstrato, e isso não pode ser esquecido.
Então alguns de vocês devem me perguntar: “Mas então para que diabos o Willian entrou nesse assunto no artigo anterior? Só para nos confundir?” E a resposta será. “Sim”. :  ).
No Véu eu brinco com essa realidade, mas isso, não por que eu quero causar em vocês um total estranhamento e fazê-los desconfiar de tudo o que dizem. Meu objetivo no livro e no artigo era outro. Pois como uma obra de arte, meu livro atende a outra necessidade: a de criar Verossimilhança. A uma tentativa de criar um mundo fantástico tão parecido com o real que possa causar em quem lê a sensação de possibilidade. E para que essa possibilidade ajude o leitor a entrar na história, exigindo dele o menor grau de abstração possível. Esse é o objetivo da arte, esse é o objetivo da fantasia.
E no artigo, meu objetivo foi o de propor uma nova forma de pensar. Uma forma mais relativista e mostrar para aqueles que desprezam a ficção ou a fé no sobrenatural de que, as nossas crenças e as deles não são tão diferentes assim e que existe muito de fantasia no nosso dia a dia. Ela está lá. Seja para criar um mundo ao qual possamos nos adaptar. Seja para espaçar dele de vez em quando.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Uma resenha de "O Véu"

Bem gente, como todo o pai orgulhoso, eu não canso de falar da minha cria. Nesse caso, de meu livro.
Aqui vai uma breve resenha que fiz sobre "O Véu" e que disponibilizei no site Skoob. Ela serve para aqueles que ainda não leram e querem saber mais da obra, ou até mesmo para aqueles que já leram ou estão lendo, para verem se meu objetivo foi cumprido.
Enfim, para aqueles que quiserem saber mais do mundo de Ian. Aqui vai.

“O Véu” é uma saga de fantasia contemporânea composta de dois grandes volumes. Ele é também a minha estréia no mundo literário, lançado de forma livre através da internet com fins unicamente de divulgação.
Ao construir “O Véu” eu tive a vontade de criar um trabalho que pudesse ser, ao mesmo tempo, simples e de agradável leitura, mas que também pudesse envolver algumas questões mais complexas e rebuscadas. E a forma como consegui fazer isso foi, criando uma história básica envolvendo áreas do interesse juvenil tais como o romance, a ação, os mistérios e a aventura, e bebi um pouco da história e da filosofia para a construção do mundo. E assim foi feito esse trabalho.
O mundo de “O Véu” é um mundo igual ao nosso: as mesmas casas, os mesmos problemas e as mesmas pessoas. Porém, nele a magia existe, mesmo não sendo usada. Os seres humanos aprenderam ao longo dos anos a mexerem com a mágica, mas abandonaram por considerá-la perigosa, e hoje a ignoram completamente por simplesmente desconhecê-la. Com a ascensão da modernidade e o uso da ciência como forma de explicar o mundo, mais e mais a mente da sociedade ocidental se fechou no ceticismo, permitindo assim a criação do Véu. Nesse sentido, o Véu é uma barreira que separa o mundo dos Adormecidos – pessoas comuns – e o mundo dos Despertos – magos. Porém, ele não é uma barreira física e sim conceitual, pois assim como o véu tecido, o Véu barreira é capaz de ofuscar a visão de uma pessoa e até protegê-la do sol de dos mosquitos, mas também e frágil e basicamente a única coisa que impede alguém de atravessá-la é a sua vontade.
A história gira em torno de Ana. Uma jovem que cresceu em um mundo de magia, trazido a ela através de suas tias e das histórias que elas lhe contavam em volta da fogueira em Três Corações. Porém, com a morte prematura delas e o crescimento de Ana, a garota logo viu que se quisesse crescer saudável e normal, teria de abdicar das fantasias de infância. Desse modo, ela passou a ser como todas as garotas normais. Era feliz, estudava, saía, gostava de música e tinha amigos. Mas acima de tudo, sabia o que era magia, bruxos e feitiços, mas esses estavam nos livros de fantasia e não no dia a dia. Porém, quando seu melhor amigo Ian começa a apresentar comportamentos estranhos. Comportamentos esses que remetem as antigas histórias contadas em volta da fogueira há anos atrás, então Ana percebe que precisa descobrir mais sobre aquilo que até então lutou para considerar mito.
Assim, com essa mistura de mundo complexo, mais enredo simples, eu construí a narrativa do Véu, tendo como principais influências Anne Rice, J. K. Rowling e Livros de RPG para a construção desse mundo de fantasia, amor e mistérios.
Espero que tenha conseguido meu intento e que todos os que se arrebicarem a atravessar “O Véu” venham a gostar. Desejo a todos uma ótima leitura. Um grade Abraço.
Willian Nascimento.

P.S. - Acrescento também um esboço dos personagens principais que preparei nos primeiros dias em que  o Véu foi ganhando forla em minha cabeça e ameaçava sair.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Senso comum – A fantasia nas pequenas coisas.

 
Fantasia — 1. Imaginação. 2. Obra ou Criação da Imaginação (Aurélio — Dicionário de língua portuguesa).

O dicionário de língua portuguesa aponta que Fantasia é tudo aquilo criado pela imaginação humana. Sendo assim, entendemos como Fantasia tudo aquilo que uma mente criadora pode fabricar. Tudo aquilo que é construído pela imaginação. Nesse caso, podemos dizer que a fantasia vai muito além da arte. Ela é mais que literatura, desenho, cinematografia. Arrisco até a dizer que ela está em tudo. No nosso dia a dia.
A fantasia está presente em tudo o que o ser humano é capaz de pensar antes de fazer. Capaz de idealizar antes de constatar. E também, capaz de criar antes de existir. Foi uma fantasia, ou seja, uma imaginação criadora que pôde ver uma máquina voadora cruzar os céus antes que o primeiro avião fosse inventado. Foi a fantasia de se imaginar um aparelho que pudesse realizar a comunicação entre pessoas à longa distância instantaneamente que teve de existir antes que o primeiro telefone fosse inventado. O mundo é uma criação, mas só é possível se criar se pudermos fantasiar.
A ciência precisa da fantasia. Precisa começar a partir dos mitos para chegar aos fatos. Tem que haver especulação antes de haver provas. Tem que existir hipótese para se forjar a teoria, e assim chegar até a experiência que vai provar tudo. O primeiro passo é criar. O segundo, construir.
E assim ocorre na literatura fantástica. Assim ocorre na arte em si. Mas o que leva então a uma hipótese científica a valer mais do que um mundo fantástico criado na literatura? Por que, ainda hoje, existem pessoas que menosprezam a criação fantástica, mas aceitam tão facilmente a criação científica?
Muitos deveram dizer: “Por que a ciência nos oferece fatos, provas, raciocínio lógico, enquanto a fantasia trabalha com as superstições”. Mas agora eu pergunto: “Provas para quem?” “Fatos para quem?” O fato é que acreditamos na ciência moderna, isso por que é ela quem nos dá as respostas para o mundo e tudo o que não vem dela é mera crendice. Mas eu pergunto: “Não seria também a ciência uma crendice?” Não pensemos nos cientistas e sim em nós mesmos, cidadãos comuns. A ciência para nós é um fato ou uma crendice? Fazendo minhas as palavras de Ian — “O Véu” — acho que teríamos de fazer a pergunta: “Será que tudo em que acredito, eu posso provar?”
“A terra gira em torno do sol”. É um fato científico, sim, todos sabemos, todos aprendemos na escola, todos repetimos e absorvermos isso sem contestar. Mas quantos de nós já tivemos a oportunidade de irmos a um telescópio e tirarmos, nos mesmos, essas conclusões. “Toda matéria é composta por partículas microscópicas indivisíveis chamadas Átomos”. Outro fato, mas quantos de nós podemos provar isso? Não podemos ver esses tais Átomos de que nos falam, mas acreditamos neles, não é?
Senso Comum. Aquilo que todos acreditam por que todos acreditam. Eu sei que isso é assim, por que meu vizinho também acredita. Por que todos em minha cidade acreditam. Então por que eu serei diferente? O ser humano jamais vai conseguir provar tudo em que acredita. Até por que, se um de nós quiser tentar, não vai viver e vai passar o resto da existência à procura de provas para algo que nunca vai se completar. Muitas coisas nós temos que simplesmente nos abstrair e acreditar, pois se não, não teríamos certeza de nada.
Mais uma vez, é a fantasia quem está presente. É ela quem nos permite acreditar nisso, já que não temos condições de provar isso a nós mesmos. Acho engraçado as pessoas que dizem que possuir determinada fé, acreditar que Buda nasceu de uma flor ou que Deus criou o homem e depois a mulher a partir de sua costela é mera besteira, fruto de mentes ignorantes. Mas pensemos bem. Imaginemos a seguinte situação:
Perguntamos para um aluno de ensino médio hoje:
Quem gira em torno de Quem? O Sol em torno da Terra ou a Terra em torno do Sol?
A Terra em torno do Sol.
— Por quê?
Por que sim.
Como sabe? Quem te falou?
O professor.
E você acredita nele?
—Claro. Todos acreditam. Por que ele mentiria para mim?



Agora transpomos essa discussão para um homem medieval, por exemplo?
É verdade que Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo?
Sim
Por quê?
Por que sim.
— Como sabe? Quem te falou?
O padre. Professor do colégio.
E acredita nele?
— Claro. Todos acreditam. Por que ele mentira para mim?

Deu pra entender? A verdade é que para nós, homens e mulheres esclarecidos do séc. XXI, os fatos nada mais são do que fantasias. Uma verdade que escolhemos acreditar para dar sentido ao mundo. Em termos práticos, quem acredita em fatos racionais, não é muito diferente de alguém que acredita no Shangri-lá ou em Hogwarts. Pois ambos não podem, por si mesmos, provar aquilo. O máximo que podem fazer é, dizer: “Dráuzio Varella disse”. “A Bíblia disse”. “J. K. Rowling disse”. E a menos que estudemos a fundo as coisas, não encontraremos provas para alegar que tal coisa é fato ou não. Mas mesmo com explicações tão pobres, a imaginação da conta de criar.
Acho interessante alertar que eu não acredito que essas coisas todas são mentiras – Átomos e tudo o mais. Até por que, se acreditasse seria considerado louco, pois todos no mundo ocidental acreditam nisso, não é mesmo? Mas acho interessante mostrar que até mesmo esse conhecimento é na verdade uma crença, uma fantasia, uma criação.
Criamos mundo para podermos viver nele, mas também criamos mundos para escapar dele.