REED,
John. México Rebelde, tradução: Mary
Leite de Barros, Segunda edição, Rio de Janeiro: Editora Civilização
Brasileira, 1978.
O
livro de John Reed se propõe a relatar minuciosamente a realidade em torno da
Revolução Mexicana, aproveitando-se assim da própria experiência do autor e sua
narrativa jornalística que caracteriza o gênero de seu trabalho; Reed fora
enviado para cobrir o movimento revolucionário no ano de 1913 pela revista Metropolitan Magazine. Do ponto de vista
da escrita, por tentar trazer o máximo de precisão para a obra, a linguagem
objetiva do autor ganha pontos, todavia, na perspectiva literária, perde-se em
qualidade pela falta de fluidez e cuidado estético para com a mesma.
A
narrativa de “México rebelde” preocupa-se em relatar as experiência do autor
acerca dos acontecimentos envolvendo os revoltosos, sem buscar a imparcialidade
pretendida por muitos jornalistas. A simpatia de John Reed pelo movimento e
pelas pessoas que dele participaram é sentida claramente ao longo da história e
seu viés esquerdista tão pouco é ocultado ao leitor. Contudo, algumas visões
apresentadas no livro parecem fornecer uma crítica, mesmo que de forma
despercebida ao próprio autor, sobre a dita revolução. Desta maneira, “México
rebelde”, além de uma simples narração de fatos se mostra uma perspectiva
interessante acerca da vivência insurreta mexicana, pois apesar de fruto de um
olhar condizente com a causa, ainda assim é uma visão externa aos agentes
históricos do processo. A respeito destas características do trabalho, vamos
por partes.
Sobre
o relato minucioso, podemos dizer que seus capítulos não poupam o leitor da
brutalidade do movimento. Cenas de puro horror, com homens despedaçados e lutas
acirradas banham as páginas de sangue, e a miséria do povo mexicano é evidente
em toda a narrativa. Contudo, apesar das dificuldades, este é também um grupo
feliz, solidário e que aproveita as noites de calma para festejar. As
personagens da história, em sua grande maioria, são camponeses com pouca ou
nenhuma instrução, famintos, membros de um grupo que vive a margem da sociedade
mexicana. Todos possuem necessidades imediatas que precisam ser atendidas e
enxergam na revolução a possibilidade de mudança para suas vidas. Um sentimento
verdadeiro deve-se dizer, acerca do envolvimento destes homens com a luta
revolucionária. Os insurgentes de Reed nos são apresentados como pessoas
realmente honestas e dispostas a encarar uma luta por um ideal, que em seus
horizontes se mostra como verdadeiro. Porém, quando falamos deste ideal, este parece
carecer de precisão de acordo com a concepção do autor.
Pancho
Villa é a figura central em “México Rebelde”. Sua liderança é o elemento de coesão
dessa massa tão disforme e desorientada. Pancho, na narrativa, parece se
mostrar como o único ideal realmente presente na mente da maioria dos
envolvidos. Assim, o que se mostra importante a destacar é que “México rebelde”
acaba por incitar ao leitor que o movimento mexicano demonstrava fraquezas no
que diz respeito a uma ideologia comum. Os revoltosos seguem seu líder sem
necessariamente questionar, escassos de um viés para além dele que oriente seus
projetos de futuro. O único projeto realmente visado é a mudança, mas para onde
não se sabe.
É
neste ponto que o título da obra mostra-se menos inocente. Ao titular o
trabalho como “México Rebelde” ou “México insurgente” e não “México
revolucionário”, revela-se uma concepção acerca da agitação. Para os
idealizadores do título, o levante mexicano não possui potenciais
revolucionários, talvez por ser uma investida realizada por pessoas sem
instrução e sem ideais revolucionários pautados em uma ideologia comum – como o
iluminismo, comunismo ou anarquismo, para citar os que estavam em voga no
período. A arruaça dos camponeses, carentes de ideologia, fartos de necessidades
e esperançosos com o que o futuro lhes reserva.
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