Esse tema foi abordado de forma parcial no artigo
A ascensão do anti-herói, e por isso gostaria de dar mais algumas pinceladas nele, aproveitando para relacioná-lo com um dos meus primeiros ensaios aqui no blog,
Verossimilhança, um desafio para a literatura fantástica.
E para isso, começo com a questão: qual o objetivo da arte? Muitas pessoas já deram muitas respostas. O parnasiano dizia que a arte servia apenas para ela própria: A Arte pela Arte. Nesse sentido, ela serviria apenas como um exercício estético e teria como objetivo a produção do belo. Algumas pessoas engajadas em movimentos políticos oi sociais gostam de dar o tom panfletário à suas obras, dizendo que a arte tem o objetivo de fazer a pessoa pensar os problemas da sociedade e assim ter capacidade de agir.
Eu basicamente não discordo nem concordo com nenhum desses pontos de vista. Pois para mim, a arte é mais que isso. A arte, tal como a literatura, a pintura, a escultura e a música, são manifestações que partem do emocional para atingir o racional. Através da beleza e da manutenção das sensações — medo, paixão, riso, choro — ela é capaz de transcender a ficção e atingir o espectador de forma a fazê-lo não só prestigiar a obra, mas fazer parte dela. E através dessa situação, em que o espectador se vê não só como um agente passivo, mas sim um atuante na obra, a arte é capaz de fazê-lo sentir os dramas, emoções e dilemas do personagem.
A arte transcende a razão e mexe com partes inconscientes do ser humano, e para conseguir isso — retomo a Aristóteles nessa parte — ela tem que ser capaz de fazer aquele que a prestigia se envolver com a obra. E para isso ele tem que se sentir parte daquilo. E para isso é preciso verossimilhança. Mesmo uma obra de ficção fantástica precisa criar verossimilhança. Precisa, na medida do possível, sem perder sua identidade como produtora de sonhos, gerar o mínimo de possibilidade para o leitor de que aquilo poderia ser real. E nesse trabalho, os personagens são fundamentais.
Então, volto à pergunta do artigo sobre o anti-herói: por que os vilões estão tão em alta nos dias atuais? E retomo a resposta: Por que eles são o que temos mais próximo da realidade, de n[os mesmos. Não quero aqui fornecer uma concepção Hobbesiana, no estilo o homem é o lobo do homem. Não é essa intenção. Mas sim para chamar a atenção para o fato de que todos nós possuímos qualidades, mas também defeitos.
Esse artigo não tem como objetivo ser uma bandeira de defesa dos defeitos humanos, mas sim de mostrar o fato de que eles são partes de nós, numa justa medida com nossas qualidades. Negá-los, seria negar a nós mesmos. Por isso que os vilões são mais queridos, por que eles, de alguma forma, nos mostram lados nossos sem que necessariamente sejamos reprimidos por eles.
Algo que me fez pensar sobre o toma novamente foi quando terminei de assistir a série americana Vampire Diaries e perceber como o vampiro mal, Damon, tornou-se muito mais querido do público do que o vampiro bom, Stefan. Por que Damon é mais querido? Por que ele é um assassino? Alguém que possui um total desprezo pela vida humana? Não creio que essa seja a resposta. Mas talvez por que ele seja capaz de andar de um extremo ao outro.
Seu irmão, Stefan, é um personagem atormentado, que vive dilemas, que sofre desejos, mas é um personagem que vive com eles e em nenhum momento — ou então, em muito poucos momentos — comete deslizes. É Íntegro, é correto, respeitador, cavaleiro, educado, boa parca, inteligente. E blá, blá, blá. Nada contra essas qualidades. Muito bom para aqueles que as possuem, mas não seria um pouco demais colocar todas elas em um único indivíduo? É claro que existem pessoas integras, educadas, inteligentes no mundo, mas seria possível alguém ser perfeito e possuir todas essas características simultaneamente?

Acho que Stefan não foi o melhor exemplo a ser usado, pois uma coisa que o seriado demonstra — e isso eu acho um ponto extremamente positivo — é que ele também cometeu erros e também é capaz de deslizes. Então, vamos para outro exemplo: Uma vez encontrei uma comunidade no Orkut com os seguintes dizeres: Todos os homens deveriam ser Edward Cullen. Que lançava uma campanha para que nós, machos insensíveis portadores de falo, fôssemos mais parecidos com o personagem de Crepúsculo. E bem... desculpa acabar com os sonhos de vocês meninas, mas isso é impossível. Isso por que, para que sejamos Edwards Cullens teríamos que, antes disso, sermos mulheres.
Correndo o risco de ser apedrejado em praça pública ou queimado vivo em uma fogueira, devo dizer que Edward é sim uma mulher. Ele pensa como uma mulher, fala como uma mulher e age como uma mulher. Grande parte dos desejos, problemas e frustrações do público feminino foram passadas para esse personagem. Fora o fato de ele ser bonito, rico, multi-talentoso, educado, íntegro, galante, inteligente e blá, blá, blá... Talvez por isso (Talvez? É claro que é por isso!) ele seja tão popular, afinal, ele é a mistura do homem dos sonhos mais a melhor amiga. Quem poderia competir com isso?
Mas o problema é que quando um personagem se torna perfeito demais, ele não é mais um humano e sim um modelo. Um modelo esse que em 99,9999% dos casos é inatingível. Por isso nós homens, muitas vezes, não nos sentimos a vontade em torcer por ele. Para nós, o Jacob é muito mais legal, pois ele tem defeitos, mas são defeitos perdoáveis. Já ouvi muitas pessoas dizendo que nós homens não gostamos de Crepúsculo porque não gostamos de histórias de amor, porque não somos românticos. E isso é uma mentira. Pois vou confessar: Eu chorei vendo GHOST, me emocionei com as músicas de Mouling Rouge, torci pelo amor de Abelardo e Heloisa e... Vou parar por aqui antes que a coisa fique mais vergonhosa.

Mas o que quero dizer é que nós sim podemos gostar de arte romântica, mas só quando nos sentimos aptos a nos identificarmos com a personagem, a torcermos por ele como se estivéssemos torcendo por nós mesmos. E isso só é possível quando nos identificamos com essa personagem, quando vemos nele algo possível, algo real. Minha crítica principal contra os personagens perfeitos é essa. É claro que é legal pensarmos nos homens e nas mulheres dos sonhos. Isso é legal mesmo. Mas querer impor esses modelos para a realidade, aí não da certo.
Por isso um personagem como Damon é mais interessante, pois ele não é só defeitos, ele não é só maldade. Ele é capaz de fazer coisas legais, é capaz de ser bom. E ainda por isso, é irônico, é descolado, é um tanto canalha, qualidades essas que basicamente só um vilão pode ter. Ele é mal e também é bom e é isso que é ser humano.