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quinta-feira, 20 de maio de 2010

A difícil tarefa de se vencer o estrangeiro em nosso próprio território


O assunto do qual vou tratar aqui já foi discutido repetidas vezes em diferentes tempos, mas não custa nada dar uma reforçada. Sem querer ser nacionalista ao extremo, ou adepto de teorias conspiratórias de que as potências estrangeiras façam lavagem cerebral em nós para que compremos seus produtos, mas acho que ninguém pode negar que a produção nacional continua terrivelmente desvalorizada perante a produção estrangeira.
Falando de arte, temos muitos e muitos exemplos. Os milhões que pagamos por ano para que algum músico ou banda venha aqui para tocar uma única vez. Os besteiróis americanos que permanecem em cartaz em nossos cinemas por meses ininterruptos enquanto bons filmes nacionais duram no máximo poucas semanas. E também as editoras brasileiras que insistem em publicar traduções de Best-sellers americanos ou europeus enquanto temos inúmeros autores no nosso país que não encontram chance.
Como minha proposta no blog é discutir literatura, vou dar ênfase à questão dos livros. Eu compreendo perfeitamente que uma editora, seja ela qual for, é uma empresa. Logo, assim como todas, ela tem um objetivo claro: o lucro. Ela tem que se manter, ela tem uma folha de pagamento para cumprir, e como todo o bom negócio, tem que garantir a seu dono uma receita favorável.
Olhando as coisas por esse ponto de vista, é óbvio que se torna muito mais rentável, por possuir uma margem de risco menor, investir em um livro que já fez sucesso em algum outro lugar, que tem um marketing pronto, um público alvo. Isso se torna mais interessante do que pegar um trabalho do zero, tendo que criar para ele um estilo próprio, uma estratégia de propaganda própria e ainda correr o risco de ele não ser aceito. Porém, essa questão ainda não me parece suficiente para justificar o mal trato com a produção nacional que vemos claramente em nosso país.
O fato é que nossas editoras — não digo todas, mas um número considerável — não parecem prontas para competir no mercado. Quando digo isso, não quero dizer que não tenham capacidade, mas se encontram constrangidas ou com pouca coragem para isso. O mercado exige riscos, exige destreza de quem nele se lança, exige que o empresário esteja disposto a tentar inovar, investir, e, aí sim, lucrar.
As editoras internacionais sabem disso e por isso encontram coragem para pegar um autor novo, mas que, em sua visão tenha potencial, e investir nele. Criar um marketing próprio, uma estratégia de venda. E é isso que garante e a elas a primazia em alguns mercados. O que seria de J. K. Rowling hoje se na Inglaterra as editoras preferissem traduzir romances alemães ou franceses ao invés de investir na produção nacional? Bem, provavelmente o mundo jamais conheceria Harry Potter.
E o que será que acontece aqui no Brasil? Quantos talentos podem estar sendo desperdiçados por conta da falta de investimento? Mas quando falo de falta de investimento, não digo que a culpa é única e exclusivamente de nossas editoras, mas trago um pouco da responsabilidade para nós leitores também. Pois quantos de nós já não torcemos o nariz quando ouvimos falar sobre alguma produção nacional? Seja na literatura, na música ou no cinema — neste último, eu diria que a coisa é mais visível.
É claro que para nós leitores a produção estrangeira é muito mais acessível. Não estou dizendo o contrário. Elas são normalmente mais baratas, pois são publicadas em editoras de grande tiragem. Elas estão em toda a parte: nas vitrines, nas partes mais visíveis das livrarias. Mas isso também não justifica. Pois não é trabalho nenhum tentar buscar algo para além do que nos é basicamente empurrado.
Nelson Rodrigues uma vez disse que o brasileiro sofre de um grave complexo de Vira-lata, pois sempre se vê como inferior, sempre acha que o que vem de fora é melhor, que nossa produção jamais poderá chegar aos pés do que é feito nos EUA, Inglaterra, França, e Cia. Confesso que não discordo completamente dele. Não quero dizer com isso que devamos boicotar a produção estrangeira. Temos em nossa cabeça que tudo o que vem de fora é bom e tudo o que vem de dentro é ruim, mas eu não quero que tomemos o partido contrário. Trocar um extremo pelo outro não é minha intenção. O que eu proponho aqui é uma justa medida. Saber valorizar. O que eu trago aqui é uma volta do ideal do movimento antropofágico: mastigar, digerir e aproveitar do estrangeiro, apenas aquilo que dele presta e desprezar o que não presta. Valorizar sim a produção nacional. Mas não toda e qualquer, e sim as boas. Reconhecer que nela também temos pérolas que devem ser valorizadas, ou ficarão para sempre dentro da ostra.

Para encerrar minha linha de raciocínio, chamo a atenção para um escritor que é de conhecimento nacional e mundial: Paulo Coelho. Esse autor é extremamente criticado por muitos brasileiros. É chamado de literatura comercial – Engraçado que muitos que dizem isso são leitores de Agatha Cristie, Stephanie Meyer, J. K. Rowling e Meg Cabot que também são literaturas comerciais — de escritor de livros de auto-ajuda, ou de afrancesado. Esse último estigma é o que me chama mais a atenção, pois ele se baseia no fato de que Paulo Coelho, mesmo sendo brasileiro, vive na França e escreve usando muito do cenário europeu e que por isso ele estaria traindo o Brasil, esquecendo-se de suas raízes. Agora pensemos francamente: quem de nós no, lugar dele, não faria o mesmo?
Vamos nos colocar no lugar: Somos autores altamente criticados em nossos países de origem, menosprezados, alvos de inúmeras críticas. Porém, em contrapartida, se encontramos num país estrangeiro, um lugar aonde as pessoas nos tratam como reis, aonde somos elogiados, valorizados. Aonde ganhamos inúmeros prêmios e nosso trabalho é reconhecido. Em que pais você escolheria ficar? Francamente, acho que a resposta não é muito difícil.

Esse é um exemplo interessante, pois mostra, para mim, como nós mesmos não vemos nossas próprias pérolas e que, muitas vezes, precisamos que elas sejam descobertas em outros lugares para que possamos enxergar.


8 comentários:

  1. Nossa, concordo plenamente com vc! Realmente, nós brasileiros sofremos de síndrome de inferioridade, costumamos supervalorizar o importado em detrimento das nossas próprias produções. Precisamos mesmo de atitudes mais antropofágicas! Parabéns! Excelente post! E vc escreve muitooo bem!

    Abraço!

    Rosimayre- http://mayre-reciclandoideias.blogspot.com

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  2. Obrigado mesmo Mayre.
    E pegando carona no seu comentário, acho que é justo também atentar para o papel do escritor nisso tudo, pois esse complexo de vira-lata não só atinge aos consumidores, como também os produtores. Afinal, quantos trabalhos nacionais não se espelham no estrangeiro? Acho que falta um pouco de brasilidade em nossas produções e confesso que nesse requisito, nem eu estouy imune. :/
    Pois bem, acho que isso daria assunto apra outro artigo. rs
    Beijão Mayre e muito obrigado.

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  3. Mas conscientizar os leitores de que há obras nacionais de qualidade estimularia de forma diferente o mercado editorial.

    Beijos, Will.

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  4. É verdade. ^^
    Só estou dizendo que a coisa é uma via de mão dupla. Ambos temos que colaborar.
    Beijão Marina

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  5. Oi
    Tem um Selinho pr vc no meu Blog!
    Obrigada pela atenção!

    =)

    Visitem, comentem, sigam e aproveitem o meu blog:
    http://malucosdaleitura.blogspot.com/
    ...
    ♥ ... Bem sei que me AdoraM ...♥
    ...
    Bj

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  6. Tudo verdade.. Eu tbm tinha esse preconceito quando era mais nova, mas com o passar do tempo fui valorizando o nosso proprio trabalho que se formos ver é muio bom e de uma paixao maravilhosa!!!
    XD

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  7. Cara, achei bem interessante o que vc escreveu.

    Eu curto muito literatura fantástica, mas tem muito clássi desse gênero que eu sei que é bom, é estrangeiro e que falta eu ler... Ai quando vou a livraria fico na duvida do certo pelo duvidoso entende?

    E eu sou muito, na maior parte das vezes, de analisar a opinião das pessoas. Tem muita coisa brasileira e Latina que eu leio. De verdade. Mas é muuuuuuuuuuuuuuita gente escrevendo (coisas que podem até ser boas) e tem tonelaaaaadas de clássicos ainda que eu não li. Aí na dúvida eu fico com os clássicos.

    Mas acho cômodo das editoras apostar num já consarado best seller estrangeiro e apenas adaptar o marketing para o português.

    Os poucos autores brasileiros contemporâneos que escreveram contos fantásticos que eu li, sinceramente não curti muito. Era apenas "mais do mesmo"... Tive azar em não pegar autores bons!

    Gostei do teu texto!

    Abraço!

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  8. Não só você Kézia. Eu também já tive muito preconceito, mas graças a Deus que podemos nos curar deles, não é mesmo? rs
    Tenho que concordar com Você Facundo. Realmente, trocar o certo por um duvidoso não é um risco muito agradevel de se correr na maioria das vezes. Mas o que seria da vida sem um pouco de risco? ^^

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